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Segundo maior produtor de café do Brasil acumula R$ 1,6 bilhão em dívidas após 3 quebras de safra e tenta preservar 500 empregos
Escrito por Ana Alice
Publicado em 23/10/2026 às 16:52
Atualizado em 23/10/2026 às 16:55
Agronegócio
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Ruiz Coffees tenta manter lavouras, financiar a safra 2026/27 e preservar mais de 500 empregos enquanto reorganiza passivo bilionário após três ciclos afetados por eventos climáticos e perdas de produção.
A Ruiz Coffees, apontada como o segundo maior produtor de café do Brasil, entrou em uma fase decisiva de reestruturação depois de acumular cerca de R$ 1,6 bilhão em dívidas e enfrentar três safras consecutivas abaixo do esperado.
O grupo protocolou pedido de recuperação judicial em 8 de outubro de 2026 e afirma que sua prioridade agora é financiar o ciclo 2026/27, manter as lavouras em operação e preservar mais de 500 empregos diretos.
Embora o passivo total informado no processo se aproxime de R$ 1,6 bilhão, nem todo esse valor será renegociado dentro da recuperação judicial.
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Cerca de R$ 775 milhões estão sujeitos ao processo, enquanto aproximadamente R$ 820 milhões correspondem principalmente a obrigações garantidas por imóveis rurais e outras estruturas que ficam fora da recuperação.
O pedido ainda não significa que a recuperação judicial tenha sido definitivamente deferida.
O caso tramita na Vara Regional Empresarial de São José do Rio Preto, em São Paulo, e passa por uma constatação prévia determinada pela Justiça para verificar a situação operacional e documental das empresas envolvidas.
Enquanto essa análise avança, a Justiça determinou a suspensão temporária das execuções relacionadas aos créditos sujeitos ao processo e reconheceu como essenciais à atividade agrícola tanto as sacas de café já colhidas quanto os frutos ainda existentes nas lavouras.
A proteção é relevante porque impede, durante o período determinado judicialmente, que esses estoques e frutos sejam retirados da operação para pagamento imediato de determinadas dívidas, preservando matéria-prima necessária à continuidade da atividade.
Três quebras de safra pressionaram produção e caixa
Segundo a empresa, a crise atual começou a tomar forma depois de uma sequência de eventos climáticos que afetaram diretamente as lavouras.
O primeiro choque apontado pelo grupo foi a geada de julho de 2021, cujos efeitos atingiram ciclos posteriores de produção.
Depois veio o calor extremo durante a florada de 2023 e, na sequência, a estiagem registrada em 2024.
A Ruiz afirma que as três safras frustradas ficaram entre 14% e 28% abaixo dos volumes inicialmente planejados.
Dados apresentados no processo ajudam a dimensionar o problema.
Na safra 2023/24, a companhia teria colhido 179,8 mil sacas, diante de uma projeção de 250 mil.
No ciclo 2024/25, a produção ficou em aproximadamente 193 mil sacas, resultado cerca de 21% inferior à expectativa.
Para 2025/26, a estimativa apontada era de 205 mil sacas, ainda 13,9% abaixo do volume projetado.
A sucessão de perdas afetou o funcionamento financeiro típico da atividade agrícola.
Parte dos recursos obtidos com uma colheita é utilizada para custear o ciclo seguinte, financiando insumos, mão de obra, irrigação, manejo e outras despesas antes que a nova produção gere receita.
Quando a colheita fica repetidamente abaixo do planejado, esse fluxo tende a perder capacidade de sustentar os ciclos seguintes.
No caso da Ruiz, o problema foi ampliado porque parte relevante da produção havia sido comercializada antecipadamente com tradings.
Os contratos foram fechados antes da valorização mais recente do café, o que reduziu a capacidade do grupo de aproveitar integralmente os preços maiores observados posteriormente no mercado.
Com menos café disponível após as quebras de safra, a empresa também precisou reorganizar entregas físicas entre diferentes ciclos.
Segundo a companhia, uma mesma produção precisava responder simultaneamente por compromissos de entrega e por recebíveis cedidos como garantia a financiadores.
Crédito mais caro ampliou pressão sobre o grupo
O quadro ficou ainda mais pressionado pelo encarecimento do crédito.
Entre 2020 e 2023, a Ruiz afirma ter contratado financiamentos para ampliar áreas cultivadas, instalar sistemas de irrigação e modernizar suas operações.
Posteriormente, a alta dos juros aumentou o custo de dívidas vinculadas ao CDI, enquanto a disponibilidade de novas linhas de crédito para o agronegócio ficou mais restrita.
A concentração de vencimentos em 2025 e 2026 dificultou as tentativas de refinanciamento.
