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Enquanto os veículos circulam e desgastam os pneus no asfalto, a poeira dos pneus pode ser transportada pelo vento até áreas residenciais e acumular substâncias químicas em varandas, inclusive em imóveis afastados da origem exata das partículas
Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 25/07/2026 às 13:51
Ciência e Tecnologia
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Pesquisa encontrou substâncias associadas ao desgaste dos pneus em 29 de 30 varandas residenciais, detectou 6PPD-quinona em 23 amostras e mostrou como partículas liberadas pelo tráfego podem viajar pelo ar e alcançar ambientes domésticos
Uma forma de poluição gerada diariamente pelo trânsito conseguiu sair das ruas e alcançar um espaço muito mais próximo dos moradores. Pesquisadores encontraram partículas de desgaste de pneus e substâncias associadas em varandas residenciais de Brisbane, na Austrália.
Das 30 varandas analisadas, 29 apresentaram pelo menos um dos compostos químicos investigados. A 6PPD-quinona, formada a partir de um aditivo utilizado para prolongar a vida útil dos pneus, apareceu em 23 amostras, equivalentes a 77% do total.
O trabalho foi publicado em 22 de junho de 2026 na revista científica ACS ES&T Air. Os resultados foram divulgados pela Universidade de Queensland em 21 de julho de 2026.
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Pesquisadores analisaram poeira acumulada em 30 varandas
As amostras foram coletadas entre junho de 2024 e março de 2025 em 30 varandas residenciais externas distribuídas pela região metropolitana de Brisbane.
Os imóveis estavam localizados em diferentes ambientes urbanos, incluindo áreas próximas de estradas, bairros suburbanos e regiões mais perto do distrito comercial central, conhecido pela sigla CBD.
O objetivo era descobrir se a poluição produzida pelo desgaste dos pneus permanecia concentrada nas estradas ou se poderia ser transportada pelo ar até espaços residenciais.
O estudo, chamado From Streets to Seats: Assessment of Tire Wear Particles and Tire Additive Chemicals in Australian Urban Dust, representa a primeira medição quantitativa desse tipo de poluição em poeira acumulada em varandas australianas.
Os cientistas não se limitaram a observar ou pesar a poeira. Eles utilizaram técnicas laboratoriais capazes de identificar tanto partículas derivadas do desgaste dos pneus quanto compostos químicos presentes ou formados a partir de seus aditivos.
A pirólise associada à cromatografia gasosa e à espectrometria de massas foi empregada para medir as partículas. Já a cromatografia líquida com espectrometria de massas permitiu procurar substâncias em concentrações muito pequenas.
Material liberado pelos pneus não desaparece depois do desgaste
Durante o deslocamento de um veículo, o contato constante entre pneu e asfalto remove pequenas quantidades de material. Essas partículas são compostas por borracha sintética, enchimentos, resíduos da superfície da estrada e diferentes aditivos químicos.
Parte do material permanece no pavimento e pode chegar a rios e sistemas de drenagem durante as chuvas. Outra parte, especialmente as partículas menores, pode ser levantada pelo vento, permanecer suspensa e ser depositada longe da estrada.
“Pessoas veem o desgaste dos pneus como uma parte normal da condução, mas o material não simplesmente desaparece”, explicou Cassandra Rauert no comunicado da Universidade de Queensland.
Segundo a pesquisadora, trabalhos anteriores haviam concentrado as análises em estradas, águas e sedimentos. A nova pesquisa buscou descobrir se essa poluição também conseguiria viajar pelo ar e alcançar ambientes residenciais.
Deposição chegou a 4,1 miligramas por metro quadrado diariamente
As taxas de deposição das partículas de desgaste variaram de menos de 0,0006 a 4,1 miligramas por metro quadrado por dia. A mediana registrada nas 30 varandas foi de 0,3 miligrama por metro quadrado diariamente.
A soma das cargas superficiais dos compostos químicos associados aos pneus ficou entre menos de 0,01 e 316 nanogramas por metro quadrado por dia. A mediana alcançou 69 nanogramas.
Os números completos estão descritos no resumo e material científico disponibilizado pela American Chemical Society.
As concentrações químicas nem sempre acompanharam a quantidade total de partículas. Em algumas varandas, os pesquisadores encontraram cargas químicas relativamente elevadas mesmo quando a massa das partículas de desgaste era menor.
A relação entre os compostos químicos e as partículas variou em mais de duas ordens de magnitude entre os pontos analisados. Para os autores, isso indica que transformações químicas também podem acontecer durante o transporte pelo ar.
Vento e altura das varandas influenciaram os resultados
A velocidade do vento teve papel importante na quantidade depositada. As maiores taxas de partículas de desgaste foram associadas principalmente a períodos ou locais com ventos mais fracos.
Isso pode acontecer porque o vento forte mantém parte do material em movimento ou o transporta para distâncias maiores, enquanto condições mais calmas favorecem a deposição sobre superfícies.
