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Aos 87 anos, um canadense ainda dava partida na manivela do mesmo Ford Model T que comprou por 47,50 dólares em 1949, a mesma picape por 70 anos
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 27/07/2026 às 19:48
Atualizado em 27/07/2026 às 19:51
Curiosidades
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O caminhão é mais velho que o dono. Ele juntou o dinheiro trabalhando em posto de gasolina por dez centavos a hora, entrou em um leilão aos 17 e saiu com o veículo por engano, ao dar um lance que nem pretendia dar.
Randall Pitman, morador de South Ohio, na província canadense da Nova Escócia, comprou um Ford Model T de 1927 em um leilão em 1949, quando tinha 17 anos, pelo valor de 47,50 dólares. Em julho de 2019, quando completou 70 anos de posse do mesmo veículo, ele tinha 87 anos e ainda dirigia o caminhão, segundo reportagem de Laura Fraser publicada pela emissora pública canadense CBC.
O veículo é mais velho do que o proprietário, e ambos seguiam em atividade. O motor ainda pegava com três giros de manivela em um par de mãos experientes, sem chave, sem botão e sem partida elétrica. Naquele fim de semana, homem e máquina fariam mais de 600 quilômetros até uma exposição de veículos antigos em Crapaud, na Ilha do Príncipe Eduardo.
O lance de 47,50 que saiu sem querer
A compra tem uma história que ele conta rindo até hoje, e ela envolve um erro de cálculo no calor do momento.
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Pitman sabia que o caminhão iria a leilão e apareceu na casa de leilões em 1949 com as economias no bolso e uma determinação silenciosa. Ofereceu 45 dólares, e o leiloeiro fez o que todo leiloeiro faz: ficou repetindo o valor e perguntando quem daria 50.
Foi aí que a boca falou antes da conta. Segundo o próprio relato dele, disse burramente quarenta e sete e cinquenta, e ouviu na sequência a palavra vendido. Um lance intermediário improvisado fechou negócio por um veículo que ele guardaria pelas sete décadas seguintes.
Dez centavos por hora até juntar 50 dólares
O dinheiro daquele lance não caiu do céu. Aos 17 anos, Pitman trabalhava meio período em um posto de gasolina, abastecendo carros por dez centavos a hora, até acumular 50 dólares.
A conta simples dá a dimensão do esforço. Cinquenta dólares a dez centavos por hora significam 500 horas de trabalho, o equivalente a mais de doze semanas de expediente integral apenas para juntar o suficiente para arrematar um caminhão de 22 anos de idade.
Isso ajuda a entender por que ele nunca se desfez do veículo. Não era um objeto herdado nem um presente: era o resultado direto de meses de trabalho de um adolescente, e é esse tipo de aquisição que costuma criar vínculo duradouro.
Três giros de manivela e o motor pega
A partida do Ford Model T é o detalhe que mais chama atenção de quem cresceu apertando botão. Não existe chave nem motor de arranque nesse arranjo: há uma manivela na frente do veículo que precisa ser girada à mão para o motor entrar em funcionamento.
No caso dele, bastam três giros. A reportagem registra que as lembranças de Pitman sobre a história do veículo mal podiam ser ouvidas por causa do ronco do motor, que ganhava vida com aquelas três voltas de manivela.
Vale um alerta histórico sobre esse gesto aparentemente simples. Dar partida na manivela sempre foi operação delicada, porque o motor pode coicear e girar a manivela no sentido contrário, e isso já quebrou muitos punhos e antebraços na primeira metade do século 20. Três giros e o motor pegando é sinal de máquina bem regulada e de mão que conhece o serviço, não de sorte.
Como se dirige um veículo desse tipo
Quem entra em um Ford Model T pela primeira vez não consegue sair do lugar, e o motivo é que praticamente nada está onde se espera.
O carro usa transmissão planetária com três pedais, e nenhum deles é acelerador. O pedal da esquerda controla as marchas, o do meio engata a ré e o da direita é o freio. A aceleração fica em uma alavanca junto ao volante, acionada com os dedos, e ao lado dela costuma haver o comando de avanço da ignição, que precisa ser ajustado conforme o regime do motor.
A reportagem capta exatamente esse gesto. Descreve os dedos de Pitman se curvando em torno do acelerador enquanto o veículo ganha velocidade, em uma manobra suave que demonstra a fusão criada entre homem e máquina depois de sete décadas ao volante. Não é figura de linguagem: é o resultado de décadas repetindo uma coreografia de comandos que praticamente ninguém mais executa.
