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Garrafas de vidro moídas viram substituto da areia dos rios e criam cimento mais resistente que reduz descarte e pressão ambiental na construção civil

Garrafas de vidro moídas viram substituto da areia dos rios e criam cimento mais resistente que reduz descarte e pressão ambiental na construção civil

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Garrafas de vidro moídas viram substituto da areia dos rios e criam cimento mais resistente que reduz descarte e pressão ambiental na construção civil

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 12/10/2026 às 11:33

Atualizado em 12/10/2026 às 12:51

Construção

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Garrafas de vidro moídas viram substituto da areia

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Pesquisa da UFMT transforma garrafas long neck em pó para substituir areia e produz blocos de concreto com até 35% mais resistência.

Garrafas de vidro que poderiam permanecer durante décadas no fluxo de resíduos urbanos foram trituradas até virar um pó fino e colocadas no lugar da areia usada na fabricação de blocos de concreto. O resultado surpreendeu os pesquisadores: em determinadas proporções, o material não apenas manteve o desempenho do concreto como elevou sua resistência à compressão em até 35%. O trabalho foi conduzido por pesquisadores ligados à Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, e publicado em 2025 na revista científica Environmental Science and Pollution Research.

O estudo avaliou especificamente o reaproveitamento de vidro proveniente de garrafas long neck, transformado em partículas menores que 600 micrômetros. Em vez de substituir o cimento, como algumas descrições simplificadas da tecnologia sugerem, o material entrou no lugar do agregado miúdo, a areia, criando blocos de concreto seco que podem reduzir simultaneamente o consumo de matéria-prima mineral e a quantidade de vidro descartado.

Pesquisadores trocaram até 75% da areia por vidro

A equipe produziu quatro formulações diferentes. Uma delas utilizou concreto convencional, enquanto as outras substituíram 25%, 50% e 75% da areia por pó de vidro, sempre comparando posteriormente resistência à compressão e absorção de água.

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O objetivo era descobrir até onde seria possível elevar o conteúdo reciclado sem comprometer as características necessárias para o bloco. O vidro foi moído até atingir granulometria inferior a 600 micrômetros, permitindo que as partículas ocupassem espaços originalmente preenchidos pela areia.

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O resultado mais importante apareceu nos ensaios de resistência à compressão. Em comparação com a mistura de referência, que registrou resistência média de 3,11 MPa aos 28 dias, os blocos contendo pó de vidro apresentaram ganhos estatisticamente significativos.

Dependendo da formulação, a resistência média aumentou aproximadamente 32% a 35%. O maior valor observado chegou a 4,35 MPa aos 56 dias na mistura em que metade da areia havia sido substituída por vidro.

O resultado mostra que adicionar um resíduo não significa necessariamente enfraquecer o material. Quando o tamanho das partículas, a proporção e a formulação são adequados, o vidro pode contribuir para preencher vazios internos e formar uma estrutura mais compacta.

Mistura com 50% de vidro apresentou o melhor resultado normativo

Existe, porém, uma diferença importante entre atingir uma boa resistência média e cumprir todos os critérios estatísticos estabelecidos para um produto de construção. Entre as formulações estudadas, apenas a mistura contendo 50% de pó de vidro atingiu o valor mínimo de resistência característica adotado pelos pesquisadores com base nas normas brasileiras.

Essa formulação registrou resistência característica de 3,62 MPa, acima do limite de 3 MPa considerado no estudo. O resultado torna o traço de 50% especialmente relevante para futuras avaliações em escala industrial.

Garrafas long neck viraram matéria-prima

O tipo de resíduo escolhido também possui importância prática. Garrafas long neck são fabricadas principalmente com vidro soda-cal, material amplamente presente em embalagens de bebidas e que pode enfrentar dificuldades econômicas de reaproveitamento dependendo da logística de coleta, separação e processamento disponível.

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Na pesquisa, essas embalagens deixaram de ser tratadas como rejeito e passaram por moagem até assumirem uma granulometria compatível com o uso no concreto.

A proposta é inserir um material já existente em uma nova cadeia produtiva em vez de extrair toda a quantidade de agregado diretamente da natureza.

Menos areia pode significar menos pressão sobre rios

A areia está entre as matérias-primas mais utilizadas pela construção civil. Ela entra na produção de concreto, argamassa, blocos, pisos e inúmeras outras aplicações, fazendo com que enormes volumes sejam extraídos todos os anos.

Parte desse material vem de depósitos fluviais. Quando realizada de forma inadequada ou em intensidade superior à capacidade de recuperação do ambiente, a extração pode modificar leitos, margens, habitats aquáticos e dinâmica de sedimentos.

Substituir uma parcela da areia por resíduos não elimina esses impactos, mas reduz a necessidade de material virgem por unidade produzida.

