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Ada Rogato cruzou sozinha a Cordilheira dos Andes num aviãozinho de apenas 65 cavalos, sobrevoou a Amazônia só com uma bússola e sem rádio, e em 1951 percorreu 51 mil km pelas três Américas, única aviadora do mundo a fazê-lo até então
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 24/07/2026 às 21:15
Atualizado em 24/07/2026 às 21:23
Curiosidades
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Ela decolava de um campo de pouso paulista num aviãozinho que hoje caberia num hangar de aeroclube e voltava semanas depois com um recorde mundial na bagagem. Ada Rogato voou sobre gelo, selva e montanha sem rádio, sem piloto automático e sem ninguém no banco ao lado para dividir o susto.
A cena parece invenção de roteirista, mas está registrada em publicação do Instituto Histórico Cultural da Aeronáutica: em 1950, uma paulista de 39 anos apontou o nariz de um aviãozinho Paulistinha CAP 4, de apenas 65 cavalos, para a Cordilheira dos Andes e atravessou. Sozinha. O reide sul americano passou por Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai, somou 11.200 quilômetros e 116 horas de voo solitário, e fez de Ada Rogato a primeira brasileira a cruzar a cordilheira pilotando.
No ano seguinte ela subiu a aposta. Em 1951, a bordo de um Cessna 140 batizado de Brasil, com 90 cavalos e sem instrumentos para voo cego, Ada percorreu 51.064 quilômetros pelas três Américas, da Terra do Fogo ao Círculo Polar Ártico, no Alasca. O trajeto passou por 28 países e territórios e entrou para a história como recorde mundial de maior distância percorrida em avião de pequeno porte.
Um aviãozinho de 65 cavalos contra a maior cordilheira do continente
Para entender o tamanho do feito, ajuda saber o que é um Paulistinha CAP 4. Era um monomotor leve de fabricação nacional, cabine estreita, estrutura de tubos e tela, projetado para instrução e voo de recreio. Sessenta e cinco cavalos é menos potência do que carrega hoje um carro popular de entrada. Com esse aviãozinho, Ada encarou uma barreira de montanhas que obriga a subir a altitudes onde o ar rarefeito derruba o desempenho do motor exatamente quando o piloto mais precisa dele.
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Não havia pressurização, não havia radar, não havia previsão meteorológica de precisão. Havia carta, bússola, relógio e o próprio julgamento. Na aviação da época, cruzar os Andes num monomotor de instrução era menos uma proeza esportiva e mais uma aposta calculada contra a física.
O reide de 1950 não foi um salto único sobre a cordilheira. Foram 116 horas de voo distribuídas por quatro países vizinhos, com pousos em pistas improvisadas, reabastecimentos manuais e manutenção feita onde desse. Ao final, 11.200 quilômetros no diário de bordo e o registro de que nenhuma brasileira havia feito aquilo antes.
Sem rádio e só com uma bússola sobre a Amazônia
Anos depois veio o voo que talvez diga mais sobre o temperamento dela. Em 1956, a serviço do governo do Estado de São Paulo, Ada Rogato saiu para visitar todas as capitais brasileiras num pequeno avião. O trecho amazônico foi feito sem rádio, orientada apenas pela bússola, sobre uma floresta onde um pouso forçado significava desaparecer.
Não existia cobertura de radar sobre a região, nem rede de aeródromos alternativos a cada cem quilômetros. Perder a referência visual ali era perder tudo. Voar sobre a Amazônia com bússola e sem rádio significava aceitar que, se algo desse errado, ninguém saberia onde procurar.
O roteiro de 1956 não tinha nada de turismo. Ada viajava a serviço do governo paulista e precisou encadear capitais do Norte, do Nordeste e do Centro do país, o que significava longos trechos sem apoio em terra, sem aeródromo alternativo por perto e sem ninguém acompanhando a posição do aviãozinho de fora da cabine.
O detalhe que costuma escapar é que ela não foi a primeira mulher a fazer isso. Foi a primeira pessoa. Registros do setor de aviação agrícola apontam Ada como a primeira piloto, entre homens e mulheres, a cruzar a Amazônia a bordo de um aviãozinho.
51.064 quilômetros, 28 países e um recorde mundial
O circuito das três Américas começou em abril de 1951 e consumiu cerca de seis meses. O aviãozinho era um Cessna 140 de 90 cavalos, prefixo PT ADV, batizado de Brasil, comprado especialmente para a empreitada. A rota ligou a Terra do Fogo, no extremo sul do continente, ao Alasca, já dentro do Círculo Polar Ártico.
Foram 51.064 quilômetros e passagem por 28 países e territórios americanos. O único país do continente que ficou de fora naquela viagem foi a Bolívia, pendência que Ada resolveria no ano seguinte. O voo lhe rendeu o recorde mundial de maior distância percorrida em avião de pequeno porte, marca conquistada sem instrumentos de voo cego, ou seja, sem os equipamentos que permitem navegar dentro de nuvem ou em visibilidade zero.
O número de horas varia conforme a fonte, entre 326 e 364 horas de voo, mas a quilometragem é a mesma em todos os registros. Ada passou meio ano sozinha dentro de uma cabine de aviãozinho, atravessando climas que iam do calor equatorial ao frio ártico.
