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Robô de apenas 23 quilos planta 60 sementes por minuto no fundo do mar e carrega 20 mil sementes numa bolsa de 20 litros para tentar recuperar as pradarias submarinas que o planeta perdeu
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 28/07/2026 às 00:12
Ciência e Tecnologia
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Ele pesa menos que uma criança de 6 anos, anda sobre esquis cor de rosa e injeta sementes no sedimento do fundo do mar. O robô Grasshopper foi criado para acelerar o replantio de pradarias marinhas, habitat que some a uma taxa de 7 por cento ao ano no mundo.
Um robô submarino de cerca de 23 quilos chamado Grasshopper vem sendo usado por uma empresa americana para replantar pradarias marinhas no fundo do oceano, em operações já realizadas na América do Norte, na Europa e no Sudeste Asiático. O equipamento é capaz de plantar até 60 sementes por minuto e de armazenar até 20 mil sementes em uma bolsa de 20 litros, segundo a reportagem publicada pela CNN em dezembro de 2024.
A máquina é operada pela ReefGen, empresa criada cinco anos antes daquela reportagem pelo cofundador do Google X, Tom Chi, e dirigida pelo biólogo marinho Chris Oakes. A missão é substituir parte do trabalho manual de mergulhadores que plantam semente por semente no leito marinho, um método que Oakes descreve como lento, pouco produtivo e arriscado para quem passa horas trabalhando no fundo do mar.
Um robô de 23 quilos com esquis cor de rosa
CNN
O Grasshopper não tem cara de equipamento científico pesado. Pesa cerca de 23 quilos, o equivalente a 50 libras, e circula sobre esquis pintados de rosa, além de carregar algumas câmeras e um conjunto de eletrônica embarcada. É pequeno o bastante para ser colocado no fundo do mar por uma pessoa a partir de um barco.
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O ritmo de trabalho é o que impressiona. Na configuração descrita pela CNN, o robô planta até 60 sementes por minuto e leva até 20 mil sementes de uma vez em uma bolsa de 20 litros acoplada à estrutura. É uma carga que um mergulhador levaria dias para distribuir manualmente no leito do oceano. O nome do equipamento, que significa gafanhoto em inglês, vem justamente do modo como ele se desloca no fundo do mar.
A mistura com consistência de massa de panqueca
O plantio começa fora d’água, na preparação da mistura. Nastasia Winey, engenheira de robótica da ReefGen, é quem prepara a solução de sementes que abastece o robô, e o ponto certo tem uma referência caseira: a consistência precisa lembrar massa de panqueca.
Essa lama com sementes é injetada diretamente no sedimento do fundo do mar através de uma calha de plantio. O robô libera cerca de quatro sementes por vez e então salta aproximadamente 30 centímetros até o ponto seguinte, movimento pensado para não revolver o ambiente ao redor mais do que o necessário. A lógica é simples: cada salto abre um novo ponto de plantio sem transformar o trecho inteiro em área revirada.
O robô ainda depende de um piloto humano
Apesar da automação, ninguém deixou o Grasshopper solto no oceano. O equipamento ainda não é totalmente autônomo e continua sendo pilotado por uma pessoa, que usa uma interface de controle a bordo de um barco enquanto acompanha o trabalho lá embaixo.
Há também uma dependência humana anterior ao robô. O equipamento segue uma linha de transecto, que é uma fita métrica longa esticada no fundo do mar por um mergulhador para servir de mapeamento e orientação. Ou seja, alguém precisa descer antes para preparar o caminho. Enquanto o robô planta, o trabalho de campo humano diminui, mas não desaparece. Segundo Oakes, o foco atual está no plantio, na biologia e na parte mecânica, e recursos semiautônomos de navegação só entram depois que a empresa tiver certeza de que o projeto está correto, o que dispensaria tanto o piloto quanto as linhas de transecto.
Os quatro Ds que explicam a troca do mergulhador pela máquina
A justificativa da empresa para automatizar o plantio cabe em uma sigla. Oakes trabalha com o conceito dos quatro Ds, que em inglês reúne tarefas monótonas, sujas, perigosas ou distantes. São exatamente as situações em que, na avaliação dele, o robô rende mais que o ser humano.
O plantio manual de ervas marinhas marca todos os quatro critérios. É repetitivo, acontece dentro do sedimento, expõe mergulhadores a longos períodos no fundo do mar e costuma ocorrer em locais de acesso difícil. Oakes faz questão de dizer que o plantio manual funciona, e o ponto não é substituir o mergulhador, e sim ganhar escala em um trabalho que a mão humana não consegue multiplicar na velocidade necessária.
Por que essas plantas importam tanto para o oceano
BORIS HORVAT/AFP via Getty Images
As pradarias marinhas estão entre os habitats costeiros mais espalhados do planeta e aparecem em fundos marinhos do Alasca à Austrália. Existem cerca de 72 espécies de ervas marinhas no mundo, e todas juntas cobrem apenas um milésimo do fundo do oceano, o equivalente a 0,1 por cento da área.
O peso ecológico do habitat que o robô tenta repovoar não combina com esse tamanho. Essas plantas funcionam como berçário para espécies marinhas e armazenam até 18 por cento do carbono do oceano, o que as coloca no centro das discussões sobre clima e vida marinha. Uma faixa mínima do leito do mar responde por quase um quinto do carbono oceânico. É por isso que a perda desses prados aparece em relatórios ambientais com peso desproporcional à área que ocupam.
18 milhões de hectares e a perda de 30 a 40 por cento
O tamanho do estrago tem números. Segundo Chris Oakes, o planeta já teve cerca de 18 milhões de hectares de pradarias marinhas e perdeu entre 30 e 40 por cento desse total. A destruição continua acontecendo, a uma taxa aproximada de 7 por cento ao ano em escala global.