A empresa sustenta que vinha negociando individualmente com credores desde 2025, mas decidiu recorrer à recuperação judicial depois que parte deles deixou as negociações e iniciou medidas para cobrar as obrigações.
Mesmo em meio ao processo, o grupo afirma que suas operações agrícolas continuam ativas.
A Ruiz cultiva aproximadamente 7,5 mil hectares de café em Minas Gerais e na Bahia e possui armazém em Piumhi, em Minas Gerais, com capacidade para cerca de 160 mil sacas.
Comunicados anteriores da companhia indicavam uma produção média próxima de 150 mil sacas de café arábica por ano.
A estrutura produtiva é justamente um dos motivos pelos quais a empresa busca manter as lavouras financiadas durante a renegociação.
Segundo a direção financeira do grupo, a prioridade é garantir o custeio da safra 2026/27 e preservar mais de 500 empregos diretos ligados à operação.
Fazendas podem passar para fundos durante reestruturação
Uma das partes mais sensíveis da reestruturação envolve as próprias fazendas.
Mais de 3 mil hectares estão vinculados a estruturas de alienação fiduciária, situação em que os imóveis foram oferecidos como garantia de operações financeiras.
Dentro das operações associadas a Certificados de Recebíveis do Agronegócio, cerca de 1,5 mil hectares correspondem a áreas de café.
Outros aproximadamente 1,1 mil hectares são utilizados para cultivo de cana-de-açúcar.
A área cafeeira vinculada a essas estruturas equivale a aproximadamente um quinto dos 7,5 mil hectares cultivados pelo grupo.
A negociação em andamento prevê que parte dessas propriedades seja transferida para fundos de investimento ligados aos credores.
Isso, porém, não significa necessariamente a saída imediata da Ruiz das áreas.
Pelo modelo descrito pela companhia, os fundos podem passar a deter os imóveis enquanto o grupo permanece responsável pela operação agrícola, incluindo manejo, colheita e comercialização da produção.
Uma estrutura semelhante já foi utilizada anteriormente.
No caso de credores ligados a CRAs, a proposta envolve transformar os títulos em cotas seniores de fundos que passam a deter determinadas fazendas, enquanto o Grupo Ruiz conserva participação subordinada e continua utilizando as terras.
Em algumas operações, também existe previsão de opção de recompra no longo prazo.
A lógica é tentar adaptar o perfil das dívidas ao ciclo de produção do café.
Em vez de vencimentos financeiros incompatíveis com o fluxo agrícola, a companhia busca prazos e condições que permitam continuar produzindo enquanto reorganiza o passivo.
Recuperação envolve bancos e outros credores
A venda de ativos considerados não essenciais também pode fazer parte da estratégia.
A Ruiz informou que avalia essa possibilidade, mas afirmou não haver, até o momento das divulgações mais recentes, negociações específicas de venda que pudessem ser anunciadas.
A preservação da produção agrícola permanece como prioridade declarada pelo grupo.
Entre os credores sujeitos ou relacionados às diferentes estruturas financeiras estão instituições de grande porte.
A documentação do processo aponta a Caixa com aproximadamente R$ 130,8 milhões, a securitizadora Vert com R$ 109,3 milhões e o Sicoob com cerca de R$ 77,9 milhões em exposições mencionadas nas operações vinculadas ao grupo.
Parte desses créditos, contudo, possui tratamento jurídico diferente dentro da recuperação, dependendo das garantias oferecidas.
Essa separação é importante porque o total de R$ 1,6 bilhão não representa uma única dívida submetida às mesmas condições de renegociação.
A recuperação judicial trata diretamente de aproximadamente R$ 775 milhões, enquanto grande parcela do restante está ligada a garantias e operações extraconcursais.
Grupo tenta financiar próxima safra sem interromper produção
A empresa foi fundada em 1930, em Bálsamo, no interior de São Paulo, por João Ruiz Lourenço e atualmente está sob administração da quarta geração da família.
Ao longo das décadas, expandiu sua produção para Minas Gerais e Bahia e aumentou a área cultivada em uma estratégia que exigiu investimentos em aquisição de terras, irrigação e modernização.
Agora, a continuidade dessa estrutura dependerá da combinação entre produção agrícola, financiamento do próximo ciclo e negociação com credores.
A Justiça ainda precisa decidir sobre o processamento definitivo da recuperação judicial após a conclusão da análise prévia.
Enquanto isso, a empresa mantém a produção e tenta garantir recursos para a safra 2026/27, preservar mais de 500 postos de trabalho e reorganizar um passivo próximo de R$ 1,6 bilhão sem interromper o cultivo, o beneficiamento e a comercialização de café.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

