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Engenheiros criam soluções dentro de fábricas, mas deixam invenções desprotegidas e Brasil perde espaço na corrida mundial por patentes
Escrito por Corporativo
Publicado em 31/07/2026 às 12:41
Ciência e Tecnologia
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Ideias capazes de reduzir custos, melhorar equipamentos e abrir novos mercados frequentemente são aplicadas sem proteção, enquanto países asiáticos transformam propriedade industrial em vantagem econômica
Todos os dias, profissionais brasileiros desenvolvem adaptações, equipamentos, processos industriais e sistemas capazes de solucionar problemas técnicos.
Contudo, muitas dessas criações nunca deixam o ambiente onde surgiram. Elas resolvem uma dificuldade imediata, reduzem custos ou aumentam a produtividade, mas não recebem proteção intelectual.
Como resultado, ideias com potencial comercial permanecem engavetadas, podem ser copiadas ou acabam perdendo valor antes mesmo de chegar ao mercado.
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O problema ganha importância diante do avanço mundial dos registros de propriedade industrial. Em 2024, inventores e empresas depositaram aproximadamente 3,7 milhões de pedidos de patente em todo o planeta.
O número cresceu 4,9% em relação ao ano anterior e representou a maior expansão anual desde 2018, segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual.
Brasil possui profissionais criativos, mas ainda protege poucas invenções
A capacidade de adaptação aparece como uma das características mais presentes na indústria brasileira.
Quando faltam peças, equipamentos ou recursos, engenheiros, técnicos e operadores frequentemente encontram soluções próprias para manter máquinas funcionando e melhorar processos.
Entretanto, a invenção costuma ser tratada apenas como uma resposta operacional. Poucas empresas avaliam se aquela melhoria apresenta novidade, aplicação industrial e possibilidade de proteção.
Esses três elementos fazem parte dos requisitos considerados no pedido de patente de uma nova tecnologia, seja ela relacionada a um produto ou processo.
Após o depósito, o pedido permanece normalmente sob sigilo durante 18 meses. Caso o INPI conceda a patente de invenção, a proteção pode durar 20 anos contados a partir da data do depósito.
A patente permite impedir que terceiros produzam, utilizem, vendam ou importem a tecnologia protegida sem autorização. O titular também pode licenciar a criação e receber remuneração pelo uso.
Portanto, patentear não representa apenas uma formalidade jurídica. A proteção pode transformar conhecimento técnico em patrimônio, receita e vantagem competitiva.
Engenheiro catarinense transformou ideias engavetadas em 14 pedidos de patente
A trajetória do engenheiro Gustavo Gerloff, de Joinville, ajuda a demonstrar como profissionais experientes podem demorar anos para reconhecer o potencial comercial de suas próprias criações.
Gerloff acumulava mais de duas décadas no desenvolvimento de produtos e processos para diferentes segmentos industriais. Apesar da experiência, muitas ideias permaneceram sem proteção porque ele considerava algumas propostas difíceis de executar.
A mudança ocorreu depois que o engenheiro venceu, em 2024, um desafio sul-americano de inovação de produto relacionado à inteligência artificial.
Entre janeiro de 2025 e junho de 2026, ele depositou 14 pedidos de patente. Nove foram encaminhados ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial, enquanto cinco seguiram para o escritório responsável pelo sistema de patentes dos Estados Unidos.
As tecnologias abrangem áreas como microgeração de energia, setor automotivo, segurança pública e defesa. Como os pedidos ainda estão no período legal de sigilo, os detalhes técnicos não foram divulgados.
Dois projetos também ingressaram na modalidade de tecnologias verdes do INPI. O programa prioriza a análise de pedidos relacionados a soluções capazes de contribuir com objetivos ambientais e climáticos.
O caso não representa apenas uma sequência incomum de depósitos. Ele mostra como uma mudança de estratégia pode transformar ideias isoladas em ativos negociáveis.
Das 14 tecnologias, nove avançaram para etapas de desenvolvimento com parceiros. As outras cinco permanecem em negociação, segundo as informações apresentadas pelo engenheiro.
Ambiente colaborativo pode impedir que boas ideias desapareçam
Embora o inventor tenha papel central, uma tecnologia dificilmente chega ao mercado apenas com conhecimento técnico.
