Faça um comentário
7 min de leitura
Moradia de graça e meta de 2.600 euros por mês: transportadora da Polônia quer mais de 100 caminhoneiros brasileiros até 2027, mas só abre a porta para quem tem três anos de carreta
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 06/11/2026 às 11:56
Logística e Transporte
Grupo
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Os caminhoneiros brasileiros pagam cerca de 400 euros por mês em comida, começam devendo perto de 2.000 euros e ficam de 6 a 9 meses na Europa antes da primeira volta longa ao Brasil
Cama, cozinha, água e luz, sem aluguel e sem conta para pagar. É com essa oferta que a Logistic-Evex, transportadora da Polônia, procura caminhoneiros brasileiros, numa página inteira escrita em português.
O dinheiro vem junto: meta de 2.600 euros líquidos por mês. Com o euro de venda a R$ 6,1323, no fechamento de 5 de novembro do Banco Central, a conversão dá R$ 15.943,98.
A ambição virou número. O Brasil do Trecho informou em 3 de novembro que a empresa, com sede em Turek, quer mais de 100 caminhoneiros brasileiros até 2027. A meta saiu em setembro, numa publicação feita em parceria com o próprio canal, sem mês marcado para ser atingida.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Só que essa oferta tem outra coluna. Ela aparece na página de perguntas da própria transportadora, e é lá que o bolso do motorista começa a ser desenhado.
Quanto sobra dos 2.600 euros depois da comida e da dívida de entrada?
A moradia é de graça, mas a comida sai do bolso. A Logistic-Evex calcula cerca de 400 euros por mês em comida, bebida e higiene, tudo por conta de quem dirige.
Vem depois a dívida de entrada, e os caminhoneiros brasileiros já chegam com ela. Passagem e curso Code 95 somam em torno de 2.000 euros, ou R$ 12.264,60. A empresa adianta o dinheiro e desconta aos poucos, em cronograma combinado com cada motorista.
Para enxergar o que fica, a tabela simula parcelas em 6 e em 9 meses, o mesmo prazo que a transportadora pede de permanência na Europa para quitar o começo. É simulação: a parcela real sai do acordo individual.
A meta não é piso. O próprio texto da empresa chama os 2.600 euros de remuneração-alvo, e o Brasil do Trecho repete que é alvo, sem garantia. O cálculo é discutido caso a caso, e pode entrar bônus por desempenho.
Mesmo assim, a conta explica o interesse. Quem bater a meta e pagar a parcela maior da simulação fica com perto de R$ 11.447 por mês, antes de telefone, remessa e o que a família precisar aqui. Como tudo está em euro, o valor em reais mexe junto com o câmbio.
A página inicial promete o mesmo que a página de perguntas?
As duas contam a oferta de jeitos diferentes. A página inicial fala em 2.600 euros líquidos por mês e chama o Code 95 de curso pago pela empresa.
A página de perguntas é mais detalhada. Nela, o valor vira remuneração-alvo, e os custos do Code 95 aparecem como cobertos no início e quitados depois, ao longo do contrato.
As duas versões seguem no ar. Para os caminhoneiros brasileiros que forem conversar com o recrutador, a segunda é a que vale levar, para sair dali com valor e parcela no papel.
Carteira C resolve ou a empresa exige carreta de verdade?
O filtro mais duro é a estrada já rodada: 3 anos documentados com semirreboque. A Logistic-Evex avisa que apenas a categoria C ou D não basta e pede a C+E completa. O Brasil do Trecho descreve como habilitação compatível com a C+E europeia.
O resto da lista é papel, e tem detalhe que derruba candidato distraído:
- Passaporte válido por pelo menos 3 anos e já emitido antes do início, exigência que está tanto na página da empresa quanto no Brasil do Trecho.
- Scan do passaporte inteiro, todas as páginas, em PDF de até 4 MB.
- Habilitação física, porque a versão digital não é aceita para a permissão polonesa.
- Certidão de antecedentes criminais e histórico do condutor sem acidentes graves como responsável, para o visto.
Papel em ordem não encerra o assunto. Na chegada à Polônia há teste prático de ré, estacionamento e manobras. A empresa conta que criou a prova porque recebeu gente que declarava experiência e não conseguia fazer o básico.
