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UFPI pesquisa combustível sustentável para a aviação a partir de rejeitos de peixes; projeto tem mais de R$ 1 milhão em recursos aprovados
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
Publicado em 19/10/2026 às 20:00
Atualizado em 19/10/2026 às 20:02
Biocombustíveis Renováveis
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Pesquisa da UFPI investiga a produção de combustível sustentável de aviação a partir de rejeitos de peixes, com mais de R$ 1 milhão em recursos aprovados.
Transformar materiais que normalmente seriam tratados como rejeitos em combustível para aeronaves é o caminho investigado por uma pesquisa da Universidade Federal do Piauí (UFPI). O trabalho, que já obteve aprovação de mais de R$ 1 milhão em recursos, tem entre suas prioridades ampliar o domínio de tecnologias no Brasil para aproveitar resíduos de pescados na fabricação de alternativas energéticas destinadas ao transporte aéreo.
As atividades também abrangem o estudo de diferentes tipos de óleo que podem servir de matéria-prima para esses combustíveis. Além de investigar as possibilidades de produção, a universidade procura avaliar o consumo energético e o desempenho dos processos utilizados na produção.
Para isso, o trabalho reúne conhecimentos de engenharia de processos, ciência e engenharia de materiais e energia. A expectativa é contribuir para o avanço dos chamados combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), buscando opções com menor intensidade de carbono.
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A iniciativa faz parte do projeto “Combustíveis sustentáveis de aviação a partir de rejeitos de pescados: nacionalização de tecnologias produtivas e avaliação energética”. Seu financiamento foi aprovado após a apresentação da proposta à Chamada CNPq/MCTI/FNDCT nº 18/2022, voltada ao incentivo de atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação relacionadas ao Programa Combustível do Futuro e à Iniciativa Brasileira do Hidrogênio (IBH2-MCTI).
A chamada pública busca incentivar o desenvolvimento de soluções capazes de superar limitações tecnológicas e fortalecer as atividades ligadas à fabricação de combustíveis mais sustentáveis, com menor intensidade de carbono. Para isso, a proposta prioriza o aproveitamento de recursos renováveis e de materiais descartados que possam ser utilizados na produção dessas alternativas energéticas.
Na UFPI, os pesquisadores trabalham com o tratamento de diferentes óleos e investigam o consumo e o desempenho energético das etapas de produção. O estudo também verifica como os combustíveis interagem com os materiais utilizados nas instalações experimentais, avaliando sua compatibilidade.
Laboratórios da UFPI reúnem equipamentos para pesquisas com combustíveis sustentáveis
Para realizar os experimentos, a Universidade dispõe de uma estrutura que permite investigar o processamento de óleos em condições próximas às de aplicações tecnológicas mais avançadas. As instalações incluem unidades-piloto classificadas nos níveis 5 e 6 da escala de maturidade tecnológica (TRL, sigla em inglês), equipadas com reatores capazes de operar sob alta pressão, dispositivos de destilação molecular, bombas de vácuo e mecanismos auxiliares de controle.
Parte importante desse trabalho será conduzida por equipes do Centro de Tecnologia (CT) e do Laboratório de Materiais Funcionais (LAMAF), coordenado pela professora Rafaela Luiz Pereira Santos, vinculada ao Departamento de Engenharia de Materiais. Além de examinar as características dos óleos utilizados e dos produtos obtidos, os pesquisadores vão analisar a demanda energética dos procedimentos e o comportamento dos materiais submetidos aos testes.
Entre os aspectos investigados estão a resistência à corrosão e a compatibilidade desses materiais com os combustíveis estudados. Para Rafaela, a possibilidade de reunir diferentes especialidades científicas em uma mesma pesquisa representa um dos pontos que distinguem a iniciativa.
“O projeto reúne diferentes áreas da engenharia para avaliar não apenas a produção do combustível, mas todo o conjunto de fatores envolvidos no processo. A caracterização dos materiais, a avaliação energética e os estudos de corrosão são fundamentais para compreender a viabilidade e a segurança das tecnologias que estão sendo desenvolvidas”, explica.
Com a ampliação da estrutura destinada aos experimentos, a UFPI também terá condições de avançar em novas investigações sobre tecnologias voltadas à transição energética. Segundo a pesquisadora, os equipamentos poderão ser utilizados em diferentes linhas de estudo, permitindo que a instituição explore alternativas de desenvolvimento tecnológico.
Ela ressalta que o trabalho não se limita aos resultados das pesquisas, pois também pretende contribuir para a formação de profissionais e a obtenção de informações técnicas que possam ajudar essas soluções a alcançar, futuramente, uma escala maior de aplicação.
Como os rejeitos de peixes serão transformados em combustível sustentável de aviação
Antes de avançar para uma produção em maior escala, os pesquisadores da UFPI precisarão descobrir quais condições oferecem os melhores resultados na transformação de resíduos de peixes em combustíveis sustentáveis. Por enquanto, o trabalho está concentrado em experimentos de laboratório, sem produção comercial ou certificação aeronáutica do combustível. A intenção é reunir informações técnicas que ajudem a avaliar a viabilidade de ampliar essas operações futuramente.
Uma das primeiras atividades será aproveitar o material descartado do pescado para obter o óleo necessário aos experimentos. Depois da extração, essa matéria-prima passará por diferentes procedimentos de tratamento e separação, permitindo aos pesquisadores examinar as substâncias presentes em cada fração.
As análises vão considerar características como estabilidade, composição química e propriedades físicas e químicas, além de identificar quais componentes apresentam possibilidades de aproveitamento na fabricação de combustíveis sustentáveis.
