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A mega infestação de lebres europeias já avança cerca de 45 km por ano no Brasil, invade mais de 100 localidades, destrói lavouras de soja, milho, feijão e pomares, enquanto produtores enfrentam um obstáculo inesperado que pode tornar essa praga ainda mais difícil de controlar do que o javali
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 30/07/2026 às 23:39
Agronegócio
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A expansão silenciosa da lebre-europeia preocupa produtores rurais e pesquisadores por causar prejuízos crescentes às lavouras brasileiras, avançar rapidamente por diferentes estados e ainda não contar com uma política nacional de controle semelhante à adotada para o javali.
Uma espécie invasora que parece inofensiva à primeira vista está chamando cada vez mais a atenção de agricultores, pesquisadores e autoridades ambientais no Brasil. Conhecida popularmente como lebrão, a lebre-europeia (Lepus europaeus) deixou de ser apenas um animal exótico para se transformar em uma preocupação crescente no campo. Segundo reportagem publicada pela BBC Brasil, com base em levantamento científico sobre a expansão da espécie no país, a lebre-europeia já foi registrada em mais de 100 localidades brasileiras e sua área de distribuição continua avançando a uma velocidade estimada de cerca de 45 quilômetros por ano.
O problema vai além da rápida expansão territorial. Embora provoque prejuízos importantes à agricultura, a lebre-europeia ainda não possui uma regulamentação nacional específica que permita um controle amplo, como ocorre com o javali. Dessa forma, milhares de produtores rurais convivem diariamente com danos nas plantações enquanto enfrentam limitações legais para conter o avanço do animal.
Originária da Europa e de partes da Ásia, a lebre encontrou nas paisagens agrícolas brasileiras um ambiente praticamente ideal para sobreviver, reproduzir-se e ampliar sua presença em diferentes regiões do país.
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Como a lebre-europeia chegou ao Brasil e por que sua expansão preocupa especialistas
A história da invasão começou muito antes de a espécie cruzar as fronteiras brasileiras.
Em 1888, dezenas de lebres trazidas da Alemanha foram soltas na província de Santa Fé, na Argentina, com o objetivo de criar populações destinadas à caça esportiva. Posteriormente, outras introduções ocorreram em diferentes regiões da Argentina e também no Chile.
O resultado foi muito diferente do esperado.
Encontrando extensas áreas abertas, alimento abundante e praticamente nenhum obstáculo natural capaz de conter seu crescimento, a espécie iniciou uma das maiores expansões já registradas entre mamíferos introduzidos na América do Sul.
Ao longo das décadas, as lebres ocuparam praticamente toda a Argentina e avançaram naturalmente para o Uruguai, Chile, Paraguai e Bolívia. Depois disso, atravessaram as fronteiras brasileiras sem que fosse necessária qualquer soltura oficial em território nacional.
Os primeiros registros ocorreram no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Em seguida, a espécie expandiu sua distribuição para o Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás e diversas áreas do Centro-Oeste e do Sudeste.
Levantamentos científicos estimam que essa expansão territorial ocorre a aproximadamente 45 quilômetros por ano. Isso não significa que um único animal percorra essa distância anualmente, mas demonstra a velocidade com que novas populações conseguem ocupar áreas agrícolas.
Um animal extremamente adaptado ao ambiente agrícola brasileiro
Apesar da aparência semelhante à de um coelho grande, a lebre-europeia apresenta características que favorecem sua sobrevivência.
Seu corpo é mais alongado, as pernas traseiras são bastante desenvolvidas e as orelhas são grandes, facilitando a identificação da espécie. Um adulto pode ultrapassar 5 quilos e atingir velocidades próximas de 60 km/h, tornando-se um dos mamíferos terrestres mais rápidos encontrados em áreas rurais brasileiras.
Ao contrário dos coelhos, que normalmente vivem em tocas, a lebre prefere descansar em pequenas depressões naturais do solo, protegida por vegetação rasteira, capim ou restos de palha deixados após a colheita.
Sua principal estratégia de defesa é justamente a velocidade.
Ao perceber qualquer ameaça, dispara em linha reta e muda de direção diversas vezes em alta velocidade, dificultando a ação de predadores.
Essas características permitiram uma adaptação extremamente eficiente às grandes áreas agrícolas brasileiras.
Lavouras de soja, milho, feijão, trigo, além de pastagens, hortas e pomares, oferecem alimento praticamente durante todo o ano e ainda proporcionam excelentes esconderijos entre as plantações.
Os prejuízos nas lavouras podem ser significativos
Os danos costumam ocorrer principalmente durante a noite.
Em muitos casos, o agricultor encerra o expediente observando uma plantação aparentemente saudável. Porém, na manhã seguinte, encontra fileiras inteiras de plantas cortadas, arrancadas ou parcialmente consumidas.
