7 min de leitura
Aparelho similar ao bafômetro é desenvolvido na Suíça e quando ligado ao celular, ele analisa o hálito e mostra quando o corpo começa a usar gordura como fonte de energia
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
Publicado em 24/07/2026 às 17:24
Ciência e Tecnologia
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Sensor de cetose desenvolvido na Suíça mede acetona no ar expirado e pode indicar, em segundos, mudanças na fonte de energia usada pelo organismo.
Um equipamento portátil desenvolvido na Suíça pretende mostrar pelo hálito quando o organismo reduz o uso de carboidratos e passa a obter mais energia das reservas de gordura. Conectado ao celular, o aparelho identifica acetona na respiração, transformando um processo metabólico interno em uma informação que pode ser acompanhada fora de laboratórios.
A tecnologia, chamada Alivion, foi apresentada em um artigo publicado em 22 de julho na revista científica Device por pesquisadores do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique. O estudo avaliou 312 amostras respiratórias coletadas de 12 adultos submetidos a diferentes rotinas alimentares e modalidades de exercício.
Sensor de cetose mede uma resposta real do organismo
Relógios e aplicativos costumam apontar a chamada zona de utilização de gordura por meio de cálculos baseados na frequência cardíaca. Esse método oferece uma projeção, mas não confirma diretamente qual combustível está sendo usado pelo corpo naquele instante.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O Alivion segue outro caminho, pois procura na respiração uma substância gerada durante a decomposição dos ácidos graxos. Dessa forma, o sensor de cetose tenta identificar uma alteração química efetiva, em vez de deduzir o metabolismo a partir do ritmo dos batimentos.
Essa diferença pode ser relevante porque duas pessoas submetidas ao mesmo treino ou à mesma alimentação nem sempre apresentam respostas iguais. O dispositivo foi pensado justamente para tornar essas variações mais visíveis ao usuário.
Acetona expirada funciona como pista metabólica
Em condições normais, a glicose e o glicogênio armazenado fornecem grande parte da energia utilizada pelo corpo, principalmente em atividades intensas ou de menor duração. Quando essa disponibilidade diminui, o fígado passa a transformar gordura em substâncias conhecidas como corpos cetônicos.
A acetona surge como um dos produtos dessa transformação e, por ser volátil, deixa o organismo junto com o ar expirado. Quanto maior sua presença na respiração, mais evidente se torna a mudança para um metabolismo com participação ampliada das gorduras.
É essa característica que permite ao sensor de cetose acompanhar o processo sem depender de coleta de sangue ou de equipamentos laboratoriais volumosos. A leitura é transmitida ao telefone e pode ser obtida em poucos segundos.
Um filtro resolve o problema da umidade da respiração
A construção do aparelho enfrentou uma dificuldade importante: o hálito contém grande quantidade de vapor d’água, capaz de interferir no material responsável pela detecção. Sem uma forma de separar as substâncias, a umidade poderia distorcer a medição da acetona.
Para contornar o obstáculo, a equipe instalou antes do sensor um pequeno tubo preenchido com Tenax TA, um polímero poroso que apresenta afinidade muito maior pela acetona do que pela água. O composto retém a molécula de interesse por um período mais longo, enquanto a umidade atravessa o sistema rapidamente.
De acordo com os pesquisadores, o Tenax TA captura a acetona com uma intensidade cerca de 90 vezes superior à registrada para a água. Essa diferença permite que o marcador metabólico alcance o detector em condições mais favoráveis à análise.
Mudança elétrica revela a concentração no hálito
O componente central do aparelho é formado por um material quimiorresistivo, cuja resistência elétrica se altera quando entra em contato com determinadas moléculas. A chegada da acetona modifica o comportamento do sensor, criando um sinal que pode ser convertido em concentração.
A separação promovida pelo polímero reduz a interferência de outros elementos presentes na respiração. Com isso, o equipamento consegue relacionar a resposta elétrica à quantidade de acetona liberada naquele momento pelo usuário.
O funcionamento não mostra quantos gramas de gordura foram eliminados, nem substitui uma avaliação médica. A proposta é indicar mudanças na rota metabólica adotada pelo organismo.
Testes compararam o sensor de cetose com laboratório
Durante a avaliação, os voluntários seguiram estratégias alimentares variadas e realizaram exercícios diferentes, criando condições metabólicas distintas. Cada amostra obtida pelo Alivion foi confrontada com medições produzidas por instrumentos laboratoriais.