Em uma fábrica que utilizasse a formulação experimental com 50% de vidro, metade da fração de areia prevista naquela mistura seria substituída pelo resíduo processado.

Blocos também passaram no teste de absorção de água

A resistência mecânica não foi o único critério avaliado. Os pesquisadores mediram quanto de água os blocos absorviam, característica importante porque uma estrutura excessivamente porosa tende a ser mais vulnerável à entrada de umidade e agentes externos.

Garrafas de vidro moídas viram substituto da areia

Todas as misturas apresentaram absorção entre aproximadamente 6% e 7,5%, ficando abaixo do limite de 10% considerado no estudo.

Isso indica que a inclusão do pó de vidro, nas condições avaliadas, não provocou aumento de absorção capaz de inviabilizar os blocos.

Partículas pequenas ajudam a preencher os vazios

Uma das explicações para o ganho de desempenho está relacionada ao chamado efeito de preenchimento.

O pó de vidro possui partículas finas capazes de ocupar espaços existentes entre os demais componentes do concreto, criando uma matriz mais densa.

Quando a distribuição granulométrica é adequada, essa compactação reduz vazios internos que poderiam se transformar em pontos de fragilidade.

Outros estudos sobre vidro reciclado em concreto também encontram ganhos de resistência em determinados níveis de substituição, embora os resultados variem bastante conforme granulometria, origem do vidro e composição da mistura.

Vidro no concreto exige controle técnico

A utilização do vidro precisa ser cuidadosamente projetada porque existe um fenômeno conhecido como reação álcali-sílica, ou RAS. Certas formas de sílica podem reagir com álcalis presentes no cimento, criando produtos expansivos capazes de provocar fissuras ao longo do tempo.

O tamanho das partículas é decisivo. Estudos mostram que vidro finamente moído pode apresentar comportamento diferente de fragmentos maiores e, em determinadas condições, reduzir problemas relacionados à reação em vez de agravá-los. Por isso, uma tecnologia dessa natureza depende de ensaios de durabilidade, controle granulométrico e especificações industriais.

Brasil já pesquisa essa alternativa há anos

O trabalho publicado em 2025 é resultado de uma linha de investigação mais ampla envolvendo pesquisadores em Mato Grosso.

Estudos anteriores já haviam analisado a incorporação de garrafas long neck em blocos e observado que a substituição parcial da areia poderia elevar a resistência à compressão.

A pesquisa mais recente ampliou as porcentagens de substituição até 75% e aprofundou a avaliação do comportamento físico e mecânico.

Os autores são Marcos Ferreira de Souza, Karoline Carvalho Dornelas Simões, Adriana Garcia do Amaral e Roselene Maria Schneider, ligados a instituições de pesquisa em Mato Grosso.

Construção civil pode absorver resíduos em grande escala

Uma das vantagens potenciais dessa tecnologia está no tamanho da própria indústria da construção. Blocos são produzidos em grandes volumes e utilizam quantidades relevantes de agregado mineral, criando espaço para incorporar resíduos que, em outras aplicações, teriam mercado muito menor.

A lógica é circular: uma garrafa descartada é triturada, retorna como matéria-prima de outro produto e simultaneamente evita parte da extração de areia. Entretanto, o benefício ambiental real também depende da energia consumida na moagem, das distâncias de transporte e da existência de alternativas melhores de reciclagem para aquele vidro.

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Um estudo de ciclo de vida publicado em 2026 reforça essa ressalva. Em determinadas situações, reciclar vidro novamente como vidro pode proporcionar maior redução de emissões do que usá-lo no concreto, enquanto a construção oferece uma rota importante para materiais que não conseguem retornar economicamente à fabricação de novas embalagens ou chapas.

Resultado abre caminho para testes em escala industrial

Os pesquisadores consideram os resultados promissores para o aproveitamento industrial do pó de vidro como substituto parcial da areia.

A formulação com 50% merece atenção especial porque combinou alto conteúdo reciclado, ganho de resistência e atendimento ao requisito de resistência característica adotado no trabalho.

Isso ainda não transforma todo concreto convencional em um produto feito com garrafas. A passagem do laboratório para produção em grande escala exige controle de matéria-prima, avaliação de durabilidade, custos de moagem, disponibilidade regional de resíduos e atendimento às normas aplicáveis a cada tipo de bloco.

O estudo brasileiro, porém, demonstra que um resíduo urbano abundante pode deixar de ocupar aterros ou permanecer sem aproveitamento e assumir uma função estruturalmente útil.

Em vez de extrair toda a areia necessária, a indústria pode transformar garrafas trituradas em parte do próprio agregado, produzindo blocos que, nas condições testadas, chegaram a apresentar até 35% mais resistência do que a mistura convencional.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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