O processo também exige pesquisa, documentação, avaliação comercial, busca por soluções semelhantes e participação de profissionais de diferentes áreas.
Antes de depositar o pedido, por exemplo, o responsável pode consultar gratuitamente bases de patentes brasileiras e internacionais. A pesquisa ajuda a identificar tecnologias anteriores e reduz o risco de investir em algo que já foi protegido.
Além disso, departamentos de engenharia, produção, jurídico, marketing e finanças precisam atuar de forma integrada. Dessa maneira, a empresa consegue analisar não apenas o funcionamento da invenção, mas também sua viabilidade econômica.
Gerloff atribui parte da própria mudança à construção de um ambiente colaborativo. Para o engenheiro, ideias ganham força quando deixam de depender exclusivamente do inventor e recebem contribuições de diferentes especialidades.
Esse modelo contrasta com a realidade de muitas empresas, nas quais melhorias técnicas permanecem restritas ao funcionário ou setor que as desenvolveu.
Sem um processo interno para registrar, avaliar e encaminhar essas propostas, o conhecimento pode desaparecer quando o profissional muda de função ou deixa a organização.
Santa Catarina ocupa posição de destaque no cenário nacional de inovação
A localização do engenheiro também contribui para o desenvolvimento de novos projetos.
Santa Catarina ficou na segunda posição do Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento de 2025, atrás apenas de São Paulo. O Paraná apareceu em terceiro lugar, enquanto o Rio de Janeiro ocupou a quarta colocação.
O resultado considera diferentes fatores ligados à inovação, incluindo estrutura produtiva, conhecimento, tecnologia e capacidade de transformar recursos em resultados.
Apesar do ambiente favorável, a existência de universidades, indústrias e profissionais qualificados não garante que as invenções sejam protegidas.
Sem conhecimento sobre propriedade industrial, até mesmo soluções desenvolvidas em regiões industriais podem permanecer invisíveis para investidores e empresas interessadas em licenciamento.
Proteção aumenta segurança para empresas, parceiros e investidores
Uma tecnologia protegida oferece condições mais claras para negociações comerciais.
Empresas podem licenciar a invenção, criar novos produtos, buscar parceiros ou impedir que concorrentes explorem a mesma solução sem autorização.
A proteção também ajuda investidores a compreender quem controla a tecnologia e quais direitos estão envolvidos no projeto.
No caso das tecnologias verdes, o próprio INPI já destacou que a patente pode reforçar o caráter inovador da solução, aumentar a segurança para investidores e facilitar sua expansão comercial.
Esse fator se torna especialmente relevante em mercados como energia, mobilidade, automação, defesa e segurança pública, nos quais o desenvolvimento exige testes, certificações e investimentos elevados.
Sem alguma forma de proteção, uma empresa pode evitar financiar o projeto por receio de que concorrentes reproduzam a solução após sua apresentação.
Brasil precisa transformar criatividade industrial em ativos protegidos
O crescimento mundial dos depósitos mostra que países e empresas estão tratando a propriedade industrial como parte de suas estratégias econômicas.
Em 2024, inventores e organizações da China apresentaram aproximadamente 1,8 milhão de pedidos de patente em diferentes mercados. Estados Unidos e Japão apareceram em seguida, com cerca de 501 mil e 419 mil pedidos, respectivamente.
O Brasil possui profissionais capazes de desenvolver soluções para problemas industriais complexos. Contudo, precisa criar mecanismos para identificar, avaliar e proteger esse conhecimento.
Programas internos de inovação, participação de universidades, apoio jurídico e treinamento sobre patentes podem reduzir a distância entre inventar e transformar uma ideia em negócio.
A trajetória de Gustavo Gerloff demonstra essa possibilidade. Durante anos, o engenheiro desenvolveu soluções sem considerar que elas poderiam integrar uma estratégia de propriedade industrial.
Quando rompeu essa barreira, acumulou 14 pedidos em apenas 18 meses e começou a negociar projetos com parceiros de diferentes mercados.
O exemplo sugere que o maior patrimônio tecnológico brasileiro talvez não esteja apenas nos laboratórios. Parte dele pode permanecer escondida em fábricas, oficinas e escritórios, aguardando que alguém reconheça seu valor.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Corporativo.

