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Para cravar estacas dentro do mar sem balsa, sem rebocador e sem esperar a maré, 150 operários maranhenses tocam no Porto do Itaqui uma plataforma que caminha sozinha sobre o cais carregando dois guindastes de 200 toneladas cada
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 25/07/2026 às 23:09
Atualizado em 25/07/2026 às 23:15
Construção
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Sem depender de embarcação de apoio em uma das áreas de correnteza mais braba da costa brasileira, os operários maranhenses que constroem o Berço 98 usam uma estrutura de aço que avança junto com a obra. São R$ 289 milhões investidos pela EMAP e entrega prevista para outubro de 2026.
O Porto do Itaqui, em São Luís, começou a usar em fevereiro de 2025 o Cantitravel, uma superestrutura metálica que substitui o apoio náutico tradicional na construção do Berço 98. O equipamento aguenta dois guindastes de 200 toneladas cada e todo o maquinário de cravação, o que permite aos operários maranhenses trabalhar sobre a água sem depender de balsas ou de suportes flutuantes, segundo informou a EMAP, empresa estadual que administra o porto, em comunicado divulgado à imprensa e publicado pelo site Portos e Navios.
Na ocasião, a obra tinha 20% das fundações concluídas e empregava 150 trabalhadores. Um ano e quatro meses depois, em junho de 2026, o Berço 98 chegou a aproximadamente 84% dos serviços executados, com conclusão prevista para outubro deste ano, conforme balanço da EMAP e declarações da presidente da empresa, Oquerlina Costa. O novo atracadouro custa R$ 289 milhões e promete ampliar em cerca de 8 milhões de toneladas por ano a capacidade de exportação do maior porto público do Arco Norte.
O equipamento que dispensou o apoio náutico no meio da correnteza
Construir um cais é um problema geométrico simples e um problema logístico horrível. As estacas precisam ser cravadas dentro da água, e o método tradicional exige balsas, rebocadores e uma janela de trabalho que depende do mar. Na baía de São Marcos, onde fica o Itaqui, a combinação de grandes amplitudes de maré com correntezas fortes torna essa dependência ainda mais cara.
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O Cantitravel resolve isso por cima. Trata-se de uma superestrutura metálica em aço, amplamente usada na construção de pontes e cais lineares, que elimina a necessidade de suportes marítimos ou flutuantes justamente em locais onde esses equipamentos teriam uso dificultado, conforme a descrição técnica divulgada pela EMAP. Em vez de a obra descer até a água, a plataforma leva a obra por cima dela.
Foi a primeira vez que o equipamento entrou em operação no porto maranhense, segundo a então presidente em exercício do Porto do Itaqui, Isa Mary Mendonça. Para os operários maranhenses envolvidos na frente de fundações, a mudança altera a rotina inteira: a frente de serviço deixa de ser um ponto isolado no mar e passa a ser uma extensão do próprio canteiro.
Como a estrutura avança junto com a obra
A lógica do sistema é sequencial. À medida que as estacas são cravadas, escavadas e concretadas, o Cantitravel avança acompanhando as fundações já executadas. Depois disso começa a montagem dos pré-moldados e a concretagem in loco, etapa que consolida a superestrutura do berço.
O ganho não está apenas na velocidade. De acordo com o diretor de engenharia do porto, Marcel Santos, o sistema permite uma execução com menor grau de incerteza produtiva, melhor aproveitamento dos recursos e, principalmente, mais segurança para quem está no serviço. Menos incerteza, em obra marítima, significa menos dia perdido esperando condição de mar.
Vale um esclarecimento sobre o que a plataforma faz e o que ela não faz. Ela não é uma embarcação e não navega: é uma estrutura de aço que se apoia e progride sobre o trecho de cais já construído, carregando guindastes e equipamentos de cravação. A autonomia de que se fala aqui é em relação ao apoio náutico, não em relação ao comando humano, que continua inteiramente com a equipe em campo.
150 operários maranhenses e uma folha que vai dobrar
A obra é tocada por um consórcio formado por três empresas: Belov Engenharia, Edeconsil Construções e EXE Engenharia. Quando o Cantitravel começou a operar, em fevereiro de 2025, havia 150 trabalhadores no canteiro. O plano informado pela EMAP prevê dobrar esse contingente nas etapas seguintes, chegando a 300 pessoas empregadas.
O ponto que interessa à economia local está na composição desse time. Oitenta por cento da mão de obra da obra vem da própria região, segundo o dado divulgado pela administração portuária, o que significa que a maior parte dos operários maranhenses que erguem o berço mora perto do canteiro e gasta o salário no estado.
O peso disso vai além do canteiro. Em entrevista concedida em junho de 2026, a presidente da EMAP, Oquerlina Costa, afirmou que o setor portuário maranhense gera mais de 100 mil empregos diretos e indiretos e responde por cerca de 35% da arrecadação de ICMS do estado. Cada berço novo entra nessa conta como capacidade adicional de movimentar carga e, por consequência, de movimentar dinheiro.
R$ 289 milhões, 320 metros de cais e 18 metros de profundidade
O Berço 98 terá 320 metros de comprimento por 40 metros de largura, com profundidade de atracação de até 18 metros, o que permite receber embarcações de grande porte. O investimento é de R$ 289 milhões e a estrutura é voltada principalmente para cargas de granel sólido vegetal, categoria que inclui a soja, principal produto de exportação do porto.
