Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Frango chinês até 20% mais barato atrai clientes africanos que compravam do Brasil, enquanto excesso de produção leva empresas da China a buscar novos compradores no mercado internacional de carnes

Frango chinês até 20% mais barato atrai clientes africanos que compravam do Brasil, enquanto excesso de produção leva empresas da China a buscar novos compradores no mercado internacional de carnes

Faça um comentário

7 min de leitura

Frango chinês até 20% mais barato atrai clientes africanos que compravam do Brasil, enquanto excesso de produção leva empresas da China a buscar novos compradores no mercado internacional de carnes

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 17/10/2026 às 13:24

Atualizado em 17/10/2026 às 13:50

Agronegócio

Grupo

Frango chinês custa até 20% menos que o brasileiro e começa a atrair clientes africanos enquanto excesso de produção empurra a China para novos mercados.

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

China ampliou a produção de carnes e passou a exportar mais diante da perda de força do consumo interno. Cortes de peito e coxa vendidos por empresas chinesas já chegam a alguns mercados com preços de 10% a 20% inferiores aos produtos brasileiros.

A China está ampliando sua presença no comércio internacional de carnes depois de produzir mais alimentos do que consegue absorver no próprio mercado. No setor de frango, a combinação de oferta elevada, produção em larga escala e preços competitivos já começa a disputar clientes tradicionalmente atendidos por países como o Brasil.

Segundo informações publicadas pelo g1 em outubro de 2026, com dados da Reuters, cortes chineses de peito e coxa de frango chegam a custar entre 10% e 20% menos que os equivalentes brasileiros. A diferença levou compradores africanos a buscar alternativas na China.

A comerciante internacional de carnes Branexx começou a comprar aves chinesas em março, depois que clientes da África procuraram opções mais baratas do que as importações brasileiras. O movimento não significa que a China tenha substituído o Brasil nesses mercados, mas mostra que o preço passou a abrir espaço para um novo concorrente.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

China exportou US$ 2,6 bilhões em produtos de frango em 2025

A mudança já aparece nos dados comerciais.

A China exportou US$ 2,6 bilhões em produtos de frango em 2025, quase o dobro do valor registrado em 2020.

No mesmo ano, o país se tornou exportador líquido de carne de frango, ou seja, passou a vender ao exterior mais do que importava.

A mudança é significativa para um mercado no qual a China sempre teve peso relevante como compradora de proteínas.

Agora, parte da produção interna que não encontra demanda suficiente dentro do país passa a buscar espaço entre consumidores internacionais.

Consumo de carne suína caiu, mas produção continuou crescendo

Parte do excesso de oferta está ligada a mudanças no consumo dos chineses.

Durante décadas, a carne suína ocupou posição central na dieta do país. Esse padrão começou a mudar, especialmente nas áreas urbanas.

O consumo per capita de carne suína caiu 13% desde o pico registrado em 2023.

Ao mesmo tempo, o consumo de frango por pessoa aumentou mais de 50% na década encerrada em 2024.

Mesmo com essa mudança de hábitos e com a desaceleração da economia chinesa, a produção agropecuária continuou avançando.

Em 2025, o país produziu um recorde de 59 milhões de toneladas de carne suína.

A produção de aves cresceu 7%.

Quando a expansão da oferta supera a capacidade do mercado doméstico de absorver os produtos, as empresas passam a buscar saída no comércio internacional.

Preço chinês passou a pressionar fornecedores brasileiros

O fator que mais chama atenção nesse avanço é o preço.

Ezequiel Pires, presidente da Branexx, afirmou que cortes chineses de peito e coxa custam entre 10% e 20% menos que os produtos brasileiros.

Essa diferença foi suficiente para estimular clientes africanos a procurar novos fornecedores.

Para exportadores brasileiros, a mudança cria um cenário de competição diferente.

A China deixa de ser apenas um grande mercado consumidor e passa também a aparecer como fornecedora em regiões onde companhias brasileiras já atuam.

O efeito pode surgir não apenas na perda direta de contratos, mas também nas negociações de preço.

Quando um comprador tem acesso a uma oferta mais barata, ele pode usar essa referência para pressionar os fornecedores tradicionais.

Compradores já usam preços chineses como referência na Tailândia

Esse comportamento já preocupa empresas em outros países.

Na Tailândia, um dos concorrentes importantes no mercado internacional de aves, representantes do setor afirmam que os clientes passaram a usar os preços chineses como parâmetro durante as negociações.

Isso amplia o impacto da entrada da China.

Mesmo quando um comprador não fecha negócio com o fornecedor chinês, a simples existência de uma alternativa mais barata pode reduzir o poder de negociação de empresas de outros países.

Brasil, Tailândia e produtores europeus passam, assim, a enfrentar uma concorrência adicional em mercados onde já disputavam clientes.