O óleo retirado das vísceras dos peixes também será utilizado em reações voltadas à sua transformação. Entre as técnicas previstas está a hidrodesoxigenação, conhecida como HDO, que permite retirar oxigênio dos compostos. Os estudos contemplam ainda a tecnologia HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), utilizada na obtenção de combustíveis renováveis mediante o tratamento de óleos e gorduras com hidrogênio.
Outra parte importante dos experimentos será a separação das substâncias por destilação molecular. Nessa operação, o uso de vácuo elevado possibilita trabalhar com temperaturas menores, uma condição importante para evitar que componentes sensíveis ao calor sofram degradação.
Os pesquisadores poderão modificar fatores como temperatura, pressão, velocidade de escoamento e período de permanência dos materiais no equipamento, observando de que maneira essas alterações interferem nos resultados.
Os testes começarão em equipamentos de bancada, onde serão feitos os ajustes necessários para identificar as condições mais adequadas de operação. Depois, a investigação seguirá para instalações pré-industriais.
Essa mudança de escala permitirá examinar não apenas a quantidade de produto obtida, mas também sua estabilidade, a energia exigida durante o processamento e as possibilidades de reproduzir a tecnologia em estruturas maiores.
Sistema de controle de hidrogênio e acompanhamento técnico dos experimentos
Para acompanhar as reações com maior segurança, a instalação terá ainda recursos específicos para controlar o hidrogênio e comprimir os gases gerados ao longo das operações. Esses sistemas ajudarão a manter o controle dos procedimentos enquanto a equipe investiga o comportamento dos materiais e o desempenho das tecnologias em desenvolvimento.
A responsabilidade pelo funcionamento dos equipamentos ficará com o professor e engenheiro químico Flávio Albuquerque, que integra o Departamento de Energias Renováveis do Centro de Educação Aberta e a Distância (CEAD) da Universidade Federal do Piauí (UFPI).
O trabalho contará também com a participação da professora Nayara Cardoso de Medeiros, do Departamento de Engenharia de Produção. Ela dará suporte técnico à condução dos experimentos, ajudando a organizar as atividades e a manter a articulação entre os diferentes procedimentos de tratamento dos materiais e os mecanismos de controle utilizados durante as operações.
Pesquisa avalia resistência à corrosão e segurança dos equipamentos
Além de investigar a produção dos combustíveis, a UFPI também pretende verificar como essas substâncias se comportam quando entram em contato com os componentes utilizados nas instalações industriais. Essa análise é importante porque os materiais precisam conservar suas características durante as operações, evitando problemas que possam comprometer o funcionamento dos equipamentos e a segurança dos processos.
Com a participação do Laboratório de Materiais Funcionais (LAMAF), os pesquisadores vão submeter diferentes materiais a testes de resistência e compatibilidade. As avaliações incluirão ligas metálicas, polímeros, elastômeros e revestimentos presentes em estruturas como reservatórios, redes de tubulação, bombas, válvulas, conexões e dispositivos responsáveis pela vedação.
Durante os experimentos, serão observados possíveis desgastes nas superfícies, mudanças nas propriedades dos componentes, redução de massa e indícios de deterioração ou corrosão.
As informações obtidas ajudarão a identificar quais materiais apresentam melhores condições para utilização nessas tecnologias. Também poderão orientar a escolha dos parâmetros de funcionamento das instalações e contribuir para diminuir riscos de vazamentos, contaminações e falhas operacionais. Outro aspecto considerado será a durabilidade dos equipamentos, uma vez que o comportamento dos componentes ao longo do uso poderá influenciar sua vida útil.
Na avaliação da professora Rafaela, desenvolver um combustível sustentável é apenas uma parte do desafio. A pesquisadora destaca que também é necessário conhecer os efeitos desse produto sobre as estruturas responsáveis por seu processamento e armazenamento.
Por isso, os estudos de compatibilidade e corrosão terão um papel importante na identificação antecipada de possíveis problemas, fornecendo informações que poderão tornar as futuras aplicações tecnológicas mais seguras e eficientes.
Estrutura poderá apoiar novos estudos com hidrogênio e combustíveis sintéticos
O aproveitamento de resíduos de peixes será o ponto de partida dos experimentos, mas as possibilidades de utilização da estrutura não ficarão restritas a essa matéria-prima. Os equipamentos também poderão atender futuras investigações sobre outras formas de obtenção de combustíveis com menor intensidade de carbono. Entre as alternativas está o uso do hidrogênio, que, associado a fontes renováveis de energia e carbono, pode participar da fabricação de combustíveis sintéticos.
Essa possibilidade ganha importância especialmente no transporte aéreo, onde ainda existem obstáculos técnicos para substituir completamente os combustíveis líquidos por sistemas alimentados por baterias. Nesse cenário, a estrutura da Universidade Federal do Piauí (UFPI) poderá contribuir para a investigação de diferentes soluções energéticas, aproveitando os conhecimentos adquiridos durante os experimentos iniciais.
Os resultados dos trabalhos com tratamento e separação de substâncias, consumo de energia e resistência dos materiais poderão orientar novas pesquisas. Cada alternativa, porém, precisará passar por avaliações específicas, considerando a origem dos insumos, a relação entre energia consumida e obtida, as emissões geradas e o desempenho dos processos. Também deverão ser examinadas as condições de segurança das operações industriais e as exigências de certificação necessárias para cada tecnologia.
Fonte
Gov.br
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Andriely Medeiros de Araújo.

