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Engenheiro passou dez anos errando no sertão de Pernambuco até retirar o cimento das barragens e mudar a forma de aproveitar a água
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 15/10/2026 às 15:10
Atualizado em 15/10/2026 às 15:30
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José Artur Padilha começou experiências no sertão de Pernambuco em 1969. Após tentativas com estruturas vedadas, adotou barragens sem cimento para reduzir a força das enxurradas e acumular sedimentos. Na fazenda Caroá, o método buscou manter água no solo e abastecer animais, inspirando iniciativas posteriores em outras áreas do Nordeste.
José Artur Padilha passou uma década testando estruturas que seguravam a água, mas favoreciam o acúmulo de sal na fazenda Caroá, em Afogados da Ingazeira, no sertão de Pernambuco. A mudança veio quando o engenheiro retirou o cimento das barragens e deixou a corrente passar entre as pedras.
A trajetória é relatada pelo canal Terra Transformada, em vídeo publicado em 11 de outubro de 2026. Segundo a narrativa, o trabalho iniciado em 1969 resultou em cerca de 100 barramentos na propriedade e influenciou projetos de conservação do solo no Ceará.
Experimentos começaram em uma fazenda de cerca de 600 hectares
Padilha nasceu em 1942 e se formou em engenharia mecânica pela Universidade Federal de Pernambuco em 1966. Trabalhava na Companhia Federal de Armazéns quando começou a testar intervenções nos riachos da propriedade, três anos depois.
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A Caroá, com cerca de 600 hectares de Caatinga, tornou-se o local dessas experiências. O problema observado era a passagem rápida das enxurradas, que carregavam terra e deixavam pouca umidade disponível depois das chuvas.
Paredes vedadas seguravam a enxurrada, mas deixavam sal no terreno
Entre 1969 e 1979, as primeiras tentativas usaram paredes retas de pedra e argamassa com cimento atravessando os riachos. Conforme o relato, a retenção formava acúmulos superficiais que evaporavam sob o sol, enquanto o sal permanecia no terreno.
Em 1979, Padilha também mandou construir um grande barreiro de terra. Mais tarde, abriu o paredão para devolver o curso ao leito e calculou que o dinheiro gasto permitiria levantar 33 arcos de pedra.
Formato em arco resolveu apenas uma parte do problema
A mudança seguinte foi trocar as paredes retas por estruturas curvas, com a parte convexa voltada para a chegada da corrente. Nesse arranjo, a pressão ajuda a comprimir as pedras umas contra as outras.
A vedação, porém, continuava presente e o acúmulo de sal permanecia, segundo a história apresentada. A solução adotada depois dispensou o cimento: as pedras passaram a ser encaixadas, mantendo espaços para a passagem da água.
Barragens sem cimento deixam passar a corrente e retêm sedimentos
As barragens descritas são baixas e raramente ultrapassam um metro de altura. Sua função é diminuir a velocidade da enxurrada, permitindo que parte da areia, do barro e da matéria orgânica transportada fique no local.
A água atravessa os vãos, enquanto o material retido se acumula atrás dos arcos. O objetivo do método sem cimento é formar uma camada de sedimentos capaz de conservar umidade, em vez de depender de um lago exposto ao sol.
Método Base Zero depende de uma sequência de arcos
Padilha chamou a proposta de Base Zero. Os depósitos formados atrás das estruturas criam patamares, descritos como platôs, que recebem novas enxurradas e favorecem a infiltração no material acumulado.
A distância entre as barragens acompanha o declive do terreno. O sistema procura reduzir a velocidade do escoamento em vários pontos de uma microbacia, com uma sequência de obstáculos, e não apenas em uma construção isolada.
Cacimba abastecia 50 bebedouros por gravidade, segundo o relato
Uma cacimba em um ponto elevado da fazenda passou a alimentar uma rede de cerca de 20 quilômetros de tubulação. A distribuição alcançava 50 bebedouros e funcionava por gravidade, sem bomba, eletricidade ou diesel, conforme a narrativa.
O sistema estava montado em 1996, e Padilha publicou o método no ano seguinte. Em uma visita de repórteres em 2013, durante a seca no Nordeste, a propriedade foi descrita como capaz de fornecer água aos animais durante todo o ano.
Ceará levou a experiência a quatro microbacias
O trabalho desenvolvido em Pernambuco serviu de referência para iniciativas no Ceará. A fonte relata mais de 60 mil estruturas erguidas durante a seca de 1998 e 1999, em uma mobilização que depois foi reconhecida como menos rigorosa tecnicamente.
Entre 2001 e 2009, outro programa atuou em quatro microbacias e construiu cerca de 3 mil barragens. Os documentos mencionados apresentam totais diferentes, de 2.879 e 3.332, por isso a narrativa adota o número aproximado.
Programa incluiu agricultores treinados e outras obras de conservação
A iniciativa também reuniu 470 barragens subterrâneas e 68 quilômetros de cordões de pedra. Essas muretas acompanham o relevo e fazem parte do conjunto de intervenções descritas para conter a perda de solo.
Cerca de 400 agricultores foram treinados para executar os trabalhos. Nos locais acompanhados, o relato menciona retorno de olhos-d’água, maior umidade nos leitos e recuperação de vegetação nas margens.
Medições encontraram terra retida, mas faltam séries sobre a água
Levantamentos citados para 2007 e 2008 avaliaram oito estruturas em Canindé, no Ceará. A média informada foi de pouco mais de oito metros cúbicos de sedimentos retidos por barramento, com resultados semelhantes aos de uma pesquisa anterior.
O canal também menciona análises de salinidade e registros de produção agrícola, mas reconhece uma lacuna: não apresenta séries comparáveis de níveis de cacimbas ou de dias de escoamento antes e depois das obras. Isso limita a quantificação do ganho hídrico.
Os números de 11.800 obras e cinco rios pertencem à Índia
A própria narrativa esclarece que os números usados no título do vídeo se referem a outra experiência, no Rajastão, na Índia. Eles não correspondem ao trabalho de Padilha em Pernambuco.
No caso brasileiro, a fonte descreve recuperação de nascentes, retenção de sedimentos e prolongamento da umidade. Não apresenta comprovação de que cinco rios do sertão tenham voltado a correr permanentemente por causa dessas intervenções.
Pedras próximas, manutenção e acordo entre vizinhos limitam a expansão
O uso de material disponível no local é uma condição importante para manter o custo baixo. A formação dos depósitos leva tempo, e chuvas fortes podem deslocar pedras, exigindo revisão e reparos nas estruturas.
A sequência de arcos também depende de espaço ao longo dos riachos, que atravessam divisas de propriedades. A cooperação entre vizinhos e o cuidado continuado aparecem como condições para aplicar o método no sertão.
Relato de 2013 apontou laboratório fechado e estruturas em funcionamento
Assista o vídeo
O laboratório de visitas e atividades mantido na Caroá estava fechado por falta de apoio quando os repórteres chegaram, em 2013, segundo a fonte. Os arcos continuavam funcionando, e o método permanecia registrado em publicações e manuais.
A experiência apresentada ajuda a administrar a disponibilidade hídrica em escala rural no sertão, mas não é descrita como solução para abastecer cidades ou eliminar a seca. O registro de 2013 também não permite afirmar qual é a situação atual da fazenda.
Na sua opinião, o que faria mais diferença para ampliar iniciativas desse tipo: assistência técnica, acompanhamento dos resultados ou organização entre os agricultores? Deixe sua opinião nos comentários.
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BARRAGENS
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