A altura das varandas também pode ter influenciado os resultados. De maneira geral, pontos mais próximos do solo apresentaram maior presença de poluentes associados aos pneus, embora a distribuição não tenha sido igual em todos os imóveis.
Segundo o artigo científico, essa diferença de altura pode ter dificultado a identificação de uma relação simples entre a quantidade de material e a distância de cada varanda até a estrada.
A descoberta demonstra que a poluição não permanece necessariamente ao lado da via onde foi produzida. As partículas podem ser redistribuídas pelo vento e acumuladas gradualmente em superfícies externas de residências.
Varandas perto do centro apresentaram enriquecimento químico
Os imóveis próximos ao CBD chamaram atenção pela quantidade de compostos químicos em comparação com a massa de partículas de desgaste encontrada.
Nas varandas localizadas dentro de um raio de cinco quilômetros do centro, a relação mediana chegou a 333 nanogramas de compostos por miligrama de partículas. O valor comparativo foi de 101 nanogramas por miligrama.
Essa diferença sugere um “enriquecimento químico” da poeira próxima à região central. Isso não significa necessariamente que todos os locais perto do centro receberam mais partículas, mas que o material depositado podia carregar uma proporção maior de determinadas substâncias.
Os pesquisadores consideram que processos atmosféricos, transformações químicas e redistribuição durante o transporte pelo ar podem explicar parte dessa diferença.
6PPD-quinona apareceu em 23 das 30 varandas
Entre as substâncias investigadas, a 6PPD-quinona foi encontrada em 23 varandas. A maior taxa mencionada no estudo chegou a aproximadamente 44 nanogramas por metro quadrado por dia em pontos do CBD.
A 6PPD-quinona não é diretamente adicionada aos pneus durante sua fabricação. O produto utilizado pela indústria é o 6PPD, um composto que ajuda a proteger a borracha contra rachaduras e degradação provocadas pelo ozônio e por outras substâncias reativas.
Quando o 6PPD entra em contato com o ozônio presente no ar, ele pode ser transformado em 6PPD-quinona. Esse processo é explicado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.
A substância ganhou atenção internacional depois que cientistas a relacionaram à mortalidade aguda do salmão-coho exposto ao escoamento contaminado de áreas urbanas.
A pesquisa que identificou essa ligação foi publicada na revista Science. A toxicidade comprovada em peixes, entretanto, não significa que o mesmo efeito aconteça em seres humanos nas concentrações encontradas nas varandas.
Além da 6PPD-quinona, foram detectados compostos como HMMM, 24MoBT e 5-MBTR, empregados ou associados à produção de pneus, borrachas e outros materiais industriais.
Estudo aponta possível caminho de exposição, mas não avaliou moradores
Os pesquisadores descrevem as varandas como locais capazes de acumular partículas e substâncias transportadas pelo ar. Na prática, esses espaços funcionam como superfícies de deposição da poluição produzida nas ruas.
O trabalho, porém, não analisou o sangue, a urina ou o estado de saúde dos moradores. Também não mediu quanto desse material entrou nos apartamentos ou foi efetivamente respirado ou ingerido pelas pessoas.
Assim, os resultados identificam uma possível rota de exposição, mas não determinam risco clínico, desenvolvimento de doenças ou efeitos diretos sobre quem vive nos imóveis analisados.
O estudo também não afirma que toda a poeira encontrada nas varandas era formada por pneus. As partículas e substâncias associadas estavam misturadas à poeira urbana acumulada nesses ambientes externos.
Pesquisa não atribuiu a poluição aos carros elétricos
A investigação avaliou a poluição do tráfego rodoviário de forma geral. Os pesquisadores não separaram as partículas produzidas por carros elétricos, veículos a gasolina, automóveis a diesel, ônibus ou caminhões.
Portanto, os resultados não permitem responsabilizar especificamente os carros elétricos pelas substâncias encontradas nas varandas.
Simran Kaur observou apenas que a expansão da frota elétrica deve reduzir emissões dos escapamentos, enquanto o peso das baterias pode aumentar o desgaste dos pneus e das estradas.
Essa possibilidade também aparece em um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
Segundo a OCDE, elétricos leves podem emitir menos partículas finas não provenientes do escapamento que veículos convencionais equivalentes. Modelos elétricos mais pesados, por outro lado, podem apresentar emissões maiores de determinadas partículas produzidas pelo desgaste.
Peso, tamanho dos pneus, aceleração, maneira de dirigir, pavimento e condições meteorológicas também influenciam a quantidade liberada. O problema, portanto, envolve o tráfego como um todo, e não apenas uma tecnologia de propulsão.
Para os autores, os dados de Brisbane podem contribuir para programas de monitoramento, desenvolvimento de pneus com menor desgaste e estratégias de controle da poluição urbana. A principal descoberta é que o material retirado dos pneus não fica restrito ao asfalto: parte dele pode viajar pelo ar e terminar depositada nas varandas das residências.
Tags
carrosveículos
Fontes
https://news.uq.edu.au/20
https://news.uq.edu.au/20
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Fabio Lucas Carvalho.