O inglês não elimina ninguém. É preferido, mas a empresa aceita quem se vira com ferramentas de tradução.
A rotina prometida sai da Polônia e passa por Alemanha, França, Benelux, Itália e Reino Unido. São conjuntos tandem e semirreboque Mega, com carga leve e volumosa: móveis, latas, isopor. A frota é Mercedes-Benz e DAF, com idade média de cerca de 3 anos, e a página inicial apresenta 60 novos conjuntos Actros como um dos maiores investimentos da história da empresa.
Quanto tempo passa entre o formulário e a primeira viagem?
O embarque para a Polônia leva meses. O Brasil do Trecho calcula de 3 a 5 meses antes de sair do país, somando passaporte, permissão internacional para dirigir, permissão de trabalho e visto, sem aprovação garantida.
Só a permissão de trabalho leva de 1,5 a 2 meses, segundo a transportadora, e nesse período o motorista fica no Brasil. Depois vem o visto tipo D, pedido em embaixada ou consulado e sob responsabilidade dele.
Já na Polônia, entram mais 4 a 8 semanas de Code 95. Somados os prazos, dá algo entre 4 e 7 meses do começo do processo até a primeira viagem.
A taxa da permissão, de 400 zlótis (cerca de 95 euros), é paga pela empresa e não volta para ninguém se o processo cair. O seguro-viagem do visto é voluntário, e a opção citada pela Logistic-Evex custava cerca de R$ 1.021 em julho.
Quem tirou a categoria C antes de setembro de 2009 pode ter um caminho mais simples no Code 95. E a própria empresa avisa que nenhum documento dá garantia formal de 100%.
Quando o motorista volta para casa e quando a família pode ir junto?
A saudade tem prazo longo. A Logistic-Evex fala em ficar de 6 a 9 meses seguidos na Europa antes das primeiras férias longas no Brasil, justamente para quitar os custos do início. Ela mesma admite que o modelo não serve para todo mundo.
Depois disso, o ritmo é voltar a cada cerca de 3 meses, só que para a Polônia, não para o país de origem. E em regra o motorista dirige sozinho.
A família entra num prazo bem mais longo. A autorização de residência leva cerca de 1 ano, e a empresa estima de 2 a 2,5 anos entre a chegada e a reunificação.
O contrato polonês costuma ser por prazo determinado, de até 3 anos. Fazendo a conta num contrato cheio, sobrariam de 6 a 12 meses com a família por perto, sem contar renovação.
Quem quiser ouvir antes de decidir tem um atalho: a empresa oferece um grupo de WhatsApp com caminhoneiros brasileiros que já trabalham lá. Em setembro, cerca de 30 brasileiros estavam nas etapas de documentos, segundo o Brasil do Trecho.
Por que a Europa foi buscar motorista no Brasil?
A Logistic-Evex não está sozinha nessa corrida. O Brasil do Trecho mostrou em 6 de novembro que a lituana Vlantana Logistics quer até 200 motoristas da América do Sul, por meio da agência M/Brazil.
A M/Brazil, de Marcelo Toledo, diz ao Brasil do Trecho ter acordo com 17 transportadoras e projeta mais de 2 mil brasileiros em 2026. O mesmo texto cita um déficit de cerca de 500 mil motoristas na União Europeia, número de levantamento repercutido pela imprensa especializada.
O aperto também existe aqui. Na pesquisa da CNT de junho de 2026, citada na mesma reportagem, 65,1% das transportadoras relatam problema para achar condutor. Na prática, os caminhoneiros brasileiros experientes viraram disputa entre dois continentes.
A inscrição passa pelo formulário da empresa, e o Instagram dela também distribui o link a quem comenta “Eu quero”, como relatou o Brasil do Trecho. Antes de gastar com passaporte, três perguntas valem a conversa com o recrutador:
- Quanto dos 2.600 euros fica escrito no contrato?
- Qual é a parcela mensal dos custos de entrada, e em quantos meses?
- Quanto recebo durante as semanas de Code 95?
A moradia de graça tira o aluguel da conta. As outras linhas continuam com o motorista.
Tags
caminhoneiros brasileiros
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

