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Europa tem potencial de 27 milhões de toneladas de matérias-primas para biocombustíveis, mas regras ambientais impedem seu aproveitamento e gigante finlandesa pressiona por mudanças em meio à crise energética
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 22/10/2026 às 20:36
Atualizado em 22/10/2026 às 20:37
Biocombustíveis Renováveis
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A finlandesa Neste pediu à Comissão Europeia uma revisão das exigências de certificação para culturas intermediárias utilizadas em biocombustíveis avançados. A proposta surge em meio à disparada dos preços dos combustíveis fósseis e ao debate sobre segurança energética na União Europeia.
A Europa pode ter até 27 milhões de toneladas de matérias-primas agrícolas disponíveis para a fabricação de biocombustíveis, mas parte desse potencial permanece fora do mercado devido às regras de certificação ambiental da União Europeia. A estimativa foi apresentada pela finlandesa Neste, uma das principais empresas do setor de combustíveis renováveis, que agora pressiona a Comissão Europeia por mudanças regulatórias.
O pedido foi apresentado em 20 de outubro de 2026, durante a conferência Argus Biofuels Europe, realizada em Londres. Segundo reportagem da Reuters, a companhia defende a flexibilização das restrições sobre determinadas matérias-primas que, em sua avaliação, podem ser utilizadas na produção de combustíveis sem comprometer o abastecimento alimentar ou provocar desmatamento.
A discussão ganhou força em um momento de encarecimento do petróleo, provocado pelo conflito envolvendo o Irã. Para a indústria, ampliar o uso de matérias-primas renováveis representa uma possibilidade de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. Para os reguladores europeus, o desafio é garantir que essa expansão não transfira os impactos ambientais para o campo.
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Por que 27 milhões de toneladas de matérias-primas não podem ser plenamente aproveitadas?
O principal obstáculo apontado pela Neste está nas exigências que determinam quais matérias-primas podem ser certificadas para a produção de biocombustíveis sustentáveis na União Europeia.
Durante o evento em Londres, Samuel Maubanc, responsável pelas relações públicas e regulatórias da empresa na Europa, Oriente Médio e África, afirmou que a disponibilidade potencial de culturas intermediárias no continente pode chegar a 27 milhões de toneladas.
Parte desse volume, entretanto, não consegue atender aos atuais critérios de certificação.
O número não representa 27 milhões de toneladas de combustível pronto para consumo. Trata-se de uma estimativa de disponibilidade de matérias-primas agrícolas que poderiam abastecer processos industriais de conversão em combustíveis renováveis.
A distinção é importante porque a quantidade final de combustível depende da composição da biomassa, da tecnologia utilizada e do rendimento industrial.
A proposta da Neste busca ampliar o reconhecimento regulatório de determinadas culturas intermediárias, especialmente aquelas cultivadas entre safras principais ou em áreas degradadas.
Culturas plantadas entre duas safras estão no centro da disputa ambiental
Uma das matérias-primas mencionadas pela empresa é a canola, quando cultivada como cultura intermediária ou de cobertura.
Esse tipo de produção agrícola pode ocorrer no intervalo entre duas colheitas principais, aproveitando períodos em que a terra não estaria ocupada pela cultura comercial predominante.
A lógica apresentada pela indústria é utilizar essa biomassa na fabricação de biocombustíveis avançados sem necessariamente exigir a conversão de novas áreas agrícolas.
A discussão, porém, envolve uma diferença fundamental entre os biocombustíveis convencionais e os chamados combustíveis avançados ou de segunda geração.
Os primeiros frequentemente utilizam matérias-primas agrícolas também destinadas à alimentação humana ou animal, como milho e cana-de-açúcar. Já os avançados podem aproveitar determinados resíduos, subprodutos e outras fontes de biomassa, conforme os critérios regulatórios aplicáveis.
A União Europeia mantém restrições justamente porque a expansão indiscriminada de culturas energéticas pode provocar competição pelo uso da terra, pressão sobre os alimentos e mudanças indiretas na ocupação de áreas agrícolas.