Participação chinesa dobrou na União Europeia

O crescimento da presença chinesa também aparece na Europa.

A participação da China no mercado de produtos de aves processadas da União Europeia dobrou desde 2022 e chegou a 10%.

No Reino Unido, o avanço foi ainda maior.

A fatia chinesa triplicou e superou 14%, segundo dados da consultoria Gira citados pela Reuters.

Esses números indicam que a expansão não está limitada a mercados emergentes ou compradores particularmente sensíveis a preço.

Empresas chinesas também estão ampliando espaço em regiões com regras sanitárias e comerciais mais exigentes.

Excesso de produção é resultado de política de segurança alimentar

A expansão da oferta chinesa não ocorreu por acaso.

Nos últimos anos, o governo incentivou a produção agropecuária como parte de uma estratégia de segurança alimentar.

A intenção era reduzir vulnerabilidades externas e garantir abastecimento suficiente para a população.

Esse movimento ganhou força depois de problemas sanitários que afetaram o país, como a peste suína africana iniciada em 2018.

Produtores ampliaram rebanhos, instalações e capacidade industrial.

O problema é que a demanda interna não cresceu no mesmo ritmo.

Com o consumo mais fraco e a oferta elevada, parte dessa estrutura produtiva passou a gerar excedentes.

A exportação se torna uma maneira de encontrar novos compradores para produtos que não seriam absorvidos integralmente dentro da China.

Subsídios representam parcela relevante da receita agrícola

As políticas públicas também ajudaram a sustentar essa expansão.

Entre 2022 e 2024, os subsídios representaram aproximadamente 13% da receita bruta dos produtores agrícolas chineses, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico citados na reportagem.

Esse nível foi quase três vezes superior ao registrado no início dos anos 2000.

Os incentivos não explicam isoladamente os preços menores, mas fazem parte do ambiente econômico no qual a produção agrícola chinesa cresceu.

Na avicultura, empresas também investiram em escala e tecnologia.

Galpões passaram de 20 mil para 120 mil frangos

Um exemplo desse processo aparece na Wintop Food, empresa ouvida pela Reuters.

Em dez anos, a companhia aumentou de 20 mil para 120 mil a quantidade de frangos alojados em cada galpão.

A mudança mostra como a escala de produção avançou.

Instalações maiores permitem concentrar operações e podem reduzir custos por unidade quando acompanhadas de ganhos de eficiência.

Esse tipo de investimento ajuda empresas chinesas a competir em preço quando direcionam parte da produção para o mercado externo.

Frango não é o único produto chinês ganhando espaço

O movimento também alcança outros alimentos.

As exportações chinesas de laticínios devem atingir US$ 600 milhões em 2026, segundo os dados citados pela Reuters.

O valor corresponde ao dobro do registrado três anos antes.

O padrão é semelhante ao observado nas carnes: capacidade produtiva elevada, demanda doméstica abaixo do esperado e busca por consumidores fora do país.

Assim, o avanço do frango chinês faz parte de uma transformação mais ampla no comércio agroalimentar da China.

Segurança alimentar ainda é um desafio para exportadores chineses

O preço mais baixo não elimina obstáculos.

A indústria alimentar chinesa ainda enfrenta desconfiança em alguns mercados devido ao histórico de episódios relacionados à segurança dos alimentos.

Para conquistar clientes de maneira consistente, os exportadores precisam demonstrar que cumprem padrões sanitários, garantem rastreabilidade e mantêm qualidade estável.

Essas exigências se tornam particularmente importantes em mercados com regras rigorosas de importação.

Na União Europeia, por exemplo, os alimentos importados precisam cumprir padrões sanitários e de segurança equivalentes aos aplicados aos produtos locais.

O bloco também planeja reforçar a identificação da origem de alimentos a partir de 2027, começando pelos produtos de aves.

Preço pode continuar sendo decisivo para compradores

Apesar das preocupações sanitárias, o custo permanece central nas decisões de muitos importadores.

Para compradores que negociam grandes volumes, diferenças de 10% ou 20% podem alterar significativamente a conta final.

É justamente essa vantagem que vem ajudando empresas chinesas a abrir portas em mercados onde fornecedores brasileiros já estavam estabelecidos.

O cenário não significa que o Brasil tenha perdido sua posição no comércio internacional de frango.

Significa que a disputa por clientes passou a incluir um concorrente que dispõe de grande escala produtiva, oferta excedente e preços agressivos.

A China, que durante anos foi observada sobretudo como compradora de alimentos, começa a exercer pressão também como exportadora. Se a produção continuar acima da capacidade do mercado doméstico e os preços permanecerem competitivos, empresas chinesas poderão ampliar a presença em mercados hoje abastecidos por produtores do Brasil, da Tailândia e de outros grandes exportadores.

Tags

´chinaBrasil


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

Sair da versão mobile