A lista de sistemas embarcados no projeto mostra que não se trata apenas de concreto e estaca. O berço vai contar com trilhos para carregadores de navios, sistema de combate a incêndio, abastecimento de água e energia elétrica, infraestrutura para bunker, drenagem pluvial, tratamento de efluentes e sistemas de segurança, conforme o detalhamento divulgado pela EMAP.
Os números de retorno variam conforme o documento e o momento. Na assinatura da ordem de serviço, a projeção divulgada era de 110 navios atracados a mais por ano, 8,5 milhões de toneladas adicionais exportadas e incremento de cerca de 17% na receita anual do porto. Em comunicados mais recentes, a EMAP trabalha com mais de 8 milhões de toneladas anuais e elevação de aproximadamente 20% no faturamento. A diferença entre as estimativas é pequena, mas mostra que o número final só será conhecido com o berço operando.
A ordem de serviço assinada em 2024 e o dinheiro que saiu do próprio caixa
A obra saiu do papel em 21 de junho de 2024, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governador Carlos Brandão e o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, assinaram a ordem de serviço em solenidade na Avenida Litorânea, em São Luís. No mesmo evento foi assinada a portaria que viabilizou a renovação do convênio de delegação do porto ao Estado do Maranhão por mais 25 anos, renovação confirmada posteriormente pelo governo federal.
Há um detalhe financeiro que costuma passar batido nas coberturas e que muda o significado da obra. O Berço 98 está sendo construído com recursos próprios da EMAP, e não com verba de terceiros. “Pela primeira vez na história da Emap, estamos construindo um berço com recursos próprios”, afirmou Oquerlina Costa, que classificou o movimento como sinal da maturidade financeira alcançada pela empresa.
Isso coloca os operários maranhenses do canteiro dentro de um arranjo diferente do habitual em infraestrutura no país: quem paga a conta é a própria administradora do porto, que reinveste o resultado da operação em capacidade nova em vez de esperar repasse.
A obra hoje: 84% executada e entrega prevista para outubro
O estágio atual é bem diferente daquele de fevereiro de 2025. Em junho de 2026, a EMAP informou que o Berço 98 estava com aproximadamente 84% dos serviços concluídos, e a presidente da empresa confirmou a expectativa de conclusão para outubro, com efeito sobre a movimentação anual de cargas a partir de 2027.
O planejamento já olha para o passo seguinte. Segundo Oquerlina Costa, existe previsibilidade para dar andamento às obras do Berço 97, e o complexo ainda dispõe de espaço físico para construir pelo menos mais cinco berços, além de novos terminais de granéis. O Cantitravel que hoje avança sobre o Berço 98 não deve ser aposentado tão cedo.
Um detalhe temporal ajuda a dimensionar o prazo. Entre a ordem de serviço, em junho de 2024, e a entrega prevista, em outubro de 2026, são pouco mais de dois anos de obra, dentro da faixa que a própria equipe do porto aponta como padrão para esse tipo de estrutura, de dois a três anos até a entrada efetiva em operação.
Por que o Itaqui precisa de mais um berço
A pressão por capacidade não é teórica. Em 2025, o Porto do Itaqui encerrou o ano com 36.840.941 toneladas movimentadas, o maior volume de sua história, com alta de 17% na soja, 14% nos fertilizantes e 61% no carvão. O complexo se consolidou como o maior porto público do Arco Norte e o quarto maior do Brasil.
Em 2026 o ritmo seguiu firme. Em maio, o porto movimentou 2,76 milhões de toneladas de granéis sólidos, o maior volume mensal já registrado, sendo 2,18 milhões só de soja, novo recorde para o produto. No acumulado do ano até aquele mês, o Itaqui somava 13,37 milhões de toneladas.
O salto de médio prazo explica o resto. A movimentação de grãos passou de 11,55 milhões de toneladas em 2021 para 20,14 milhões em 2025, crescimento de cerca de 74% em quatro anos, puxado pela produção do Matopiba e do Centro Oeste. Sem cais novo, esse volume vira fila de navio, e fila de navio vira custo repassado ao produtor. É esse gargalo que os operários maranhenses estão cravando estaca por estaca dentro do mar.
O que vem depois da última estaca
Uma plataforma de aço que anda sobre o próprio cais em construção, dois guindastes de 200 toneladas cada, uma baía de correnteza forte e maré grande, e um canteiro que deve chegar a 300 pessoas. O Berço 98 é, ao mesmo tempo, uma obra de engenharia pouco comum no Brasil e uma aposta financeira da EMAP com dinheiro do próprio caixa, executada por operários maranhenses em sua maioria contratados na região.
E você, o que acha dessa aposta? Investir R$ 289 milhões em mais um berço para soja fortalece de verdade a economia do Maranhão ou concentra ainda mais o estado em exportar matéria-prima? Obra portuária com 80% de mão de obra local muda a vida da cidade ou o emprego acaba junto com o canteiro? Comente sua opinião, principalmente se você trabalha no porto, na construção ou depende do escoamento da safra.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

