Faça um comentário
5 min de leitura
Ar-condicionado gastou 55,7% menos energia em teste da USP sem trocar o aparelho: sistema brasileiro desliga equipamentos sozinho e promete reduzir a conta de luz
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 06/11/2026 às 05:48
Atualizado em 06/11/2026 às 05:51
Ciência e Tecnologia
Grupo
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Sistema criado na USP reduziu em 55,7% o consumo de dois aparelhos de ar-condicionado em laboratório, de 101,68 para 45,04 kWh, sem trocar os equipamentos. Entenda como funciona o controle automático e seus limites.
Dois aparelhos de ar-condicionado instalados em um laboratório da Universidade de São Paulo (USP) consumiram 55,7% menos energia quando passaram a obedecer a um sistema de controle automático criado por pesquisadores brasileiros. A plataforma Koala acompanha as condições do ambiente e decide quando enviar comandos para a climatização, sem exigir a substituição dos equipamentos ou alterações em seus componentes internos.
No experimento realizado em São Carlos, o consumo mensal comparado caiu de 101,68 para 45,04 quilowatts-hora (kWh), uma diferença de 56,64 kWh. A temperatura permaneceu entre 23 °C e 26 °C, intervalo definido pela equipe. O resultado abre uma possibilidade de economia para edifícios, mas foi medido em condições de laboratório e ainda não corresponde a um desconto comprovado na conta de luz de casas brasileiras.
De 101,68 para 45,04 kWh: o que mudou no funcionamento dos aparelhos
A redução veio do comando e do monitoramento, não de um compressor mais moderno, uma troca de gás refrigerante ou uma reforma nos aparelhos. Os pesquisadores colocaram sensores e dispositivos de comando em comunicação para evitar períodos de funcionamento desnecessário. A mudança ocorreu na maneira de administrar a refrigeração da sala.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
A pesquisa foi conduzida no Laboratório de Sistemas Distribuídos e Programação Concorrente do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), na USP de São Carlos. Os dois equipamentos foram avaliados em um cenário com automação e outro sem ela, com acompanhamento do consumo de eletricidade e das condições ambientais.
Somando os aparelhos, a diferença entre os consumos mensais foi de 56,64 kWh. Esse valor expressa a energia que deixou de ser consumida no cenário experimental. A transformação de kWh em reais depende da tarifa, dos encargos e de quanto o ar-condicionado pesa no consumo total do imóvel; a equipe não anunciou uma economia fixa para consumidores residenciais.
Quando a luz é apagada, o ar-condicionado pode desligar sem ninguém tocar no controle
Uma das regras programadas no Koala é simples de imaginar. Quando as luzes de determinada sala são acesas, o sistema pode acionar o ar-condicionado; quando são apagadas, o equipamento pode ser desligado. O objetivo é reduzir a chance de a climatização continuar funcionando depois que o ambiente deixa de ser utilizado.
Há um cuidado importante: a luz apagada funciona como pista de possível desocupação, não como prova de que a sala ficou vazia. Os sensores empregados nesse teste não identificam diretamente a presença de pessoas. Uma aplicação fora do laboratório precisará considerar hábitos diferentes, inclusive ambientes onde alguém permanece trabalhando ou descansando com a iluminação desligada.
Além da luminosidade, os dispositivos monitoram temperatura, umidade e consumo elétrico. As leituras seguem para a plataforma, que executa decisões previamente configuradas. Os pesquisadores chamam essa rede de Internet das Coisas, expressão usada para aparelhos capazes de trocar dados e receber comandos conectados entre si.
Equipamento instalado continua no lugar e recebe comandos como os de um controle remoto
Outro diferencial é a possibilidade de aproveitar aparelhos já instalados. Um dispositivo conectado à rede envia sinais equivalentes aos de um controle remoto convencional. Assim, o sistema pode ligar ou desligar os equipamentos sem mexer nos motores ou circuitos internos do ar-condicionado.
Segundo a equipe, a tecnologia foi experimentada com aproximadamente dez marcas, mas a compatibilidade com outros modelos ainda precisa de avaliação. O Koala permanece em fase de pesquisa e seu desenvolvimento como produto comercial depende de novas etapas.
A arquitetura foi desenvolvida para acompanhar sensores e controladores distribuídos por diferentes salas. Além de registrar medições, ela permite administrar os dispositivos a distância e atualizar seus programas sem conectar cabos individualmente a cada unidade, facilitando o trabalho de manutenção em ambientes com muitos equipamentos.
Pesquisa começou no mestrado e recebeu prêmio em conferência na China
A plataforma surgiu da pesquisa de mestrado de Lucas de Souza Marques, atualmente doutorando do ICMC, com orientação do professor Júlio Cezar Estrella. O trabalho faz parte de uma linha de estudos iniciada em 2019 sobre gerenciamento de equipamentos em espaços universitários.
O artigo científico sobre a infraestrutura usada no Koala foi reconhecido com o prêmio de melhor trabalho científico na 10ª Conferência Internacional IEEE SmartIoT, realizada de 21 a 24 de agosto de 2026, em Shenyang, na China. Além do resultado energético, os pesquisadores apresentaram uma forma de instalar, monitorar e atualizar os dispositivos conectados.
A dissertação defendida em abril de 2026 detalha uma arquitetura que combina pequenas unidades eletrônicas, redes sem fio e sistemas de processamento para reunir dados ambientais. O objetivo é tornar o controle adaptável a salas de aula, laboratórios e outros prédios com rotinas distintas.
Próxima etapa vai levar os testes para uma sala de aula com circulação de pessoas
A equipe quer instalar o sistema em uma sala de aula do ICMC para observar seu desempenho num espaço com circulação de alunos e utilização mais variável do que a do laboratório. Esse passo poderá mostrar se as regras de acionamento funcionam bem quando a ocupação muda durante o dia.
Os pesquisadores também precisam avaliar sistematicamente a percepção de conforto térmico dos usuários. Manter os termômetros numa faixa determinada não resolve, sozinho, perguntas sobre sensação de frio, ventilação, preferências individuais e diferentes horários de utilização.
Paralelamente, a tecnologia poderá ser adaptada para analisar quando a ventilação natural é suficiente, em estudo com o Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP. Outra colaboração, com a Universidade Federal de Lavras, pretende aproveitar a mesma estrutura de monitoramento para acompanhar condições ligadas ao solo e ao cultivo de café.
A passagem do laboratório para um produto comercial ainda depende de testes adicionais, investimento e parcerias. Até lá, o resultado verificado é o desempenho dos dois aparelhos avaliados: consumo 55,7% menor, controle automatizado e temperatura entre 23 °C e 26 °C. Você usaria um sistema que desliga a climatização automaticamente para economizar energia? Conte nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

