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Depois de o governo dar a terra como perdida e propor o reassentamento da aldeia, um líder comunitário na Etiópia mobilizou os moradores para erguer à mão barreiras de pedra e barraginhas, e fez o lençol de água subir de 15 para 3 metros de profundidade
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 25/07/2026 às 21:01
Atualizado em 25/07/2026 às 21:02
Curiosidades
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Na aldeia de Abreha we Atsbeha, no norte da Etiópia, o governo ofereceu aos moradores mudar de região ou tentar restaurar a própria terra degradada. Sob a liderança de Aba Hawi, eles escolheram ficar, ergueram barreiras de pedra à mão e viram a água doce voltar a uma paisagem condenada.
Em uma das áreas mais degradadas de Tigray, no extremo norte da Etiópia, a aldeia de Abreha we Atsbeha enfrentava anos de fome, erosão e escassez de água quando decidiu erguer barreiras de pedra pelas encostas em vez de abandonar o próprio território. A história foi registrada em relato publicado pelo Centro Mundial de Agroflorestamento, o ICRAF, após uma visita de campo à região feita por mais de 50 especialistas internacionais em outubro de 2016.
No comando dessa virada estava Aba Hawi, presidente da comunidade, cujo apelido significa Homem de Fogo e cujo nome verdadeiro é Gebremichael Gidey. Quinze anos antes, aquela terra era árida e improdutiva, e as pessoas dependiam de ajuda alimentar para sobreviver. Hoje, no lugar da paisagem desolada, há represas cheias de água limpa, poços produtivos, colheitas fartas de teff e trigo e gado bem alimentado ao redor das árvores.
A escolha de 1998: sair ou restaurar
O ponto de partida dessa transformação foi uma decisão dura imposta à comunidade no fim da década de 1990. Diante da degradação severa da bacia hidrográfica, o governo apresentou aos moradores duas alternativas: mudar para uma região distante, com melhores condições climáticas, ou tentar recuperar a capacidade produtiva da terra arruinada, com apoio do Ministério da Agricultura.
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A aldeia discutiu longamente as duas opções, e coube a Aba Hawi convencer os vizinhos a apostar na segunda. Aceitar o reassentamento parecia o caminho mais fácil, mas a comunidade escolheu ficar e reverter a degradação da própria terra. A partir dali, os moradores passaram a investir o próprio trabalho na recuperação da bacia, uma tarefa que se estenderia por décadas e mudaria completamente o destino do lugar.
Barreiras de pedra para confundir o inimigo
O coração da recuperação foram as estruturas erguidas à mão pelas encostas. A comunidade construiu barreiras de pedra, terraços, gabiões, que são gaiolas de arame preenchidas com pedras, e pequenas barragens de retenção, tudo com materiais locais e de baixo custo. Essas obras tinham uma função central, controlar a erosão do solo, a ameaça que antes levava a chuva a arrastar a terra fértil morro abaixo.
Aba Hawi resume a estratégia em metáfora. Segundo ele, ao levantar essas estruturas de conservação de solo e água, a comunidade confundiu o inimigo, domando a erosão que parecia imbatível. Junto com as árvores e arbustos que voltaram a crescer, as barreiras de pedra garantem que a aldeia aproveite cada gota de chuva que cai durante a curta estação chuvosa, de apenas dois meses. Em vez de escorrer e se perder, a água passou a infiltrar no solo e recarregar o lençol subterrâneo.
A água doce que voltou à paisagem
O resultado mais visível de todo esse esforço foi o retorno da água a um lugar que estava seco. Onde antes havia terra rachada e improdutiva, surgiram represas cheias de água limpa e poços produtivos, sinal de que o lençol freático havia se recuperado de forma expressiva. Os poços da aldeia passaram a alcançar água muito mais perto da superfície do que antes, quando era preciso cavar bem mais fundo para encontrá la.
O impacto ultrapassou os limites da própria aldeia. A outrora condenada Abreha we Atsbeha se prepara para fornecer água potável a Wukro, o centro urbano da região, num sinal de que a recuperação deixou de beneficiar só quem a construiu. É em Wukro que ainda está de pé a igreja monolítica de Wukro Chirkos, do século IV, erguida durante o reinado de dois reis irmãos chamados Abreha e Asbeha, que deram nome à aldeia.
