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União Europeia mira reservas de tungstênio, terras raras e antimônio do Vietnã, estuda financiar mineração e processamento de minerais estratégicos para reduzir dependência da China
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 14/10/2026 às 23:55
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Documentos internos obtidos pela Reuters revelam preocupação de Bruxelas com o abastecimento de matérias-primas usadas na indústria e no setor de defesa, enquanto empresas americanas, australianas e sul-coreanas avançam sobre projetos minerais vietnamitas.
A União Europeia está buscando ampliar seu acesso às reservas de tungstênio, terras raras e antimônio do Vietnã para reduzir a dependência da China no fornecimento de matérias-primas consideradas estratégicas. Documentos internos revelam que autoridades europeias estudam oferecer financiamento, assistência técnica e apoio à indústria de processamento mineral vietnamita, diante do receio de perder espaço para empresas de outros países.
A movimentação foi revelada nesta quarta-feira, 14 de outubro de 2026, pela agência Reuters, que teve acesso a um relatório e a um documento complementar preparados pela representação europeia em Hanói, datados de junho deste ano.
O Vietnã possui depósitos importantes de tungstênio, terras raras, antimônio, bismuto e bauxita, minério do qual o gálio pode ser obtido como subproduto.
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Até agora, as exportações vietnamitas para a União Europeia se concentraram principalmente no tungstênio e no antimônio, dois materiais com aplicações relevantes na indústria de defesa, inclusive na fabricação de munições e explosivos.
O interesse europeu ocorre em um momento de intensa concorrência internacional por minerais críticos. A China continua exercendo forte influência sobre o fornecimento e o processamento dessas matérias-primas, enquanto outros países procuram desenvolver cadeias alternativas de produção.
O ponto central dos documentos não é apenas encontrar novas minas. Bruxelas também pretende evitar que os minerais extraídos no Vietnã sejam destinados exclusivamente a cadeias industriais controladas por concorrentes internacionais.
Europa teme perder acesso ao tungstênio vietnamita, mineral utilizado na indústria de defesa
O tungstênio ocupa uma posição importante na estratégia identificada pela Reuters.
Também conhecido como wolfrâmio, o metal apresenta elevada resistência ao calor e ao desgaste, características que permitem sua aplicação em ferramentas industriais, equipamentos de usinagem, ligas metálicas e determinados componentes utilizados no setor militar.
O Vietnã já possui instalações de mineração e processamento de tungstênio que abastecem compradores internacionais.
Uma das principais operações pertence à Masan High-Tech Materials, empresa responsável por um complexo de mineração e refino considerado relevante para o fornecimento europeu, especialmente para a indústria alemã.
Segundo a Reuters, as exportações desse complexo diminuíram significativamente em 2025, em meio a entraves administrativos e à forte valorização do tungstênio.
A preocupação europeia aumentou porque investidores estrangeiros demonstraram interesse em adquirir participações no empreendimento.
Um dos documentos menciona uma tentativa, que não prosperou, de aquisição de participação majoritária na operação vietnamita por um grupo envolvendo empresas da Austrália, dos Estados Unidos e do Canadá.
Duas fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que a iniciativa havia sido articulada pela mineradora australiana EQ Resources.
Para autoridades europeias, uma mudança no controle de um fornecedor importante poderia alterar as condições comerciais de acesso ao metal.
Isso não significa que o fornecimento seria automaticamente interrompido, mas mostra como decisões empresariais envolvendo minas e refinarias passaram a ter importância estratégica para governos.
Empresa vietnamita vende participação a fornecedor da defesa americana e negocia nova entrada de capital
A disputa pelos ativos de tungstênio ganhou um novo capítulo em setembro de 2026.
A Masan High-Tech vendeu uma participação de 4,99% ao Elmet Group, empresa fornecedora de tungstênio para os estoques estratégicos de defesa dos Estados Unidos.
A operação chamou a atenção por envolver uma companhia diretamente ligada ao abastecimento americano de matérias-primas estratégicas.
A Reuters também informou que a Masan mantém conversas com outro investidor estrangeiro, não europeu, para a possível venda de uma participação adicional de 5%.
A identidade desse investidor não foi revelada, e a negociação ainda não havia sido concluída até 14 de outubro.
Para Bruxelas, as movimentações demonstram que o Vietnã está atraindo compradores interessados não apenas em reservas minerais, mas também em empresas que já possuem instalações industriais e contratos comerciais.
A preocupação europeia é garantir acesso estável aos produtos mesmo que a estrutura acionária dos fornecedores mude.
Uma participação minoritária, entretanto, não representa necessariamente a transferência do controle de uma mina ou de sua produção.
União Europeia estuda empréstimos, subsídios e assistência técnica para mineração no Vietnã
Os documentos internos defendem uma atuação mais direta das instituições europeias na cadeia mineral vietnamita.
Entre os instrumentos mencionados estão empréstimos, subsídios, assistência técnica e seguros de crédito à exportação.
Também existe interesse em apoiar levantamentos geológicos para melhorar o conhecimento sobre a localização e as características dos recursos minerais do país.
O objetivo é preservar e ampliar o acesso europeu a tungstênio, bismuto, antimônio e titânio, além de desenvolver oportunidades relacionadas às terras raras.
O material analisado pela Reuters destaca o processamento industrial como uma área particularmente relevante para a cooperação.
Essa escolha tem uma explicação econômica.
A extração mineral fornece a matéria-prima, mas operações como separação, purificação e refino são necessárias para produzir materiais adequados às aplicações industriais.
No caso das terras raras, a capacidade de transformar concentrados minerais em óxidos separados, metais e componentes de maior valor pode ser tão estratégica quanto a descoberta dos depósitos.
