O primeiro Boletim Epidemiológico do Programa de Vigilância em Saúde de Populações Expostas à Poluição Atmosférica (Vigiar), divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre), mostra que a fumaça provocada pelas queimadas já começou a comprometer a qualidade do ar em diversas regiões do estado antes mesmo do período mais crítico da estiagem. O levantamento identificou episódios em que 12 municípios registraram concentrações de material particulado fino (PM2,5) acima do limite considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde (OMS), um poluente associado ao aumento de doenças respiratórias, cardiovasculares e até da mortalidade prematura.
Os dados analisam o período entre 1º de maio e 30 de junho deste ano e utilizam informações do Sistema de Informações Ambientais Integrado à Saúde (SISAM) e do programa europeu Copernicus, referência mundial no monitoramento da atmosfera. Embora a média da qualidade do ar no estado tenha sido classificada como “boa” ao longo do período, o boletim revela episódios pontuais de degradação que chamam a atenção justamente por ocorrerem no início do chamado verão amazônico, quando as queimadas ainda começam a ganhar intensidade.
O cenário mais preocupante foi registrado em 5 de maio. Naquela data, 12 municípios ultrapassaram o limite de 15 microgramas por metro cúbico (µg/m³) recomendado pela OMS. Plácido de Castro apresentou o pior índice do estado, com 21,9 µg/m³ — uma concentração 46% superior ao parâmetro internacional de segurança. Em seguida aparecem Capixaba (21,4), Senador Guiomard (21,2) e Rio Branco (20,7). Também registraram níveis acima do recomendado Acrelândia, Bujari, Xapuri, Brasiléia, Epitaciolândia, Assis Brasil, Porto Acre e Santa Rosa do Purus.
No próprio boletim, a Sesacre aponta que a piora da qualidade do ar observada naquele dia pode estar associada a ações antrópicas, principalmente queimadas e focos de calor.
Poucos dias depois, em 13 de maio, um novo episódio de poluição atingiu o estado. Desta vez, 11 municípios voltaram a superar o limite recomendado pela OMS. Acrelândia registrou a maior concentração de todo o levantamento, com 28,6 µg/m³, seguida por Porto Acre (26,1), Plácido de Castro (25,4), Rio Branco (21,6), Senador Guiomard e Bujari (20,8). Também apareceram acima do limite Manoel Urbano, Sena Madureira, Feijó, Capixaba e Tarauacá.
O boletim destaca que maio e junho marcam o início do período seco na Amazônia, quando a redução das chuvas favorece a propagação de incêndios florestais e queimadas para limpeza de áreas. Segundo a Sesacre, esse cenário exige monitoramento permanente, já que a tendência é de agravamento da qualidade do ar nos meses seguintes.
Os dados sobre focos de incêndio reforçam esse alerta. Feijó liderou o número de queimadas registradas entre maio e junho, seguido por Cruzeiro do Sul e Tarauacá, evidenciando que a pressão sobre a qualidade do ar tende a aumentar com o avanço da estiagem.
A preocupação das autoridades sanitárias se justifica pelos efeitos do PM2,5 sobre o organismo. Por serem extremamente pequenas, essas partículas conseguem ultrapassar as barreiras naturais do sistema respiratório, alcançar a corrente sanguínea e atingir diversos órgãos. A exposição está associada ao agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares, ao desenvolvimento de enfermidades crônicas, ao câncer de pulmão e ao aumento do risco de morte precoce, especialmente entre crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças preexistentes.
Diante do cenário, a Sesacre recomenda que os serviços de saúde fortaleçam sistemas de alerta precoce, ampliem campanhas educativas e intensifiquem o monitoramento da qualidade do ar durante a seca. À população, a orientação é evitar atividades físicas ao ar livre durante episódios de fumaça intensa, permanecer em ambientes fechados sempre que possível, manter boa hidratação e procurar atendimento médico diante do agravamento de sintomas respiratórios.

