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Vizinho do Brasil aprovou salário mínimo equivalente a cerca de R$ 3.335 e lidera a América do Sul, enquanto o trabalhador brasileiro recebe R$ 1.621, mesmo com ganho real acima da inflação em 2026
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 27/07/2026 às 22:51
Atualizado em 27/07/2026 às 23:01
Economia
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Os dois países reajustaram o piso no mesmo período e por decreto assinado na mesma semana de dezembro. O uruguaio subiu em duas etapas e chegou a 630 dólares em julho. O brasileiro subiu de uma vez e ficou perto de 295 dólares.
O Uruguai aplicou em 1º de julho de 2026 a segunda etapa do reajuste do salário mínimo nacional, que passou de 24.572 para 25.383 pesos uruguaios, algo em torno de 630 dólares mensais. O aumento foi de 3,3% e completa uma elevação total de 7,54% no ano, definida pelo Decreto N° 319/025, promulgado em 26 de dezembro de 2025 e assinado pelo presidente Yamandú Orsi.
No Brasil, o piso nacional está em R$ 1.621 desde 1º de janeiro de 2026, conforme o Decreto nº 12.797, publicado no Diário Oficial da União em 24 de dezembro de 2025. O valor representa alta de 6,79% sobre os R$ 1.518 vigentes em 2025, o equivalente a R$ 103 a mais por mês. O reajuste ficou acima da inflação do período e garantiu ganho real de aproximadamente 2,5%, o teto permitido pela regra fiscal em vigor.
O que o Uruguai aprovou, e quando
A decisão uruguaia não foi tomada agora. Ela consta de decreto assinado ainda em dezembro de 2025, com aplicação dividida ao longo de 2026.
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O texto do decreto estabelece um aumento total anual de 7,54%, concedido em duas etapas: a primeira de 4,1% a partir de 1º de janeiro, elevando o piso a 24.572 pesos, e a segunda de 3,3% a partir de 1º de julho, chegando a 25.383 pesos.
O decreto também fixa as fórmulas de cálculo por jornada. O valor diário sai da divisão do mensal por 25, resultando em 1.015,32 pesos, e o valor por hora vem da divisão por 200, chegando a 126,92 pesos.
O mecanismo de definição é diferente do brasileiro. No Uruguai, o Poder Executivo fixa o valor por decreto, mas no âmbito de negociações tripartites entre governo, empresários e trabalhadores, e a fiscalização do cumprimento cabe ao Ministério do Trabalho e Seguridade Social por meio da Inspeção Geral do Trabalho.
O que o Brasil aprovou, e quando
O decreto brasileiro saiu praticamente na mesma semana, e a coincidência de calendário facilita a comparação.
Assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicado em 24 de dezembro de 2025, o Decreto nº 12.797 fixou o salário mínimo em R$ 1.621 a partir de 1º de janeiro de 2026. O valor diário correspondente é de R$ 54,04 e o valor por hora, de R$ 7,37.
A conta que levou a esse número tem componentes públicos. O reajuste combina o INPC acumulado em doze meses até novembro do ano anterior, que ficou em 4,18%, com o crescimento do Produto Interno Bruto de dois anos antes. O IBGE revisou em 4 de dezembro os dados de 2024 e confirmou expansão de 3,4%.
Aqui entra a trava fiscal. O arcabouço aprovado em 2024 limita o ganho acima da inflação a um intervalo entre 0,6% e 2,5% ao ano. Com o teto aplicado, a fórmula resultou em R$ 1.620,99, arredondado por lei para R$ 1.621. Sem esse limite, o valor teria sido maior.
O dado que contradiz a versão mais divulgada
Circula bastante a ideia de que o trabalhador brasileiro perdeu poder de compra em 2026. Os números oficiais mostram o contrário no caso específico do piso nacional.
O reajuste de 6,79% superou o INPC de 4,18% usado como referência, e a diferença corresponde justamente ao ganho real de cerca de 2,5%. Ou seja, quem recebe salário mínimo terminou o ajuste com mais capacidade de compra do que tinha antes, e não menos.
Vale registrar uma nuance importante para não cair no extremo oposto. Ganho real do piso não significa que o custo de vida individual de cada família tenha caído, porque o INPC é uma média nacional de uma cesta específica, e itens como aluguel, alimentação e transporte variam muito por região e por perfil de consumo. A afirmação correta é que o salário mínimo subiu acima do índice oficial de inflação em 2026, não que todo brasileiro esteja comprando mais.
Há também um contraponto que costuma ser esquecido. O teto do INSS foi reajustado em apenas 3,9% em 2026, indo para R$ 8.475,55. Na prática, quem recebe aposentadoria acima do piso teve reajuste menor do que quem recebe o mínimo.
A conta em dólar e por que ela muda toda hora
Comparar salário mínimo entre países exige converter moedas, e é aí que os números começam a divergir entre publicações.