A representação europeia considera que apoiar instalações de processamento poderá ser politicamente menos sensível do que investir diretamente em novas operações de mineração.
Não há, entretanto, um pacote financeiro europeu aprovado ou um valor oficial de investimento anunciado para essas propostas.
Os mecanismos de apoio ainda estão em discussão, e sua eventual implementação dependerá de negociações com o governo vietnamita e de decisões das instituições responsáveis.
Austrália e Coreia do Sul avançam em projeto de terras raras e aumentam pressão sobre Bruxelas
O interesse europeu também está relacionado à atuação de empresas de outros países na indústria de terras raras do Vietnã.
Um dos projetos citados nos documentos envolve a australiana Lynas Rare Earths e a sul-coreana LS Eco Energy.
As companhias desenvolvem uma iniciativa para produzir metais de terras raras no território vietnamita utilizando matérias-primas importadas.
O detalhe é importante: a instalação proposta não depende necessariamente da extração local de todos os minerais que serão processados.
Esse modelo permite que um país participe de etapas industriais de maior valor mesmo quando parte da matéria-prima chega do exterior.
Para a União Europeia, projetos dessa natureza representam uma oportunidade de diversificação, mas também intensificam a concorrência por capacidade industrial e contratos de fornecimento.
Os documentos indicam preocupação com a possibilidade de empresas não europeias garantirem posições importantes antes que Bruxelas estabeleça acordos semelhantes.
O movimento evidencia uma transformação no mercado de minerais críticos.
A disputa internacional não se limita à aquisição de minas. Cada vez mais, governos e companhias procuram assegurar acesso às refinarias e instalações responsáveis pela transformação do minério em produtos industriais.
Restrições chinesas aumentaram preocupação com o fornecimento de minerais estratégicos
A busca europeia por parceiros alternativos está diretamente relacionada às dificuldades recentes no abastecimento internacional de minerais críticos.
Segundo os documentos obtidos pela Reuters, as restrições de exportação adotadas pela China em 2025 afetaram cadeias produtivas europeias e reforçaram a necessidade de diversificar fornecedores.
A China possui uma participação relevante no processamento de diferentes matérias-primas estratégicas, especialmente terras raras.
Essa concentração torna as indústrias consumidoras mais expostas a mudanças nas regras de exportação e na disponibilidade internacional de determinados produtos.
Para empresas europeias que dependem desses materiais, dificuldades de fornecimento podem afetar desde a fabricação de equipamentos industriais até setores de tecnologia e defesa.
O Vietnã surge como uma alternativa por reunir recursos geológicos e operações industriais já estabelecidas.
A aproximação, porém, não eliminaria imediatamente a dependência europeia da China.
A abertura de novas minas, a ampliação de refinarias e a formação de cadeias alternativas de fornecimento exigem capital, tecnologia, infraestrutura e contratos de longo prazo.
A estratégia europeia, portanto, busca reduzir riscos de concentração, e não substituir de maneira imediata toda a produção chinesa.
Visita do líder vietnamita a Bruxelas em 22 de outubro pode abrir caminho para acordos
A divulgação dos documentos acontece poucos dias antes de uma possível visita do dirigente vietnamita To Lam a Bruxelas.
Segundo quatro autoridades europeias e vietnamitas consultadas pela Reuters, estão previstas reuniões com líderes da União Europeia em 22 de outubro de 2026.
Até 14 de outubro, a viagem ainda não havia sido anunciada oficialmente.
Um dos documentos internos recomenda que as instituições europeias preparem resultados concretos para essa oportunidade diplomática.
Questionada pela Reuters, a Comissão Europeia confirmou que está avaliando possibilidades de cooperação com o Vietnã no setor de matérias-primas críticas.
O país asiático ainda não integra o grupo de 16 parceiros estratégicos da União Europeia para matérias-primas.
Uma eventual aproximação poderá envolver instrumentos de financiamento, cooperação tecnológica e mecanismos de proteção de investimentos.
O relacionamento econômico, entretanto, ainda enfrenta questões pendentes.
O Vietnã solicita a ratificação de um acordo de proteção de investimentos firmado em 2019, cuja aprovação permanece pendente em alguns países europeus, incluindo a França.
Os documentos também identificam obstáculos relacionados à regulação, à transparência da participação chinesa em determinados projetos e às exigências vietnamitas de transferência de tecnologia.
Esses fatores podem influenciar a velocidade e as condições de novos investimentos estrangeiros.
Próxima etapa será transformar interesse europeu em contratos e projetos industriais
A reportagem da Reuters revela que a União Europeia já reconhece o Vietnã como um fornecedor potencialmente importante de tungstênio, terras raras e outros minerais utilizados por setores industriais estratégicos.
Os documentos mostram uma preocupação concreta: assegurar acesso aos recursos antes que concorrentes internacionais consolidem posições mais fortes na mineração e no processamento vietnamitas.
Ainda não existe confirmação de que Bruxelas tenha aprovado os financiamentos discutidos internamente.
A visita prevista de To Lam, em 22 de outubro, poderá indicar se a aproximação resultará em compromissos específicos ou permanecerá na fase de estudos.
Para o mercado internacional de mineração, o episódio demonstra que o valor estratégico de um depósito mineral está cada vez mais relacionado à capacidade de processar a matéria-prima e garantir contratos de fornecimento.
O Vietnã possui os recursos que interessam à Europa, mas a disputa decisiva será por quem conseguirá financiar, processar e assegurar o destino comercial desses minerais.
Por enquanto, o projeto europeu está no campo das negociações. A possível transformação dessa estratégia em investimentos efetivos dependerá dos próximos entendimentos entre Bruxelas e Hanói.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

