Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Satélite europeu-chinês registra pela primeira vez em quase 20 anos o anel completo da aurora boreal em ultravioleta e consegue acompanhar o fenômeno por até 45 horas seguidas

Satélite europeu-chinês registra pela primeira vez em quase 20 anos o anel completo da aurora boreal em ultravioleta e consegue acompanhar o fenômeno por até 45 horas seguidas

Faça um comentário

6 min de leitura

Satélite europeu-chinês registra pela primeira vez em quase 20 anos o anel completo da aurora boreal em ultravioleta e consegue acompanhar o fenômeno por até 45 horas seguidas

Escrito por Felipe Alves da Silva

Publicado em 02/10/2026 às 09:36

Atualizado em 02/10/2026 às 09:40

Ciência e Tecnologia

Canal

Representação da missão SMILE observando o anel completo da aurora boreal em ultravioleta ao redor do Polo Norte. Foto: Reprodução. CREDIT
ESA & CAS/Smile/UVI

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Nova missão SMILE, criada pela Europa e pela China para observar a interação entre o vento solar e o campo magnético terrestre, conseguiu enxergar a aurora como um enorme anel ao redor do Polo Norte e acompanhar suas mudanças por dezenas de horas

Quem observa a aurora boreal do solo normalmente vê apenas uma pequena parte de um fenômeno gigantesco. Cortinas verdes, vermelhas ou violetas parecem dançar no céu, mas representam somente trechos de uma estrutura que pode envolver praticamente toda a região polar.

Agora, uma nova espaçonave europeia-chinesa conseguiu observar essa estrutura de outra perspectiva.

A missão SMILE, sigla em inglês para Solar wind Magnetosphere Ionosphere Link Explorer, registrou o anel completo da aurora boreal ao redor do Polo Norte utilizando luz ultravioleta. Segundo a Agência Espacial Europeia (ESA), é a primeira espaçonave desde 2008 capaz de registrar integralmente esse chamado oval auroral nesse comprimento de onda.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Mais impressionante do que uma fotografia isolada é o tempo que o instrumento consegue permanecer olhando para o fenômeno: a missão foi projetada para acompanhar a aurora continuamente por aproximadamente 44 a 45 horas, permitindo aos cientistas observar sua evolução durante períodos muito maiores do que os proporcionados por muitas missões anteriores.

O resultado transforma algo conhecido principalmente pela beleza em uma espécie de enorme indicador luminoso daquilo que acontece muito acima da atmosfera.

A Terra praticamente desaparece e sobra um enorme anel luminoso ao redor do Polo Norte

A imagem obtida pelo instrumento UVI, o Ultraviolet Imager, é bastante diferente das fotografias tradicionais da Terra feitas do espaço.

Não aparecem oceanos azuis, continentes ou nuvens brancas com a mesma aparência familiar.

Na faixa ultravioleta utilizada pelo equipamento, a atmosfera terrestre interfere na visão desses elementos. Em compensação, o instrumento consegue destacar a emissão produzida pela aurora e reduzir a interferência do brilho da própria Terra, inclusive durante observações do lado iluminado pelo Sol.

O resultado é visualmente incomum: a aurora surge como uma grande estrutura luminosa envolvendo a região polar.

Isso também ajuda a entender um detalhe que normalmente passa despercebido para quem observa o fenômeno de uma cidade no norte da Europa, Canadá ou Alasca. A aurora boreal não é simplesmente uma sequência de faixas luminosas espalhadas aleatoriamente pelo céu.

Vista de longe, ela forma uma gigantesca região aproximadamente circular ao redor do polo magnético.

E acompanhar todo esse círculo simultaneamente permite aos pesquisadores enxergar mudanças que seriam difíceis de compreender observando apenas pequenos pedaços dele.

Um vídeo de menos de uma hora mostrou a magnetosfera terrestre sendo perturbada

Uma das primeiras sequências divulgadas pela ESA foi registrada em 24 de julho de 2026, quando o SMILE ainda passava pelo período de testes e preparação no espaço.

O vídeo acompanha aproximadamente o intervalo entre 00h00 e 00h58 UTC.

Durante esse período, o anel luminoso muda de formato e parece ondular ao redor do planeta.

Não é apenas um efeito visual.

O instrumento registrava uma subtempestade auroral, evento associado a perturbações temporárias na magnetosfera terrestre.

A Terra está permanentemente mergulhada em um fluxo de partículas carregadas emitidas pelo Sol, conhecido como vento solar.

O campo magnético terrestre desvia grande parte dessas partículas, funcionando como uma gigantesca região de proteção ao redor do planeta.

Quando mudanças no vento solar transferem energia para essa região, partículas energéticas podem ser direcionadas às áreas próximas dos polos. Ao interagirem com gases presentes na alta atmosfera, produzem as emissões luminosas associadas às auroras.

O espetáculo visto do chão, portanto, é a parte visível de um processo espacial muito maior.

É justamente esse processo que o SMILE foi construído para estudar.