A Neste sustenta que culturas intermediárias cultivadas sob condições adequadas não deveriam enfrentar as mesmas limitações impostas a matérias-primas associadas a esses riscos.
Isso não significa que toda cultura de cobertura seja automaticamente sustentável. O resultado depende das práticas agrícolas, da utilização do solo e da comprovação de que a produção atende aos requisitos ambientais.
Crise energética coloca os biocombustíveis novamente no centro das decisões europeias
A pressão sobre as regras ambientais ocorre enquanto os países europeus enfrentam uma nova escalada dos custos da energia.
Conforme informou a Reuters em 20 de outubro, o encarecimento dos combustíveis fósseis associado ao conflito com o Irã renovou o interesse por alternativas capazes de ampliar a segurança energética.
Nesse cenário, os biocombustíveis aparecem como uma das opções para diversificar o fornecimento de energia ao setor de transportes.
A possibilidade de produzir combustíveis a partir de matérias-primas disponíveis no território europeu também interessa aos países que procuram reduzir sua exposição às oscilações internacionais do petróleo.
Existe, entretanto, uma limitação que não pode ser ignorada: a ampliação da oferta de biomassa não significa automaticamente combustível mais barato.
O custo final depende da produção agrícola, do transporte, do processamento industrial, da certificação e das condições de mercado.
A mudança defendida pela Neste poderia ampliar o conjunto de matérias-primas disponíveis para as refinarias, mas seus efeitos sobre os preços dependeriam da implementação das novas regras e da capacidade efetiva de produção.
Produção mundial de biocombustíveis pode crescer quase 70% até 2030
A disputa europeia acontece em meio a uma perspectiva de forte expansão mundial dos combustíveis renováveis.
Um estudo recente do centro de pesquisas britânico Chatham House, citado pela Reuters, aponta que a produção global de biocombustíveis poderá crescer quase 70% até 2030, em comparação com os níveis de 2025.
Um dos principais fatores dessa expansão é o aumento das exigências de mistura de combustíveis renováveis aos combustíveis convencionais em grandes mercados consumidores.
Isso cria uma pressão simultânea sobre duas partes da cadeia produtiva.
De um lado, governos e empresas precisam ampliar a oferta de combustíveis de menor intensidade de carbono. De outro, precisam encontrar matérias-primas suficientes para atender à demanda sem provocar consequências indesejadas sobre a produção de alimentos e o meio ambiente.
É justamente nessa disputa que a proposta da Neste se encaixa.
A empresa não está solicitando simplesmente autorização para utilizar qualquer cultura agrícola na fabricação de combustíveis. Sua argumentação se concentra no tratamento regulatório dado a matérias-primas que considera compatíveis com as exigências de sustentabilidade.
Comissão Europeia ainda não anunciou mudança nas regras
Apesar da pressão da indústria, a revisão defendida pela Neste ainda não representa uma decisão da União Europeia.
Na reportagem publicada em 20 de outubro, a Reuters informou que a Comissão Europeia não havia apresentado resposta imediata ao pedido da companhia.
Não existe, portanto, uma liberação anunciada para o aproveitamento das 27 milhões de toneladas estimadas pela empresa, nem confirmação de que esse volume poderá ser integralmente utilizado.
O próximo passo depende da posição dos reguladores europeus e de eventuais alterações nos critérios de elegibilidade e certificação.
A discussão expõe uma dificuldade que tende a acompanhar o crescimento dos biocombustíveis nos próximos anos: produzir mais combustível renovável exige não apenas fábricas e investimentos, mas também matérias-primas ambientalmente adequadas e reconhecidas pelas normas.
Para a Neste, a Europa já dispõe de um potencial agrícola relevante. O que permanece em disputa é quanto desse potencial poderá ser reconhecido oficialmente e convertido em combustível sem comprometer os objetivos ambientais do continente.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