O aeroporto mais alto do mundo e um motor que perdia força
Em 1952, com o mesmo Cessna, ela partiu do Campo de Marte, em São Paulo, rumo à Bolívia. O destino era El Alto, em La Paz, então o aeroporto mais alto do mundo, a 4.071 metros de altitude. Ada foi a primeira mulher a pousar ali.
O problema técnico é conhecido de qualquer piloto de motor a pistão: quanto mais alto, menos oxigênio, e menos oxigênio significa menos potência. Um aviãozinho projetado para operar perto do nível do mar chega àquela altitude com uma fração do empuxo original, com corrida de decolagem muito mais longa e margem de erro reduzida a quase nada.
A viagem à Bolívia também fechou uma pendência. O circuito das três Américas, do ano anterior, tinha deixado de fora justamente aquele país, e Ada voltou para riscá lo da lista. O mesmo aviãozinho que a havia levado ao Alasca subiu, agora, ao altiplano andino.
Foi essa combinação que fez do pouso em La Paz um marco. Não era só chegar. Era conseguir sair de lá depois.
Antes dos recordes, a paraquedista e a piloto agrícola
Ada Rogato nasceu em São Paulo em 22 de dezembro de 1910 e tirou o brevê em 1936, tornando se a terceira mulher licenciada como piloto de avião no Brasil, catorze anos depois de Thereza de Marzo e Anésia Pinheiro Machado. Antes de virar recordista, colecionou primeiras vezes: primeira a voar planador solo no país, primeira paraquedista brasileira, campeã paulista da modalidade, com 105 saltos registrados.
Durante a Segunda Guerra Mundial, fez mais de 200 voos de patrulhamento sobre o litoral paulista. Em 1948, no sábado de carnaval, realizou o primeiro voo agrícola pilotado por uma mulher no Brasil, na região de Marília, no interior paulista, dentro da campanha contra a broca do café. Pulverizar lavoura em voo rasante, com um aviãozinho carregado de inseticida, é um dos tipos de operação mais perigosos da aviação civil, ontem e hoje.
Também participou de uma revoada com 280 aviões brasileiros até a Argentina, somando 4.782 quilômetros em pouco mais de 29 horas de voo. Somando tudo, ela acumulou cerca de 5.000 horas de voo ao longo de uma carreira que atravessou os anos 1930 aos anos 1960.
As duas pioneiras que abriram a pista
Ada foi a terceira, e o caminho até ali tinha sido aberto por duas mulheres em 1922. Thereza de Marzo e Anésia Pinheiro Machado fizeram o voo solo no mesmo dia, 17 de março de 1922, num Caudron G 3 de fabricação francesa. Thereza recebeu o brevê número 76 em 8 de abril, um dia antes de Anésia, que ficou com o número 77, e por isso é considerada oficialmente a primeira piloto brasileira.
A carreira de Thereza durou pouco mais de quatro anos e terminou dentro de casa. Em 25 de setembro de 1926 ela se casou com o alemão Fritz Roesler, um de seus antigos instrutores, que a incentivava enquanto eram namorados e a proibiu de voar assim que viraram marido e mulher. Ela contou depois que ele cortou suas asas, alegando que bastava um aviador na família. Somou pouco mais de 300 horas de voo, foi condecorada com a Ordem do Mérito Aeronáutico em 1976 e morreu em 9 de fevereiro de 1986, aos 82 anos.
Anésia teve destino oposto e voou por mais de três décadas. Cinco meses depois de tirar o brevê, fez o primeiro voo interestadual entre São Paulo e Rio de Janeiro, viagem que levou quatro dias porque o aviãozinho só aguentava uma hora e meia de voo entre as paradas para reabastecimento e manutenção. Foi recebida no Rio por Santos Dumont, que lhe entregou uma medalha de ouro. Mais tarde atuou como instrutora na Panair e na Pan Am, integrou a organização internacional de mulheres pilotos fundada por Amelia Earhart e foi proclamada pela Federação Aeronáutica Internacional decana mundial da aviação feminina, por ter o brevê mais antigo do mundo ainda em atividade. Morreu em 10 de maio de 1999, aos 94 anos.
A Esquadrilha da Fumaça sobre o próprio velório
Ada Rogato foi a primeira mulher a receber a Comenda Nacional de Mérito Aeronáutico e recebeu da Força Aérea Brasileira o título de Piloto Honoris Causa. Nos últimos anos de vida, dedicou se ao Museu de Aeronáutica de São Paulo, que funcionava no Parque Ibirapuera, na capital paulista.
Morreu de câncer em 15 de novembro de 1986, aos 75 anos. O corpo foi velado no próprio museu, e a Esquadrilha da Fumaça sobrevoou o local em homenagem. É um encerramento raro: poucos civis, e pouquíssimas mulheres, receberam despedida assim no Brasil.
Enquanto isso, a presença feminina na aviação segue pequena. As mulheres representam cerca de 3 por cento dos pilotos no país. Setenta e cinco anos depois de uma paulista atravessar as três Américas sozinha num aviãozinho de 90 cavalos, a conta ainda não fecha.
Ada Rogato cruzou montanha, selva e círculo polar com bússola, mapa e teimosia, numa época em que muita gente achava que mulher não devia sequer entrar na cabine. Não pediu licença, não esperou convite e voltou com recorde mundial.
E você, conhecia a história de Ada Rogato ou é a primeira vez que ouve esse nome? Comenta aí quem mais da aviação brasileira você acha que merecia estar em livro didático e não está.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

