Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Frete Brasil–Ásia dispara 76%, chega a US$ 41,79 por tonelada e já consome 37% do valor do minério de ferro brasileiro vendido à China, pressionando a margem das mineradoras

Frete Brasil–Ásia dispara 76%, chega a US$ 41,79 por tonelada e já consome 37% do valor do minério de ferro brasileiro vendido à China, pressionando a margem das mineradoras

Faça um comentário

5 min de leitura

Frete Brasil–Ásia dispara 76%, chega a US$ 41,79 por tonelada e já consome 37% do valor do minério de ferro brasileiro vendido à China, pressionando a margem das mineradoras

Escrito por Noel Budeguer

Publicado em 06/10/2026 às 20:48

Atualizado em 06/10/2026 às 20:50

Mineração

Canal

Navio mineraleiro Vale Rio de Janeiro durante manobra no Porto de Tubarão, no Espírito Santo. Crédito: Tadeu Bianconi/Agência Vale/Divulgação.

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Frete entre Brasil e Ásia sobe 76,4% em 12 meses, chega a US$ 41,79 por tonelada e passa a consumir 37,16% do valor do minério de ferro de 65% vendido à China, comprimindo o retorno das mineradoras brasileiras.

O custo para levar minério de ferro brasileiro até a Ásia disparou e passou a consumir uma fatia incomum do valor da carga. Em 15 de setembro, o frete da rota Tubarão–Beilun/Baoshan chegou a US$ 41,79 por tonelada, depois de tocar o recorde de US$ 42,02 no dia anterior. Em doze meses, a alta acumulada foi de 76,4%.

A escalada acontece enquanto o minério de alto teor perde valor no mercado internacional. A referência de finos de 65% de ferro entregue em Qingdao foi cotada a US$ 112,45 por tonelada seca em 15 de setembro, queda de 8% em doze meses. Com isso, o transporte marítimo passou a representar 37,16% do valor CFR desse minério.

Para as mineradoras brasileiras, a combinação atinge diretamente o valor que sobra depois do transporte. O efeito é mais duro para produtores de médio porte, que embarcam volumes menores, possuem menos poder de negociação e ainda carregam custos internos de rodovia, ferrovia e transbordo antes de a carga chegar ao porto.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Frete sobe 76% e muda a conta da exportação brasileira

No início de 2026, a rota entre o Brasil e a Ásia operava durante boa parte do primeiro trimestre entre US$ 19 e US$ 26 por tonelada. A partir de abril, o custo rompeu a marca de US$ 30 e permaneceu em um patamar muito mais alto.

O movimento alterou o chamado netback, indicador usado para estimar quanto resta do preço entregue na Ásia depois do custo marítimo. Com o minério de 65% Fe em US$ 112,45 por tonelada e o frete em US$ 41,79, o netback implícito ficou em US$ 70,66 por tonelada em 15 de setembro.

Em 15 de janeiro, esse mesmo indicador estava em US$ 103,09 por tonelada. A queda acumulada em oito meses chegou a 31,5%. O recuo do preço internacional explica parte da perda, mas o salto do transporte passou a ocupar uma parcela muito maior da diferença.

Minério de ferro é carregado em um navio Valemax no Porto de Tubarão, no Espírito Santo. Crédito: divulgação

Entre os fatores que pressionam o frete estão o petróleo mais caro e a percepção de risco em rotas marítimas ligadas ao Oriente Médio. A volatilidade também aumentou: entre o piso registrado em janeiro e o topo de setembro, a taxa da rota oscilou mais de 115%.

Mineradoras menores ficam mais expostas ao choque logístico

As grandes produtoras conseguem reagir melhor porque trabalham com enorme escala, infraestrutura integrada e portfólios com minério de maior teor. A Vale, por exemplo, produziu 336 milhões de toneladas de minério de ferro em 2025, o maior volume da companhia desde 2018. Só no quarto trimestre daquele ano foram 90,4 milhões de toneladas.

Essa escala permite diluir custos fixos e operar com uma estrutura logística que não está disponível para todos os concorrentes. Para empresas médias, cada dólar adicional no frete pode retirar margem diretamente de operações que já chegam ao porto com custos internos relevantes.

A pressão aumenta quando o preço internacional se aproxima da faixa de custo de operações menos eficientes. A análise publicada pela Brasil Mineral indica cerca de US$ 90 por tonelada como referência de suporte marginal para parte do setor. Em cenários abaixo desse nível, minas de custo elevado tendem a reduzir produção e podem suspender atividades.

O minério brasileiro de alto teor ainda oferece uma defesa importante. Produtos com 65% de ferro e menor presença de impurezas recebem prêmio de qualidade e atendem siderúrgicas que buscam mais eficiência. Esse diferencial ajuda, mas perde força quando o frete ultrapassa US$ 40 por tonelada.

China segue comprando volumes elevados de minério de ferro

A demanda chinesa continua grande. Em agosto, a China importou 108,54 milhões de toneladas de minério de ferro, crescimento de 0,4% em relação a julho e de aproximadamente 3,1% na comparação anual. O volume superou as expectativas de analistas consultados pela Reuters.

Ao mesmo tempo, a oferta disponível segue confortável. Em 14 de setembro, os estoques em 35 grandes portos chineses estavam em 143,49 milhões de toneladas. Na semana encerrada em 15 de setembro, os embarques globais atingiram 37,41 milhões de toneladas, alta de 9% sobre a semana anterior.

Esse quadro dificulta uma recuperação forte das cotações. A China compra muito minério, porém encontra oferta suficiente para negociar preços. Com o frete elevado, a margem de importação chinesa também ficou negativa em meados de setembro, o que aumenta a pressão dos compradores por condições melhores.

Distância até a Ásia vira uma desvantagem mais cara para o Brasil

O peso do transporte ganha relevância porque o principal mercado comprador está do outro lado do mundo. A distância entre os portos brasileiros e a China torna o país mais sensível a altas de combustível, risco marítimo e falta de navios disponíveis.

A Austrália, principal concorrente do Brasil no minério de ferro, possui vantagem geográfica no abastecimento asiático. Quando o frete internacional sobe, essa diferença de distância passa a aparecer com mais força na comparação de custos entre as duas origens.

Vista aérea do Porto de Tubarão, no Espírito Santo, com navios atracados e estruturas de movimentação de granéis. Crédito: divulgação

Para o Brasil, a defesa continua apoiada na qualidade do minério, na escala das maiores companhias e na eficiência dos corredores de exportação. O desafio cresce para produtores que não controlam toda essa cadeia e precisam contratar transporte em diferentes etapas.

Frete acima de US$ 40 pode separar quem ainda consegue exportar com margem

O cenário de setembro mostra como uma mudança logística consegue alterar rapidamente a economia da mineração. O preço do minério de 65% caiu menos de 10% em doze meses, mas o frete saltou 76,4% e passou a absorver mais de um terço do valor da carga entregue na China.

Se o custo marítimo permanecer alto enquanto a oferta global cresce, empresas com custos maiores terão menos espaço para absorver novas quedas de preço. Grandes produtoras ainda contam com escala e infraestrutura; operações menores podem precisar cortar volumes, renegociar contratos ou esperar por uma janela mais favorável.

A logística passou a decidir quanto da venda realmente retorna ao produtor. Se o frete continuar perto dos níveis de setembro, a competitividade entre mineradoras dependerá cada vez mais da capacidade de controlar custos desde a mina até o comprador asiático.

O que você acha desse novo peso do frete sobre a mineração brasileira? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe a matéria com quem acompanha o setor.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

Sair da versão mobile