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Home»Brasil»Tempestades, dívidas e urnas: o Brasil de 2026 (por Gaudêncio Torquato
Brasil

Tempestades, dívidas e urnas: o Brasil de 2026 (por Gaudêncio Torquato

Por Metrópoles21 de dezembro de 20253 Mins Read
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Tempestades, dívidas e urnas: o Brasil de 2026 (por Gaudêncio Torquato
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O fim de ano se aproxima sob o impacto de chuvas torrenciais que castigam diversas regiões do país, revelando a fragilidade histórica da infraestrutura urbana e a incapacidade crônica do poder público de prevenir tragédias anunciadas. Mas, para além das águas que transbordam rios e invadem cidades, o Brasil enfrenta um outro dilúvio — o das incertezas políticas e econômicas, que se acumulam no horizonte nacional.

No plano político, o cenário permanece rigidamente polarizado. Mesmo mostrando cenários em que o presidente Lula leva vantagem, ganhando o pleito nos primeiro e segundo turnos, as pesquisas de opinião continuam a mostrar a intensa polarização que se arrasta desde as eleições de 2022, reproduzindo uma clivagem que deixou de ser apenas eleitoral para se tornar estrutural, emocional e identitária. Trata-se de uma divisão que bloqueia consensos mínimos, empobrece o debate público e transforma qualquer agenda em campo de batalha ideológica.

Essa polarização entre lulistas e bolsonaristas já projeta sua sombra sobre 2026. Embora o calendário eleitoral ainda pareça distante, o país vive, na prática, um estado permanente de pré-campanha. Lideranças políticas calculam cada gesto à luz da disputa futura, partidos evitam decisões impopulares e o discurso radical tende a se intensificar. O centro político, fragmentado e sem narrativa consistente, luta para se fazer ouvir em meio ao ruído dos extremos.

No Congresso, a consequência é um ambiente de negociação instável e pragmática, no qual o apoio se constrói mais por conveniência momentânea do que por projetos de longo prazo. O Executivo governa sob pressão contínua, enquanto o Judiciário é frequentemente empurrado para o centro da arena política, assumindo protagonismo em temas que deveriam ser resolvidos pela via institucional tradicional.

No campo econômico, os sinais tampouco oferecem alívio. O rombo nas contas públicas aprofunda-se e já dá mostras de ter alcançado um ponto crítico. Dados recentes do Banco Central indicam que a dívida do setor público consolidado registrou alta de um ponto percentual em setembro, atingindo 78,1% do Produto Interno Bruto (PIB) — o equivalente a R$ 9,75 trilhões. É um patamar elevado para um país emergente, sobretudo em um contexto de crescimento modesto e forte pressão por gastos sociais.

O avanço da dívida limita a capacidade de investimento do Estado, pressiona a política monetária e alimenta desconfianças quanto à sustentabilidade fiscal. Mais do que um indicador técnico, trata-se de um problema político. Em ano pré-eleitoral, cresce a tentação do gasto fácil, das promessas generosas e das soluções simplistas, enquanto diminui a disposição para ajustes impopulares, porém necessários.

O risco é evidente: 2026 pode se transformar em uma eleição plebiscitária, centrada em paixões e ressentimentos, com pouco espaço para um debate sério sobre responsabilidade fiscal, reformas estruturais e adaptação do país aos desafios climáticos, tecnológicos e demográficos. A insistência na lógica do confronto tende a produzir vencedores eleitorais, mas não soluções duradouras.

Entre enchentes que expõem a ausência de planejamento, uma polarização que paralisa o diálogo e uma dívida pública que estreita o campo de escolhas, o Brasil encerra o ano imerso em dúvidas. O desafio que se impõe não é apenas vencer a próxima eleição, mas recuperar a capacidade de pensar o médio e o longo prazo, resgatar a confiança nas instituições e substituir o grito pela razão.

Sem isso, seguiremos atravessando tempestades — climáticas, políticas e fiscais — sempre com a sensação de que o pior pode estar logo adiante.

 

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor-emérito da ECA-USP e consultor político

Fonte:
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