O grande salto não está apenas na imagem, mas em conseguir observar a aurora durante quase dois dias

Fotografar o oval auroral completo já seria relevante. Permanecer observando sua transformação durante dezenas de horas muda o tipo de pergunta que os pesquisadores podem fazer.

A Academia Chinesa de Ciências informa que o UVI consegue realizar as observações contínuas mais longas atualmente disponíveis para um instrumento espacial desse tipo, alcançando aproximadamente 44 horas, além de chegar a uma resolução temporal de até 5 segundos em determinadas observações.

Isso permite acompanhar mudanças rápidas sem necessariamente perder a visão global do fenômeno.

É uma diferença importante.

Observar somente pequenos setores da magnetosfera pode ser comparado a tentar entender uma tempestade terrestre olhando apenas para uma única nuvem. O SMILE tenta ampliar esse campo de visão para acompanhar simultaneamente estruturas muito maiores.

A expectativa é que centenas de subtempestades sejam observadas durante a missão.

A ESA estima cerca de 300 eventos ao longo dos três anos previstos para a fase principal de operações científicas.

Satélite europeu-chinês viaja até mais de 120 mil quilômetros da Terra

O SMILE foi lançado em 19 de maio de 2026, a partir do Centro Espacial Europeu em Kourou, na Guiana Francesa, utilizando um foguete Vega-C.

Depois de aproximadamente um mês realizando manobras orbitais, a espaçonave chegou em 20 de junho à órbita destinada às observações científicas.

Essa trajetória é bastante alongada.

Segundo a Academia Chinesa de Ciências, o satélite opera com um ponto mais próximo da Terra de aproximadamente 5.120 quilômetros e chega a cerca de 120.900 quilômetros no ponto mais distante.

A órbita não foi escolhida por acaso.

Ao se afastar muito do planeta, o SMILE consegue posicionar seus instrumentos de maneira favorável para observar grandes regiões da magnetosfera terrestre de uma só vez.

A missão é resultado de uma parceria entre a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Academia Chinesa de Ciências (CAS), uma combinação pouco comum em grandes projetos espaciais atuais.

Em 23 de setembro, após meses de verificações, testes dos instrumentos e calibração em órbita, o projeto foi declarado pronto para iniciar formalmente suas operações científicas. Os primeiros conjuntos de dados foram apresentados publicamente em 30 de setembro.

SMILE não está olhando apenas para a aurora boreal

A câmera ultravioleta é apenas um dos quatro instrumentos científicos levados pela missão.

Outro componente fundamental é o SXI, Soft X-ray Imager, uma câmera de raios X desenvolvida para observar regiões onde o vento solar encontra a magnetosfera terrestre.

Durante os testes, o equipamento também foi direcionado para objetos astronômicos conhecidos por sua emissão em raios X. Entre eles estavam o remanescente de supernova N132D, na Grande Nuvem de Magalhães, e Cassiopeia A, localizado na Via Láctea.

O satélite ainda transporta um magnetômetro (MAG) e um analisador de íons de baixa energia (LIA).

A ideia é combinar diferentes tipos de informação.

Enquanto alguns instrumentos observam grandes regiões ao redor da Terra remotamente, outros medem diretamente partículas e campos magnéticos no local por onde a espaçonave passa.

Essa combinação é uma das características centrais do projeto.

Entender melhor a aurora também significa entender tempestades que podem atingir tecnologias na Terra

Auroras são bonitas, mas cientificamente representam uma manifestação visível da transferência de energia entre o Sol e o ambiente magnético terrestre.

Essa mesma interação está ligada ao chamado clima espacial.

Eventos solares intensos podem provocar alterações no ambiente ao redor da Terra capazes de interferir em satélites, sistemas de comunicação, navegação e outras infraestruturas tecnológicas.

A proposta do SMILE é acompanhar simultaneamente o vento solar, a magnetosfera e as respostas observadas nas regiões polares.

Segundo a própria ESA, compreender melhor esses mecanismos poderá ajudar a preencher lacunas importantes no conhecimento sobre tempestades solares e clima espacial e, no futuro, contribuir para proteger tecnologias e astronautas contra seus efeitos.

É por isso que a primeira imagem completa da aurora tem um significado que vai muito além de sua aparência.

O anel brilhante registrado sobre o Polo Norte funciona quase como uma enorme tela natural: suas deformações, intensificações e movimentos revelam, indiretamente, como o campo magnético da Terra está respondendo naquele momento à atividade vinda do Sol.

O que antes podia ser observado apenas por partes agora poderá ser acompanhado por dezenas de horas praticamente como um único sistema.

A reportagem foi elaborada a partir das informações divulgadas pela IFLScience, pela Agência Espacial Europeia (ESA) e pela Academia Chinesa de Ciências (CAS) sobre os primeiros resultados científicos da missão SMILE. A ESA divulgou oficialmente as primeiras imagens do UVI em 30 de setembro de 2026.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

Sair da versão mobile