Nas culturas anuais, a lebre alimenta-se principalmente de brotos jovens de soja, milho, feijão e trigo, reduzindo o potencial produtivo logo nas fases iniciais do desenvolvimento das plantas.
Em hortas, o animal pode consumir alface, couve, cenoura e diversas outras hortaliças.
Nos pomares, entretanto, o problema costuma ser ainda mais grave.
Além de roer brotos e galhos, a espécie pode retirar a casca do tronco de árvores jovens. Quando esse anel de casca é removido ao redor da planta, ocorre a interrupção da circulação da seiva, provocando a morte da muda.
Nessas situações, muitas vezes não existe possibilidade de recuperação, obrigando o produtor a remover completamente a planta e realizar um novo plantio.
Outro fator que aumenta a preocupação dos agricultores é a elevada capacidade reprodutiva da espécie.
A gestação dura pouco mais de um mês e uma única fêmea pode gerar várias ninhadas ao longo de uma mesma temporada favorável.
Além disso, diferentemente dos coelhos, os filhotes já nascem cobertos por pelos, com os olhos abertos e capazes de caminhar pouco tempo após o nascimento, aumentando significativamente suas chances de sobrevivência.
É importante destacar que algumas reportagens divulgaram que a lebre seria responsável por quase R$ 15 bilhões em prejuízos anuais no Brasil. Entretanto, esse valor corresponde, na realidade, ao impacto econômico conjunto provocado por diferentes espécies exóticas invasoras presentes no país, e não exclusivamente pela lebre-europeia.
Barreiras físicas nem sempre resolvem o problema
Diversos produtores já tentaram reduzir os prejuízos utilizando métodos alternativos.
Entre eles estão luzes automáticas, equipamentos sonoros, espantalhos, repelentes e até cercas elétricas.
Embora algumas dessas estratégias apresentem resultados temporários, especialistas observam que as lebres costumam se adaptar rapidamente às mudanças no ambiente, reduzindo a eficiência desses métodos após algum tempo.
Telas metálicas resistentes, enterradas parcialmente no solo e instaladas com altura adequada, conseguem proteger pequenas hortas, viveiros e pomares recém-implantados.
Por outro lado, aplicar esse tipo de proteção em centenas ou milhares de hectares torna-se economicamente inviável para a maioria das propriedades rurais.
É justamente nesse cenário que surge uma das maiores preocupações envolvendo a espécie.
Por que a lebre não pode ser controlada da mesma forma que o javali?
Assista o vídeo
Embora tanto o javali quanto a lebre-europeia sejam classificados como espécies exóticas invasoras, existe uma diferença importante entre elas.
O javali possui regulamentação federal específica que permite seu controle por pessoas cadastradas, desde que sejam cumpridas todas as exigências ambientais e de segurança previstas pelos órgãos competentes.
Já a lebre-europeia não possui uma autorização nacional equivalente.
Na prática, isso significa que o simples fato de o animal ser invasor não autoriza automaticamente sua caça ou abate.
Qualquer medida de controle letal depende de autorização do órgão ambiental competente, normalmente acompanhada da apresentação de estudos técnicos, comprovação dos danos ou planos específicos de manejo.
Sem essa autorização, o abate pode resultar em multas e responsabilização ambiental.
Essa situação cria um impasse para muitos produtores rurais.
Enquanto a espécie continua avançando e provocando prejuízos econômicos, as alternativas disponíveis permanecem limitadas, burocráticas ou financeiramente inviáveis.
Por esse motivo, pesquisadores e representantes do setor agropecuário defendem a criação de uma política nacional específica para a lebre-europeia.
A proposta inclui monitoramento permanente da expansão da espécie, levantamento detalhado dos prejuízos econômicos, orientação técnica aos agricultores e desenvolvimento de métodos de controle baseados em evidências científicas.
Caso nenhuma medida coordenada seja adotada, especialistas alertam que o lebrão poderá ampliar ainda mais sua distribuição pelo território nacional.
Ao contrário do javali, que costuma deixar rastros evidentes, revolver o solo e circular em grupos, a lebre age quase sempre durante a noite, vive sozinha ou em pequenos grupos e frequentemente passa despercebida até que os danos nas lavouras se tornem visíveis.
Essa combinação entre reprodução eficiente, alta velocidade, capacidade de adaptação e expansão contínua faz com que a espécie seja vista hoje como um dos principais desafios envolvendo animais invasores na agricultura brasileira.
Na sua opinião, o Brasil deveria criar uma política nacional específica para controlar a lebre-europeia antes que ela se espalhe ainda mais?
Fonte
BBC
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

