8 min de leitura
Sem indústria por trás e trabalhando sozinho na oficina de casa, um marceneiro aposentado francês esculpiu durante 5 anos e 5 mil horas um Citroën 2CV inteiro de madeira, com motor a gasolina, que roda a 80 km/h e foi leiloado por 224 mil dólares
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 25/07/2026 às 21:00
Atualizado em 25/07/2026 às 21:10
Curiosidades
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
A carroceria, as portas, o capô, o painel e até o volante saíram de madeira de árvore frutífera cortada na própria região. Michel Robillard levou cinco anos para terminar o carro, dirigiu ele pelas ruas da cidade em 2017 e o vendeu seis anos depois pelo maior valor já pago por um 2CV.
Michel Robillard passou a vida tocando uma serraria perto de Loches, no departamento de Indre e Loire, no centro da França, e se aposentou fazendo maquetes de madeira, algumas delas encomendadas pela Ferrari. Em 2011, aos 62 anos, decidiu executar um plano que carregava havia mais de três décadas: construir em tamanho real, à mão, um Citroën 2CV de madeira.
Foram cinco anos de trabalho e cerca de 5.000 horas de oficina, segundo o próprio marceneiro em entrevista à agência France Presse. O carro saiu do ateliê rodando em setembro de 2017 e, em 4 de junho de 2023, foi a leilão em Montbazon, perto de Tours, onde alcançou 210 mil euros com as taxas, equivalentes a 224.440 dólares na conversão feita pela CBS News. É o maior valor já registrado na venda de um 2CV.
Cinco anos, 5 mil horas e um sonho de trinta anos
O projeto não nasceu de encomenda nem de patrocínio. Robillard trabalhou sozinho, no próprio ateliê, sem equipe, sem molde industrial e sem prazo de cliente. Antes do carro em tamanho real, ele já era conhecido na região pelas maquetes em madeira, incluindo modelos feitos para a Ferrari.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
A ideia de reproduzir um 2CV vinha de longe. Segundo relatos publicados na imprensa regional francesa, era um desejo que ele alimentava havia mais de trinta anos, e que só virou obra quando a aposentadoria liberou o tempo necessário.
O ritmo de trabalho ele mesmo descreveu. Foram cinco anos de vida dedicados ao projeto, de dia e às vezes de madrugada, movidos por paixão e não por encomenda, conforme contou à France Presse. Quando a peça foi vendida, admitiu ter sentido um aperto no peito ao se separar dela.
O carro ganhou nome próprio: La Belle Lochoise, algo como a bela de Loches. A escolha não é decorativa. O apelido amarra a peça ao lugar onde ela foi feita e à madeira que saiu dos pomares da mesma região.
Quais madeiras entraram no carro
A seleção de madeira seguiu a função de cada peça, e todas vieram de árvores frutíferas ou nobres da região. As asas dianteiras e traseiras, aquelas curvas que dão o desenho característico do 2CV, foram feitas em nogueira. A carroceria e a estrutura levaram pereira, macieira e cerejeira.
O painel de instrumentos recebeu tratamento diferente. Foi executado em olmo, na parte do tronco onde a fibra se enrola e forma desenho irregular, valorizada em marcenaria fina justamente pelo veio. O volante também é de madeira.
Nada disso é revestimento aplicado sobre chapa. A madeira é a estrutura, e não um acabamento colado por cima de metal, o que muda completamente o grau de dificuldade da execução e explica por que o conjunto pesa 600 quilos só na parte de madeira.
O capô esculpido em um bloco só
A peça mais comentada é o capô. No 2CV original, ele tem ondulações longitudinais, aquelas nervuras que qualquer pessoa reconhece de longe. Robillard esculpiu o conjunto a partir de um bloco único e trabalhou as 22 nervuras com formão e lixa, sem prensa e sem estampagem.
As asas foram o outro ponto crítico. A curvatura tridimensional dessas peças é o tipo de forma que a indústria resolve com matriz de aço em segundos e que, em madeira maciça, exige desbaste progressivo e paciência.
Para chegar lá, o marceneiro construiu antes 15 maquetes detalhadas do projeto, que ele manteve no ateliê. Antes de cortar a primeira peça definitiva, ele já tinha feito o carro inteiro em miniatura, mais de uma vez.
O que não é de madeira: chassi de Dyane e motor de 3CV
Aqui entra a parte que a maioria das manchetes omite. A carroceria é de madeira, mas o carro não é integralmente de madeira. A estrutura de madeira foi montada sobre o chassi de um Citroën Dyane de 1969, e o motor veio emprestado de um 3CV.
São 602 centímetros cúbicos e 32 cavalos, bloco a gasolina refrigerado a ar, o mesmo tipo de propulsor que equipava os utilitários mais simples da Citroën na época. Com esse conjunto empurrando 600 quilos de madeira, a velocidade máxima fica em 80 quilômetros por hora.
