Faça um comentário
6 min de leitura
É por uma estrada de gelo de 163 km, refeita todo ano, que a carga pesada chega a esta mina de ouro no Ártico do Canadá, e cada onça vendida nos últimos três meses custou US$ 4.816
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 06/11/2026 às 11:58
Mineração
Grupo
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
A estrada de gelo abre em geral de fevereiro a maio e leva o que os navios deixam; de julho a setembro, o custo da mina Goose ficou bem acima da meta do ano
A 520 km de Yellowknife, no sudoeste de Nunavut, máquinas pesadas e materiais chegam a uma mina de ouro por um caminho com prazo de validade. Ele precisa ser construído outra vez a cada ano. São cerca de 163 km de estrada de gelo, descritos na página da mina Goose, no site da B2Gold, a empresa dona da operação.
Esse endereço improvável, no Ártico do Canadá, vem acompanhado agora de uma conta pesada. De julho a setembro de 2026, a Goose custou US$ 4.816 por onça de ouro vendida. O número é do indicador de custo total, publicado no balanço que a B2Gold divulgou em 4 de novembro.
O número é de um trimestre, não do ano. A meta para 2026 segue entre US$ 2.670 e US$ 2.970 por onça, e a própria empresa espera fechar perto do teto dessa faixa.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Uma onça-troy, a medida usada no ouro, tem 31,1 gramas. Pelo dólar Ptax de venda do Banco Central de 5 de novembro, R$ 5,4621, os US$ 4.816 dão cerca de R$ 26,3 mil (conta nossa).
Como funciona a estrada de gelo que leva carga à mina Goose?
A viagem começa no mar. Navios saem de portos do Canadá e de outros países e descarregam materiais, combustível e máquinas em uma base em Bathurst Inlet. Isso ocorre em geral de agosto a outubro, antes de as águas congelarem.
Nessa base, chamada Marine Laydown Area, a carga é armazenada e preparada. É ali também que passa por manutenção a frota que constrói e opera a rota.
A temporada de navios termina e a estrada de gelo ainda não existe. Pelo calendário da empresa, o intervalo é de cerca de três meses, de novembro a janeiro (leitura nossa das datas).
A janela da estrada de gelo vai, em geral, de fevereiro a maio. Depois disso, a pista só volta no ano seguinte, construída do zero outra vez.
Do outro lado dos 163 km, a mina de ouro tem moinho, usina de energia e alojamento com mais de 600 camas. Há também ginásio, centro médico e loja de conveniência. O primeiro ouro saiu em junho de 2025, e a produção comercial começou em outubro daquele ano.
O que entra no custo de US$ 4.816 por onça de ouro?
O número que a mina de ouro reporta se chama custo total de sustentação (all-in sustaining cost, ou AISC). Ele não mede só o gasto de tirar o metal do chão.
A conta soma custos de produção, royalties, capital e exploração necessários para manter a operação. O total é dividido pelas onças vendidas.
No terceiro trimestre, a conta da B2Gold chegou a US$ 148,8 milhões para 30.894 onças vendidas. A divisão dá os US$ 4.816.
Dois itens carregam quase tudo: US$ 69,3 milhões em custos de produção e outros US$ 69,3 milhões em capital de sustentação. Cada um equivale a cerca de 47% do total (conta nossa).
Há também um efeito de calendário. A mina de ouro produziu 39.973 onças no período, cerca de 1,24 tonelada (conta nossa). Vendeu 9.079 a menos, então o gasto se espalhou por menos onças.
Don DeMarco, analista do National Bank Financial, atribui o número alto em parte a esse descompasso, relatou o Canadian Mining Journal. Ele soma ainda os gastos com o reparo do incêndio, a britagem móvel e trabalhos adiados.
A receita da mina de ouro no trimestre foi de US$ 135 milhões, o que dá cerca de US$ 4.370 por onça vendida (conta nossa). Fica abaixo do custo total, mas o indicador não é o balanço da mina: quase metade dele é capital.
O que o incêndio de abril fez com a produção da mina no Ártico?
Na noite de 16 de abril de 2026, o fogo atingiu o circuito de britagem, a parte que quebra a rocha antes do moinho. Ninguém se feriu, e a empresa descreve dano localizado, sem atingir moinho nem usina de energia.
A data caiu dentro da janela daquele ano da estrada de gelo. A produção, que tinha sido de 42.876 onças no primeiro trimestre, ficou em cerca de 12.900 no segundo e voltou a 39.973 no terceiro.
O problema não nasceu ali. Brian Quast, analista do BMO Capital Markets, escreveu em relatório de 5 de outubro que a Goose tem dificuldade para manter o ritmo do moinho desde o primeiro ouro. A causa principal, para ele, é o britador, e a publicação canadense acrescenta que o fogo agravou o quadro.
Para seguir processando, a mina passou a depender de britagem móvel. Durante a visita dos analistas, esse equipamento estava sendo enclausurado para aguentar o inverno de Nunavut.
Mike Cinnamond, presidente e CEO da B2Gold, disse no comunicado de resultados que a equipe segue os planos de ampliar a britagem. Pela fala dele, o moinho já recebe 3.200 toneladas por dia, dentro do previsto.
O comunicado dá os reparos e a primeira fase da obra como concluídos, com comissionamento em meados de outubro. A segunda fase mira 4.000 toneladas por dia, depois de meados de 2027.
Quanto ouro a Goose ainda precisa entregar até dezembro?
A tabela junta os trimestres divulgados pela B2Gold na página da mina e no balanço de novembro.
Para alcançar o piso da meta, faltam cerca de 74 mil onças no quarto trimestre, calcula DeMarco. Isso é quase o dobro do que saiu de julho a setembro.
O custo aperta do mesmo jeito. Até setembro, foram cerca de 93 mil onças vendidas a US$ 4.148, ou aproximadamente US$ 385 milhões.
Imagine o ano fechando com 170 mil onças vendidas, no teto de US$ 2.970. O trimestre final teria de sair por cerca de US$ 1.550 por onça. A conta é nossa e supõe que a venda alcance a produção até dezembro.
Nem todo mundo no mercado lê isso com alarme. Fahad Tariq, analista da Jefferies, escreveu que a execução na Goose continua reduzindo o risco. No grupo inteiro, a B2Gold até baixou a previsão de custo, para US$ 2.230 a US$ 2.410 por onça. A publicação canadense credita essa melhora às outras minas.
O que a B2Gold espera tirar desse canto do Ártico?
A empresa comprou a Sabina Gold and Silver e o distrito de Back River em 2023. O distrito reúne 12 áreas de projeto em um cinturão de 80 km, e as reservas prováveis somam 2,38 milhões de onças.
Ao preço médio de US$ 4.289 que o grupo obteve no trimestre, esse ouro valeria cerca de US$ 10,2 bilhões (conta nossa). É valor bruto do metal, antes de qualquer custo, e não previsão de lucro.
O teor explica parte do interesse. O moinho foi projetado para 4.000 toneladas por dia, com média planejada de 6 gramas por tonelada. Isso daria 24 kg de ouro por dia, antes das perdas do processo (conta nossa).
A B2Gold fala em chegar a 300 mil onças por ano no médio prazo. Para pesquisa mineral no distrito, separou US$ 51 milhões em 2026. A operação tem parceria com a Kitikmeot Inuit Association, entidade inuíte da região.
Antes disso, vem o teste mais imediato. O britador reparado precisa render ao longo do inverno do Ártico. A estrada de gelo, pelo calendário da empresa, só volta a ser usada por volta de fevereiro.
Tags
mina Goose
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