Braço para fora da janela, porque a seta não existia
Outro detalhe da rotina revela a idade do veículo melhor do que qualquer número. A cada curva na estrada, Pitman estende o braço na direção para onde vai virar.
O motivo é simples e não tem nada de estilo. O veículo circulou pelas ruas antes de as luzes indicadoras de direção se tornarem comuns nos automóveis, e a sinalização manual era o padrão da época. Ele nunca deixou de fazer assim.
Existe uma camada curiosa nisso. O gesto que hoje parece pitoresco era, na época em que o caminhão saiu de fábrica, o único jeito legal e seguro de avisar os outros motoristas. Setenta anos depois, quem dirige atrás dele provavelmente precisa de um instante para entender o que está acontecendo.
Freio funciona, cinto não existe, e o ar-condicionado é outro
Perguntado sobre os freios, Pitman ri e garante que funcionam. Sobre cinto de segurança, a resposta é bem menos animadora, porque simplesmente não há.
Isso não é descuido do proprietário. Cintos de segurança não faziam parte dos automóveis nos anos 1920 e só se tornariam equipamento comum décadas depois, então um veículo original daquele período não tem onde prendê los.
O melhor momento da entrevista é a demonstração do sistema de climatização. Ele abre um sorriso, abaixa os vidros e escancara o para-brisa, que no Ford Model T é articulado e pode ser aberto para a frente. É esse o ar-condicionado disponível a bordo, e ele funciona muito bem em julho na Nova Escócia.
O segundo exemplar e sete anos de restauração
O caminhão não é o único veículo antigo na garagem. Carros antigos ocupam boa parte do tempo dele.
Na década de 1960, Pitman comprou outro Ford Model T de 1927, dessa vez um cupê, e vinha restaurando o segundo exemplar em paralelo ao caminhão nos sete anos anteriores à reportagem. Dois carros do mesmo ano de fabricação, adquiridos com quase duas décadas de diferença.
Sobre a quilometragem acumulada, ele admitia não ter certeza de quantos quilômetros havia rodado com cada um. O que afirmava com confiança era outra coisa: que todos continuariam rodando.
Os 600 quilômetros até a Ilha do Príncipe Eduardo
O destino daquele fim de semana era uma exposição de caminhões antigos em Crapaud, na Ilha do Príncipe Eduardo, evento com expectativa de atrair centenas de veículos e admiradores.
O percurso passa de 600 quilômetros a partir de South Ohio. Naquela edição, o caminhão viajaria em cima de uma carreta, mas a reportagem registra que Pitman já havia dirigido o veículo por toda essa distância em anos anteriores, o que para um automóvel de 1927 não é pouca coisa.
Ele também não teme pane na estrada, e por bons motivos. Encontra peças de reposição e conserta o veículo sozinho se aparecer problema no caminho. A ressalva que faz é econômica, não técnica: peça nova para caminhão antigo não sai barato.
Por que esses carros ainda rodam depois de um século
O modelo tem um histórico industrial que explica em parte a sobrevivência de tantos exemplares. O Ford Model T foi produzido entre 1908 e 1927, com mais de 15 milhões de unidades fabricadas, número que o manteve por décadas entre os automóveis mais produzidos da história.
O volume gigantesco resolveu o problema que mata a maioria dos carros antigos, que é a falta de peça. Existe até hoje um mercado ativo de componentes de reposição para o modelo, alimentado por fabricantes especializados e por exemplares desmontados, o que permite manter um veículo centenário em circulação.
A simplicidade mecânica completa a explicação. Um motor de quatro cilindros sem eletrônica, transmissão planetária e sistemas elementares formam um conjunto que uma pessoa com ferramenta comum e conhecimento acumulado consegue diagnosticar e reparar em casa. É exatamente o perfil de quem manteve o mesmo veículo por 70 anos.
O que sobra dessa história
Um lance improvisado em 1949, 500 horas de trabalho em posto de gasolina, três giros de manivela, o braço para fora da janela a cada curva e um para-brisa que abre no lugar do ar-condicionado. A relação entre Randall Pitman e o Ford Model T dele é o oposto exato do modelo de consumo que trocou o conserto pela substituição.
E você, o que acha disso? Manter o mesmo veículo por 70 anos é teimosia ou é a atitude mais sensata possível diante de carros que hoje duram cada vez menos? Você aprenderia a dirigir um carro com três pedais em que nenhum deles é acelerador, ou desistiria na primeira tentativa? E mais: tem algum objeto na sua casa que você usa há décadas e não troca por nada? Conte nos comentários, principalmente se você é mecânico ou colecionador e sabe o trabalho que dá manter um centenário na rua.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

