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Stellantis admite possibilidade de fechar fábricas na Argentina enquanto carros chineses avançam 106% no Brasil e apertam a indústria sul-americana
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 08/10/2026 às 11:04
Atualizado em 08/10/2026 às 11:10
Indústria
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Stellantis admite rever fábricas argentinas enquanto importações de carros chineses crescem 106% no Brasil e pressionam a produção regional.
Duas fábricas argentinas da Stellantis entraram no centro de uma decisão que dependerá cada vez mais do que acontece do outro lado da fronteira, no mercado brasileiro. Segundo a Exame, em entrevista publicada em 6 de outubro de 2026, o presidente da Stellantis para a América do Sul, Herlander Zola, afirmou que a companhia avalia todos os cenários para suas plantas na Argentina, desde manter as duas abertas até concentrar a produção em uma única unidade ou, em uma situação extrema, fechar ambas.
A declaração ocorre justamente quando a indústria regional enfrenta uma mudança acelerada: de janeiro a setembro, o Brasil importou 254,9 mil veículos chineses, alta de 106,4% em um ano, enquanto marcas asiáticas ampliam presença também na Argentina.
Stellantis colocou todas as opções sobre a mesa na Argentina
A Stellantis possui dois grandes polos industriais argentinos, em El Palomar, na província de Buenos Aires, e em Córdoba.
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Questionado diretamente sobre o futuro dessas operações, Herlander Zola afirmou que o grupo pode manter ambas, transferir produção entre elas, fechar uma ou até rever toda a estrutura, dependendo do mercado, das regras econômicas e da competitividade dos veículos.
Isso não significa que a empresa tenha anunciado o fechamento de qualquer fábrica. Trata-se de uma avaliação estratégica feita em meio à queda de participação de algumas marcas, aumento da concorrência importada e custos industriais que, segundo Zola, deixaram a mão de obra argentina significativamente mais cara que a brasileira.
Peugeot perdeu quase metade de sua participação no mercado argentino
Um dos sinais mais claros dessa pressão aparece na Peugeot. Segundo Zola, a marca possuía cerca de 9% do mercado argentino em 2025, mas sua participação caiu para aproximadamente 5% em 2026, afetando principalmente a operação de El Palomar.
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A fábrica é responsável por modelos importantes da Peugeot e havia ganhado relevância com a produção de veículos eletrificados. A abertura maior do mercado argentino permitiu a entrada acelerada de automóveis chineses e também tornou modelos fabricados no Brasil mais competitivos diante da produção local.
Carros chineses saltaram de 2% para 10% do mercado argentino
A mudança argentina aconteceu em pouco tempo. Dados publicados pela Reuters mostram que marcas chinesas respondiam por aproximadamente 2% das vendas em 2025 e já haviam alcançado cerca de 10% até agosto de 2026, depois que o país facilitou a entrada de elétricos e híbridos importados.
BYD, Geely, Chery, GWM e outras fabricantes passaram a disputar um mercado historicamente dominado por empresas com fábricas na Argentina e no Brasil.
Essa mudança aumenta a pressão sobre plantas que carregam estruturas industriais, trabalhadores, fornecedores e custos fixos que um importador não precisa sustentar na mesma escala.
No Brasil, as importações chinesas mais que dobraram
O maior mercado da América do Sul vive uma transformação semelhante. Entre janeiro e setembro de 2026, chegaram ao Brasil 254,9 mil veículos produzidos na China, contra aproximadamente 123,5 mil no mesmo intervalo de 2025.
O crescimento foi de 106,4%, e os automóveis chineses já representaram 55% de todas as importações brasileiras de veículos no período.
Quando comparados ao mercado nacional total, corresponderam a aproximadamente 11,3% dos emplacamentos, segundo dados da Anfavea divulgados nesta semana.
Produção brasileira cresce, mas importados avançam ainda mais rápido
O mercado brasileiro continua forte, mas a origem dos carros vendidos está mudando. De janeiro a setembro, foram comercializados aproximadamente 2,26 milhões de autoveículos no país, enquanto as importações cresceram 30,4%, chegando a 463,9 mil unidades.
A própria Anfavea alerta que o mercado interno avança mais rapidamente que a produção nacional. Quando veículos importados e modelos montados a partir de kits CKD e SKD são considerados juntos, cresce a parcela do mercado atendida por conteúdo produzido fora do país.
Exportações brasileiras caíram 23% em nove meses
A pressão não acontece apenas dentro do Brasil. As exportações brasileiras de veículos recuaram de aproximadamente 433,8 mil unidades entre janeiro e setembro de 2025 para 334 mil no mesmo período de 2026, queda próxima de 23%.