É contra esse ritmo de perda que o robô foi desenhado. As causas são conhecidas e se acumulam: desenvolvimento costeiro, mudanças climáticas, sobrepesca e poluição. As consequências também estão mapeadas. Sem os prados, a previsão de Oakes é de mais erosão costeira, perda de recifes de coral, queda nos estoques de peixe e piora na qualidade da água. É um efeito dominó que começa embaixo d’água e termina na praia e no prato.
Do coral para as ervas marinhas: como a empresa chegou ao robô
CNN
A origem da ReefGen tem endereço. Tom Chi, cofundador do Google X, acompanhou o declínio dos recifes de coral perto de casa, no Havaí, e decidiu atacar o problema com engenharia e robótica. A empresa nasceu dessa inquietação cinco anos antes da reportagem da CNN, o que situa a fundação por volta de 2019.
O primeiro robô da casa não plantava sementes. Chamava se Cora e instalava plugs de coral nos recifes para ajudar na regeneração das estruturas. Foi a partir da Cora que nasceu o Grasshopper, versão voltada às ervas marinhas. Oakes credita a viabilidade do salto à queda de custo das peças: nas últimas duas décadas, componentes prontos ficaram acessíveis e permitiram que a robótica submarina entrasse em aplicações novas, como a restauração de habitat.
25 mil sementes no País de Gales e o teste que provou o conceito
O currículo de campo do robô já é razoável. Em julho de 2024, o Grasshopper plantou 25 mil sementes no País de Gales, operação que, pelo registro de atividades divulgado pela própria ReefGen, aconteceu no canal de Milford Haven. As máquinas da empresa já operaram na América do Norte, na Europa e no Sudeste Asiático.
O teste que sustenta o resto veio antes. O primeiro projeto piloto de ervas marinhas, feito em 2022, produziu a mesma qualidade e a mesma quantidade de plantas que a área de controle plantada manualmente por pessoas. Empatar com o mergulhador, nesse caso, é vitória, porque foi esse resultado que ajudou a estabelecer que o plantio mecanizado, em velocidade e escala, é viável. Oakes ressalva que resultados de restauração demoram a aparecer.
O experimento na Carolina do Norte que compara robô e mão humana
Em outubro de 2024, a ReefGen se uniu ao Instituto de Ciências Marinhas da Universidade da Carolina do Norte para estudos comparativos entre métodos de restauração baseados em sementes, incluindo o plantio robótico. A costa do estado abriga uma grande população de ervas marinhas em declínio lento e contínuo.
O problema local tem um nome técnico: fragmentação. Segundo o professor Joel Fodrie, diretor do instituto, muitos prados que eram áreas contínuas viraram manchas separadas, e o objetivo do trabalho é tentar reverter essa tendência. A equipe dele colheu sementes na primavera em locais doadores com excesso de plantas e as manteve em laboratório úmido até o outono, época em que germinam naturalmente e ficam prontas para o plantio. O robô plantou mil sementes em um quadrante de mil metros quadrados na ponta sul de Outer Banks, área que será comparada com trechos de controle plantados à mão pela equipe da universidade, na região de Morehead City.
O gargalo que nem o robô resolve sozinho
Fodrie aponta um ponto que costuma escapar da conversa sobre automação. Coletar as sementes e redistribuí las ainda depende de muita gente, e é nessa etapa que o processo trava quando se pensa em áreas maiores. Para ele, a capacidade de automatizar pode tornar o trabalho muito mais prático em escalas bem superiores às atuais.
Do lado da empresa, Oakes usa os estudos científicos para extrapolar dados, como a evolução da velocidade de plantio ao longo do tempo e o que precisa ser corrigido na expedição seguinte. É um ciclo de ajuste que depende tanto do robô quanto da ciência de campo. Sem os dados comparativos, o equipamento seria apenas uma máquina rápida, sem prova de que o que ela planta realmente pega.
Plantar é a parte fácil, manter é o problema
A empresa evita vender o robô como solução completa, e a ressalva vem do próprio Oakes. Restauração precisa ser tratada como processo contínuo, não como programa que se encerra depois de uma entrega, porque novos eventos vão continuar matando ervas marinhas. Monitorar e manter os prados restaurados é o que define se o esforço vira habitat permanente ou virou só um plantio bonito.
Para acompanhar as mudanças ao longo do tempo, a ReefGen firma parcerias com empresas que fornecem tecnologia de monitoramento, registro e validação em campo. E há um cuidado de discurso que Oakes faz questão de marcar: segundo ele, não adianta chegar com robôs caros e equipamento chamativo dizendo ter todas as respostas. O que está em jogo, na conta dele, é mais habitat para peixes, água mais limpa e mais empregos, e as comunidades locais são decisivas para que a erva marinha continue lá depois que a equipe for embora.
Você confiaria essa tarefa a um robô
O caso do Grasshopper coloca uma pergunta que vai além do oceano. Uma máquina de 23 quilos consegue fazer em minutos o que um mergulhador leva horas para executar, com menos risco humano e mais alcance, mas ainda depende de gente para pilotar, para esticar a linha no fundo do mar, para colher a semente e para cuidar do prado depois.
Agora queremos saber o que você pensa. Restaurar natureza com robô é avanço necessário diante da velocidade da destruição, ou existe risco de a tecnologia virar desculpa para continuar destruindo, já que sempre haverá uma máquina para replantar depois? E aqui no Brasil, com nossa costa e nossos manguezais, você acha que valeria investir em equipamentos assim? Comenta aqui embaixo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

