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Startup brasileira reduz de 28 dias para até 3 a análise do cimento e usa tecnologia nuclear para multiplicar testes em até 15 vezes

Startup brasileira reduz de 28 dias para até 3 a análise do cimento e usa tecnologia nuclear para multiplicar testes em até 15 vezes

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Startup brasileira reduz de 28 dias para até 3 a análise do cimento e usa tecnologia nuclear para multiplicar testes em até 15 vezes

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 12/10/2026 às 12:12

Atualizado em 12/10/2026 às 12:51

Construção

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DCEMtech usa ressonância magnética para antecipar análises do cimento de 28 para até 3 dias e ampliar em até 15 vezes a capacidade de testes.

Esperar até 28 dias para conhecer parte fundamental do desempenho de um cimento é uma rotina consolidada nos laboratórios da construção civil, mas uma tecnologia desenvolvida no Brasil pretende antecipar drasticamente essa leitura. Segundo reportagem publicada pela Revista O Empreiteiro em 9 de outubro de 2026, a startup brasileira DCEMtech desenvolveu um equipamento baseado em Ressonância Magnética Nuclear, RMN, capaz de produzir informações e previsões sobre o comportamento do cimento já nos primeiros dias de hidratação, reduzindo para até três dias análises que tradicionalmente dependem de períodos que chegam a 28 dias.

A empresa nasceu de uma parceria entre a Fine Instrument Technology, FIT, pesquisadores do Laboratório de Espectroscopia de Alta Resolução por Ressonância Magnética Nuclear do Instituto de Física de São Carlos da USP e especialistas do Laboratório de Microestrutura e Ecoeficiência de Materiais de Construção da Escola Politécnica da USP. A tecnologia já saiu da fase puramente acadêmica: a DCEMtech começou a operar em janeiro de 2026, captou aproximadamente R$ 600 mil e fechou contrato com a Associação Brasileira de Cimento Portland, ABCP.

Tecnologia acompanha o cimento antes dos 28 dias tradicionais

A resistência mecânica é uma das propriedades mais importantes na avaliação de materiais cimentícios. Nos procedimentos convencionais, corpos de prova são preparados e ensaiados em diferentes idades para verificar como a resistência evolui com a hidratação, sendo a idade de 28 dias uma referência amplamente utilizada na indústria.

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Esse processo fornece dados fundamentais para controle de qualidade, mas exige tempo, material e espaço de laboratório. A proposta da DCEMtech é acrescentar uma camada digital ao processo, permitindo acompanhar alterações internas do cimento muito antes de chegar à idade tradicional de referência.

Ressonância magnética entra no laboratório do cimento

A tecnologia empregada é a Ressonância Magnética Nuclear no domínio do tempo, uma técnica capaz de analisar propriedades de materiais a partir do comportamento de núcleos atômicos quando submetidos a campos magnéticos e pulsos de radiofrequência.

Ressonância magnética entra no laboratório do cimento

No cimento, a informação obtida pode ser relacionada à evolução da hidratação e às transformações internas que ocorrem depois que o material entra em contato com a água.

Pesquisas realizadas há anos no próprio IFSC-USP já demonstraram relações entre alterações estruturais identificadas por RMN e o comportamento mecânico de materiais cimentícios.

De 28 dias para informações em até três dias

O principal ganho está no tempo. Em vez de depender exclusivamente da espera por resultados mecânicos obtidos ao longo de até 28 dias, a nova ferramenta consegue reunir informações nas primeiras idades do cimento e produzir previsões sobre seu desempenho futuro.

Isso não significa que uma fábrica poderá simplesmente abandonar os ensaios previstos pelas normas técnicas.

A própria DCEMtech ressalta que a ferramenta foi desenvolvida para complementar os ensaios normativos, e não para substituí-los, permitindo que fabricantes identifiquem tendências e possíveis desvios muito mais cedo.

Capacidade de análise pode aumentar em até 15 vezes

Outro número chama atenção: segundo a empresa, a tecnologia pode multiplicar em até 15 vezes a capacidade de realização de análises.

Hoje, de acordo com a DCEMtech, laboratórios industriais costumam realizar em média dois ou três ensaios de resistência por dia.

Ao digitalizar parte do acompanhamento, a quantidade de dados coletados pode aumentar significativamente. Isso abre espaço para comparar lotes, matérias-primas, aditivos e condições de produção com uma frequência muito maior do que aquela permitida apenas pelos ensaios mecânicos tradicionais.

Sistema dispensa areia usada no ensaio convencional

A nova metodologia também possui uma diferença física importante: ela dispensa o uso de areia durante a análise realizada pelo equipamento.

Nos ensaios mecânicos tradicionais de cimento, são produzidas amostras padronizadas que exigem cimento, água, areia normalizada e etapas de moldagem e cura.