A Argentina teve peso importante nessa retração, com redução de 37,7% nas compras de veículos brasileiros. México, Chile e Uruguai também apresentaram enfraquecimento, enquanto fabricantes chineses aumentam presença justamente em mercados tradicionalmente atendidos pelas fábricas instaladas no Brasil.
Stellantis depende do Brasil para decidir o mapa de suas fábricas
Para a Stellantis, nenhuma decisão argentina pode ser tomada isoladamente. Herlander Zola afirmou que o Brasil representa cerca de 65% do volume da empresa na América do Sul, o que transforma as regras brasileiras em peça central para qualquer decisão industrial regional.
Uma fábrica argentina não existe apenas para vender automóveis aos argentinos. Ela precisa exportar para outros mercados, principalmente o Brasil, e sua viabilidade depende do câmbio, dos impostos, dos custos de produção e da capacidade de seus modelos competirem com veículos fabricados localmente ou importados da Ásia.
O paradoxo é que a própria Stellantis também está trazendo uma marca chinesa
A reação da companhia ao avanço asiático não consiste simplesmente em tentar bloquear marcas chinesas.
A Stellantis controla 51% da operação internacional da Leapmotor e decidiu fabricar veículos da marca chinesa dentro do Brasil.
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Os SUVs Leapmotor B10 e C10 terão produção no Polo Automotivo de Goiana, em Pernambuco. A estratégia permite à Stellantis participar da própria expansão das marcas chinesas, mas utilizando uma fábrica brasileira, fornecedores locais e a estrutura industrial que o grupo já construiu na região.
Goiana receberá R$ 13 bilhões e novos modelos eletrificados
Enquanto existe incerteza na Argentina, a operação brasileira continua dentro de um grande ciclo de investimentos. O Polo de Goiana possui R$ 13 bilhões programados entre 2025 e 2030, destinados a novos veículos, tecnologias, fornecedores e eletrificação.
Além dos produtos Jeep, Fiat e Ram já fabricados no complexo, a unidade receberá os modelos da Leapmotor e novas tecnologias híbridas.
A empresa pretende ainda ampliar a cadeia local de fornecedores, criando uma diferença importante entre simplesmente importar um veículo pronto e produzir dentro do país.
Betim e Porto Real também recebem bilhões em modernização
A Stellantis mantém um ciclo regional de aproximadamente R$ 32 bilhões até 2030, incluindo investimentos em fábricas brasileiras.
Betim, em Minas Gerais, concentra desenvolvimento de motores e sistemas Bio-Hybrid, enquanto Porto Real, no Rio de Janeiro, possui R$ 3 bilhões previstos para modernização e novos produtos.
A companhia também iniciou no Brasil uma expansão da engenharia voltada à eletrificação. Em 2025, inaugurou em Betim um grande centro de desenvolvimento para tecnologias híbridas flex e anunciou a contratação de centenas de engenheiros para fortalecer pesquisa e desenvolvimento local.
A disputa deixou de ser apenas pelo preço do carro
O conflito industrial envolve uma pergunta muito maior que qual veículo custa menos na concessionária. Uma montadora instalada no Brasil mantém fábrica, trabalhadores, fornecedores, engenharia, impostos e investimentos que precisam ser pagos mesmo quando as vendas perdem força.
Herlander Zola defende regras que diferenciem empresas comprometidas com produção local de fabricantes concentrados apenas em importações.
O executivo argumenta que marcas que constroem fábricas no país não seriam prejudicadas por medidas voltadas especificamente aos veículos trazidos do exterior.
A indústria sul-americana começa a redesenhar seu mapa
A Stellantis continua líder regional e mantém uma enorme estrutura industrial no continente, mas a declaração sobre as fábricas argentinas mostra que liderança não elimina a pressão por eficiência.
Cada planta precisará justificar seu volume, custos e papel dentro de uma rede que agora enfrenta concorrentes capazes de lançar carros rapidamente e disputar mercado com elétricos e híbridos produzidos em larga escala na China.
O próximo desenho industrial da Stellantis poderá combinar fábricas brasileiras cada vez mais eletrificadas, produção chinesa nacionalizada por meio da Leapmotor e uma estrutura argentina ajustada à nova realidade comercial.
A decisão sobre El Palomar e Córdoba dependerá justamente dessa equação entre escala, custos, mercado brasileiro e capacidade de competir com a nova geração de fabricantes asiáticos.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