Da ajuda alimentar ao excedente para vender
A volta da água trouxe junto a recuperação da saúde do solo, e com ela uma mudança econômica profunda. A comunidade agrícola que antes vivia de ajuda alimentar e mal conseguia se sustentar passou a produzir excedente para venda. Foi uma inversão completa, de uma situação de subsistência extrema para uma agricultura capaz de gerar renda.
Novas atividades econômicas floresceram na paisagem restaurada. A apicultura e o cultivo de árvores frutíferas para venda surgiram como fontes de renda que não existiam na terra degradada. Aba Hawi traduz essa lógica com outra imagem certeira: os vales com árvores e arbustos são onde a comunidade faz seus investimentos, e as barragens e as águas subterrâneas são o caixa eletrônico de onde ela faz os saques.
A professora das árvores
Entre todas as espécies que voltaram, uma ganhou destaque especial na fala do líder comunitário. Apontando para uma grande Faidherbia albida, Aba Hawi a chamou de a professora das árvores, e a razão está no comportamento incomum dessa planta. Ela tem uma fenologia invertida, ou seja, perde as folhas justamente na estação chuvosa, quando a lavoura está no campo, e recupera a folhagem na estação seca, quando o alimento escasseia.
Esse ciclo faz da árvore uma aliada da agricultura, porque ela não disputa luz com a plantação no período de crescimento. As flores da Faidherbia albida ainda servem de excelente alimento para as abelhas, que sustentam cerca de 50 colmeias na comunidade. É o tipo de conhecimento prático, observado na própria terra, que ajudou a orientar quais espécies valia a pena regenerar e proteger na bacia hidrográfica.
As regras que sustentaram a mudança
Nada disso teria durado décadas sem um conjunto de regras acordadas pela própria comunidade. Um dos pilares foi o cercamento de porções de terra, uma prática que fecha determinadas áreas para permitir a regeneração natural da vegetação, combinada com o controle do pastoreio livre do gado, que antes impedia qualquer recuperação das encostas.
Essas regras têm dentes. Em cada distrito, o conselho local define as normas e as comunica à população, e quem as descumpre enfrenta punições reais. Pastorear gado sem autorização ou coletar lenha em áreas cercadas pode gerar multa de 10 mil birr, cerca de 500 dólares, ou até dois anos de prisão, além da exclusão social imposta pelos próprios vizinhos, muitas vezes a punição mais temida. Por mais de uma década, cada agricultor dedicou dezenas de dias de trabalho voluntário por ano às obras de conservação, o que permitiu iniciar e manter o progresso.
Um modelo reconhecido pelo mundo
O trabalho de Abreha we Atsbeha não passou despercebido. Em 2012, a comunidade e Aba Hawi foram premiados com o Equator Prize, das Nações Unidas, um reconhecimento internacional para iniciativas locais de desenvolvimento sustentável, transformando uma aldeia antes condenada em referência mundial de restauração de terras.
A experiência virou justamente o tipo de caso que se busca replicar em escala continental. A visita de 2016 foi organizada durante a conferência de lançamento da Iniciativa Africana de Restauração da Paisagem Florestal, a AFR100, que reúne países em torno da meta de restaurar 100 milhões de hectares de terras degradadas na África. O que Aba Hawi provou em uma pequena bacia de Tigray é que terra dada como perdida pode voltar a produzir água, comida e renda, desde que haja liderança, regras claras e o trabalho coletivo de quem vive nela.
Uma terra condenada que voltou a dar água
Assista o vídeo
A história de Abreha we Atsbeha começa com um veredito de fracasso, o de um governo que ofereceu à aldeia trocar de lugar porque a terra parecia irrecuperável, e termina com represas cheias, poços fartos e água doce sendo enviada até a cidade vizinha. No meio do caminho, houve barreiras de pedra erguidas à mão, árvores replantadas, regras duras e décadas de trabalho voluntário sob a liderança do Homem de Fogo.
E aí fica a pergunta que rende conversa de verdade. Você acredita que uma comunidade organizada consegue reverter um estrago ambiental que o próprio governo já tinha dado como perdido, ou acha que casos assim dependem de sorte e de condições muito específicas? Comenta aqui embaixo se existe algum lugar degradado perto de você que bem que poderia passar por uma virada dessas, e o que você acha que faria a diferença para isso acontecer.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