Pelos valores divulgados na cobertura internacional, o piso uruguaio equivalia a cerca de 612 dólares em janeiro e passou a algo em torno de 630 dólares em julho. O piso brasileiro, na mesma referência, fica próximo de 295 dólares.
A conversão para reais é onde o número do título precisa de ressalva. O valor de R$ 3.335 corresponde aproximadamente ao piso uruguaio de janeiro, não ao de julho, e depende da cotação do dia em que a conta foi feita. Como as duas moedas flutuam contra o dólar de forma independente, esse número muda praticamente toda semana.
O leitor não precisa desconfiar da ordem de grandeza, que é sólida: o piso uruguaio equivale a algo em torno de duas vezes o brasileiro. O que não se sustenta é tratar qualquer conversão específica como valor fixo.
Os cuidados que uma comparação honesta exige
A afirmação de que o Uruguai lidera a América do Sul em salário mínimo aparece em diversas publicações e é plausível, mas comparações desse tipo dependem de método, e o método raramente é informado.
O primeiro problema é o câmbio. Converter salários pela taxa de mercado ignora que o custo de vida difere entre os países. Comparações feitas por paridade de poder de compra, que ajustam pelo que cada moeda realmente compra localmente, produzem rankings diferentes dos baseados em cotação simples.
O segundo é o que entra na conta. Alguns países pagam décimo terceiro, outros não, e há diferenças em contribuições, descontos e benefícios obrigatórios que alteram o valor líquido no bolso. Comparar apenas o nominal mensal deixa tudo isso de fora.
O terceiro é o alcance da regra. No Uruguai, a diretora nacional do Trabalho, Marcela Barrios, explicou que o salário mínimo funciona como referência, e que os conselhos de salários negociam por ramo de atividade aumentos acima desse piso. Ou seja, o mínimo nacional uruguaio não é o valor que a maior parte dos trabalhadores efetivamente recebe.
O peso do mínimo na economia brasileira
No Brasil, o piso tem alcance mais amplo do que a folha de pagamento do setor privado, e isso explica por que cada centavo de reajuste é discutido tanto.
O valor é referência para os ganhos de cerca de 60 milhões de brasileiros, segundo levantamento citado no Senado. Ele serve de piso para benefícios previdenciários e assistenciais, incluindo aposentadorias no valor mínimo e o Benefício de Prestação Continuada, e é base de cálculo para seguro-desemprego, adicional noturno e hora extra.
Também há efeitos que puxam em direções opostas. O aumento eleva a renda de trabalhadores e beneficiários e estimula o consumo interno, mas eleva simultaneamente o custo da folha para empregadores e a despesa obrigatória do orçamento público, o que costuma ser apontado como pressão sobre as contas.
Existe ainda a distinção entre três coisas que o público mistura. O salário mínimo é o valor nacional unificado, o salário regional é fixado por alguns estados em patamar superior, e o piso salarial é definido por categoria profissional em lei ou convenção coletiva. Um trabalhador pode ter direito a valor maior que o mínimo por qualquer dessas duas vias.
O que vem pela frente nos dois países
A regra brasileira já está definida por lei até o fim da década. Até 2030, o reajuste anual continuará somando o INPC dos doze meses anteriores ao crescimento do PIB de dois anos antes, sempre respeitando o limite de 2,5% de ganho real fixado pelo arcabouço fiscal.
No Uruguai, o próximo ajuste ainda não foi publicado. O decreto atual esgotou seus efeitos com a etapa de julho, e um novo texto precisará ser editado para valer a partir de 2027, dentro da mesma dinâmica de negociação tripartite.
Os dois governos apresentam o mesmo argumento para justificar suas políticas. O Executivo uruguaio destacou dados do instituto nacional de estatísticas segundo os quais o índice médio de salários subiu 1,29% acima da inflação entre maio de 2025 e maio de 2026. O governo brasileiro trabalha desde 2023 com a política de valorização do salário mínimo, criada por lei sancionada em agosto de 2023 e em vigor desde janeiro de 2024, com o mesmo objetivo declarado de assegurar ganhos reais.
O que a comparação realmente mostra
Dois decretos assinados na mesma semana de dezembro, dois pisos reajustados acima da inflação nos respectivos países e uma diferença nominal de aproximadamente duas vezes entre eles. A comparação entre o salário mínimo uruguaio e o brasileiro é legítima, mas rende conclusão bem menos simples do que os números soltos sugerem.
E você, o que acha desse cenário? Comparar salário mínimo entre países pela cotação do dólar faz sentido, ou só serve para gerar manchete, já que o custo de vida é completamente diferente em cada lugar? A trava de 2,5% de ganho real acima da inflação protege as contas públicas ou segura demais o bolso de quem recebe o piso? E mais: o modelo uruguaio de negociação por setor, com pisos acima do mínimo nacional, funcionaria aqui? Comente sua opinião, principalmente se você recebe o salário mínimo ou trabalha com folha de pagamento e sente o efeito desses reajustes na prática.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