A sigla 2CV também tem explicação. Vem de deux chevaux, dois cavalos, mas não se refere à potência do motor e sim à classificação fiscal usada na França para calcular imposto sobre veículos. Na prática, o carro que ficou conhecido como o de dois cavalos sempre teve bem mais que isso debaixo do capô.
O modelo reproduzido é um 2CV do tipo AZKA, de 1955. O 2CV original estreou em 1948 como resposta francesa ao Fusca alemão, ganhou o apelido de guarda chuva sobre rodas e saiu de linha em 1990, depois de mais de quatro décadas de produção.
A bênção do padre e o desfile pelas ruas de Loches
A inauguração, em 2017, teve cerimônia. Antes de desfilar pelas ruas de Loches, o carro de madeira foi abençoado pelo pároco local, cena que a imprensa regional registrou e que ajudou a transformar a peça em assunto nacional na França.
A repercussão foi imediata. Jornais, rádios e emissoras de televisão procuraram o marceneiro, e ele passou a receber propostas de compra com frequência. Naquele momento, dizia que pretendia deixar o carro para os descendentes, a menos que aparecesse uma oferta impossível de recusar.
Vale dizer que carroceria em madeira não é invenção dele. Modelos históricos já haviam usado o material, como o Hispano Suiza Tulipwood, montado nos anos 1920. A diferença de La Belle Lochoise é ser obra individual, feita fora de qualquer estrutura industrial, e o trabalho de Robillard acabou servindo de referência para outros artistas franceses que passaram a explorar o mesmo caminho.
O reconhecimento também veio de dentro da própria marca. O Citroën Origins, acervo digital histórico da fabricante, catalogou La Belle Lochoise em seu inventário, o que colocou uma peça artesanal ao lado dos modelos oficiais da casa.
O leilão que quebrou o recorde do 2CV
A venda aconteceu em 4 de junho de 2023, conduzida pelo leiloeiro Aymeric Rouillac, em Montbazon. A estimativa prévia era de 150 mil a 200 mil euros, calibrada pelo recorde mundial anterior de um 2CV, de 172 mil euros, obtido por um carro de metal comum.
O lance inicial de 150 mil euros não encontrou comprador no salão. A disputa correu por telefone e o martelo bateu em 170 mil euros, valor que sobe para 210 mil euros quando somadas as taxas do leilão. Foi essa cifra final que a CBS News converteu para 224.440 dólares.
Rouillac deixou a última martelada para o próprio Robillard. O comprador foi Jean Paul Favand, fundador do Museu das Artes Foranas, em Paris, colecionador de objetos de parque de diversões, de cavalos de carrossel em madeira e também de exemplares de 2CV. A peça continuou na França.
Afinal, o carro pode ou não circular na rua?
Este é o ponto em que as fontes se contradizem, e vale registrar em vez de escolher a versão mais bonita. Duas semanas antes do leilão, o leiloeiro afirmou à imprensa francesa que o carro havia passado pela inspeção técnica, tinha documento de 1957, estava emplacado e segurado e, portanto, podia circular normalmente.
Depois da venda, a versão mudou. Publicação do meio especializado reproduzida no site da própria casa de leilões informou que o veículo foi vendido sem garantia de nenhuma espécie e sem documento em ordem, e que por isso só pode rodar em situações muito específicas, como eventos e exposições. A CBS News também descreve o carro como não emplacado e proibido em via pública.
As três versões não fecham, e nenhuma delas foi corrigida publicamente. O mais provável é que o status documental tenha mudado entre o anúncio do leilão e a entrega ao comprador, mas isso é leitura, não confirmação.
A próxima obra: uma DS de madeira em 27 meses
Robillard não parou. No mesmo dia da venda, anunciou o projeto seguinte: reproduzir em madeira um Citroën DS21 Cabriolet coupé Chapron, versão conversível de luxo do modelo que a Citroën lançou em 1955.
O prazo que ele estabeleceu foi de 27 meses, contados para terminar a tempo de marcar os 70 anos da DS, em outubro de 2025. É um cronograma bem mais apertado que o do 2CV, num carro de linhas mais complexas e com o desafio adicional da carroceria conversível.
Até a redação deste texto, não localizei confirmação pública de que a DS de madeira tenha sido concluída. O prazo anunciado já passou, e nenhuma das fontes consultadas registra a entrega da peça.
Um homem sozinho, com formão e lixa, levou cinco anos para fazer o que uma prensa industrial resolve em segundos, e no fim conseguiu por sua obra em madeira mais do que valia o 2CV de metal mais bem conservado do mundo. O recorde anterior era de 172 mil euros. O de madeira, feito à mão numa oficina do interior da França, custou 210 mil.
E você, pagaria mais por um carro que não sai da fábrica ou por um feito à mão, peça por peça, que quase não pode rodar na rua? Comenta aí se você considera isso um carro ou uma escultura que por acaso anda.
Tags
carromarceneiro
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