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Reduzir a necessidade desses materiais e procedimentos pode diminuir o trabalho necessário para produzir grandes volumes de dados experimentais.

Ainda assim, a economia efetiva dependerá da rotina de cada laboratório e de como a empresa combinará RMN com os controles normativos obrigatórios.

Dados mais rápidos abrem espaço para inteligência artificial

A velocidade não é o único objetivo. Para a DCEMtech, produzir mais medições de forma organizada cria uma base de dados muito maior sobre o comportamento do cimento, permitindo aplicar ferramentas de análise digital e inteligência artificial para identificar padrões.

Um laboratório que realiza apenas alguns testes por dia gera um conjunto relativamente limitado de observações.

Quando a frequência aumenta, algoritmos podem comparar formulações, mudanças de matéria-prima e alterações no processo industrial com maior quantidade de informações históricas.

Problemas poderiam ser identificados antes de chegar ao fim do ciclo

Na prática, antecipar tendências pode ser particularmente importante para fabricantes de cimento. Caso uma alteração na matéria-prima ou no processo esteja afetando o desempenho esperado, esperar semanas para descobrir o problema pode representar produção acumulada fora do padrão desejado.

Uma ferramenta de previsão não elimina a necessidade de confirmação posterior, mas pode funcionar como sinal de alerta.

A indústria passa a ter a possibilidade de investigar um comportamento anormal enquanto o material ainda está nas primeiras idades de hidratação.

Tecnologia nasceu dentro da USP e avançou para o mercado

O desenvolvimento começou a partir de pesquisas conduzidas por equipes ligadas ao professor Vanderley Moacyr John, da Escola Politécnica da USP, e ao professor Tito José Bonagamba, do Instituto de Física de São Carlos.

A intenção era investigar métodos capazes de reduzir tempo e custo associados ao acompanhamento da resistência dos materiais.

A parceria com a FIT transformou a pesquisa em um produto industrial. A companhia de São Carlos trabalha com instrumentos de RMN de baixo campo desde 2005 e afirma possuir equipamentos em indústrias de quatro continentes, experiência que passou a ser aplicada agora ao setor de cimento.

ABCP já recebeu um equipamento da DCEMtech

Um dos sinais mais importantes de entrada no mercado veio com o contrato firmado com a Associação Brasileira de Cimento Portland.

A startup disponibilizou um equipamento para realização de análises destinadas às empresas associadas à entidade.

A aproximação é relevante porque a ABCP mantém uma ampla estrutura de ensaios e cooperação técnica com universidades e empresas do setor. A própria associação possui convênio com a USP para análises de cimento, clínquer, agregados, concreto e diferentes propriedades de materiais de construção.

Equipamento poderá ser vendido, alugado ou usado como serviço

A estratégia comercial não depende de um único modelo. A DCEMtech pretende oferecer análises diretamente e também trabalhar com venda e locação dos equipamentos, permitindo que indústrias incorporem a tecnologia aos próprios laboratórios.

A ideia é posicionar a RMN como uma ferramenta complementar de controle de qualidade e desenvolvimento de novos produtos.

Isso pode ser especialmente relevante para fabricantes que testam constantemente novas proporções de clínquer, adições minerais e aditivos para reduzir custos ou emissões.

Tecnologia pode ajudar também na corrida pelo cimento de baixo carbono

A indústria mundial tenta reduzir a quantidade de clínquer necessária para produzir cimento porque essa etapa responde por uma parcela importante das emissões do setor.

Novas formulações incorporam calcário, escória, argilas calcinadas e outros materiais, aumentando a necessidade de compreender rapidamente como diferentes composições se comportam.

Nesse cenário, acelerar a caracterização pode reduzir o tempo necessário para desenvolver e ajustar novas formulações. O próprio professor Vanderley John participa há anos de pesquisas sobre eficiência material e descarbonização da indústria de cimento e concreto.

Uma espera de semanas começa a ganhar uma camada digital

A inovação da DCEMtech não elimina os 28 dias que continuam sendo referência nos ensaios tradicionais. O que muda é a quantidade de informação disponível antes desse prazo, permitindo que fabricantes acompanhem o cimento quando suas reações ainda estão acontecendo e antecipem tendências que só seriam confirmadas posteriormente.

Se a tecnologia ganhar escala, um processo que durante décadas dependeu essencialmente de moldar, curar, esperar e romper corpos de prova poderá passar a operar também com RMN, bancos de dados e inteligência artificial.

Para uma indústria que produz continuamente e precisa controlar pequenas variações de material, transformar semanas de espera em sinais disponíveis nos primeiros dias pode representar uma mudança relevante na forma de controlar e desenvolver o cimento.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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