Nas concentrações associadas a um metabolismo ainda sustentado principalmente por carboidratos, a diferença entre os resultados ficou em 7,5%. Segundo os autores, essa margem permite perceber alterações relevantes quando a produção de acetona começa a aumentar.
O grupo de participantes, entretanto, foi pequeno. Por isso, a equipe considera necessário repetir os testes com pessoas de idades, condições físicas e perfis metabólicos mais diversos.
Tecnologia busca simplificar o acompanhamento do metabolismo
Andreas Güntner, responsável pela pesquisa, afirmou à Chemical & Engineering News que o objetivo era tornar esse tipo de acompanhamento tão prático quanto uma pesagem comum. A motivação veio da dificuldade que as pessoas enfrentam para entender como o próprio corpo reage a treinos e dietas.
Mesmo programas idênticos podem produzir resultados diferentes, pois o momento de transição entre carboidratos e gorduras varia entre indivíduos. Um sensor de cetose portátil poderia oferecer dados mais personalizados para ajustar horários, intensidade dos exercícios ou estratégias alimentares.
A tecnologia não elimina a necessidade de orientação profissional, principalmente em tratamentos médicos ou mudanças alimentares restritivas. Seu possível papel seria fornecer uma informação adicional sobre o funcionamento do organismo.
Possíveis aplicações vão além das dietas
Os pesquisadores enxergam utilidade para o aparelho em diferentes situações ligadas à saúde metabólica. Entre as possibilidades mencionadas estão:
- acompanhamento de programas voltados à redução de peso;
- observação da resposta individual a exercícios;
- avaliação de intervenções para distúrbios metabólicos;
- apoio ao monitoramento de tratamentos com medicamentos GLP-1;
- análise de dietas com baixa oferta de carboidratos;
- estudos com pacientes que adotam alimentação cetogênica para epilepsias resistentes a medicamentos.
Esses usos ainda dependem de novas validações. O desempenho observado nas primeiras experiências não garante que a precisão será igual em todos os grupos.
Uso com medicamentos GLP-1 será investigado
A equipe pretende verificar se a leitura da acetona pode ajudar no acompanhamento de pessoas que utilizam medicamentos da classe GLP-1 para emagrecimento. Nesse contexto, o aparelho poderia mostrar como o metabolismo se modifica ao longo do tratamento.
Os pesquisadores também planejam avaliar pacientes que seguem dietas cetogênicas para controlar formas de epilepsia que não respondem adequadamente aos medicamentos convencionais. Nesses casos, confirmar a permanência em cetose pode ter importância clínica.
Antes de qualquer adoção ampla, o sensor de cetose precisará demonstrar segurança e consistência em estudos maiores. Também será necessário estabelecer como os dados devem ser interpretados em cada situação.
Sensor de cetose não equivale a medidor direto de emagrecimento
A presença de acetona indica que o organismo está utilizando gordura em maior proporção, mas não permite concluir isoladamente que uma pessoa está perdendo peso. O resultado corporal depende do consumo energético total, da alimentação, da atividade física e de outros fatores.
Uma leitura elevada também não significa automaticamente que o metabolismo esteja funcionando de forma mais saudável. Em determinados contextos, a cetose pode ser planejada; em outros, pode exigir avaliação especializada.
Por essa razão, os dados fornecidos pelo Alivion devem ser considerados como um retrato momentâneo da fonte de energia utilizada. Eles não substituem exames, diagnóstico ou acompanhamento realizado por profissionais.
Sensor de cetose ainda precisa passar por estudos maiores
O Alivion mostrou que uma amostra simples de respiração pode revelar mudanças metabólicas em poucos segundos, com resultados próximos aos de equipamentos de laboratório nas condições avaliadas. O sistema ainda conseguiu reduzir um dos principais problemas desse tipo de medição: a interferência causada pela umidade.
A combinação entre portabilidade, conexão com o celular e detecção direta da acetona diferencia a proposta das estimativas oferecidas por dispositivos vestíveis. Ainda assim, a pesquisa permanece em uma fase inicial, limitada a 12 participantes.
Caso os próximos testes confirmem o desempenho, o sensor de cetose poderá se tornar uma ferramenta para acompanhar de maneira mais individualizada dietas, exercícios e tratamentos. Até lá, o equipamento representa uma demonstração de que o hálito pode fornecer informações rápidas sobre a forma como o corpo está produzindo energia.
Com informações da Revista Galileu
Fonte
revista galileu
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Andriely Medeiros de Araújo.

