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Pescadores fisgaram um tubarão de quase dois metros com pele laranja e olhos brancos, a internet gritou montagem, e a ciência confirmou o primeiro caso registrado de albino xantocromismo em tubarão lixa
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 01/08/2026 às 08:18
Ciência e Tecnologia
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O animal foi capturado em 11 de agosto de 2024 no Parque Nacional Tortuguero, na Costa Rica. As fotos viralizaram e foram acusadas de manipulação, até que pesquisadores analisaram o registro e publicaram o caso um ano depois em revista científica internacional.
O tubarão de pele alaranjada e olhos brancos foi fisgado por pescadores em 11 de agosto de 2024, nas águas do Parque Nacional Tortuguero, na Costa Rica, conforme reportagem publicada pelo portal ND Mais, assinada pelo repórter Gabriel Bueno. O exemplar tinha quase dois metros de comprimento, e as fotografias registradas por Garvin Watson e Juan Pablo foram divulgadas pela página Parismina Domus Dei, no Facebook.
A reação nas redes sociais foi de descrença imediata, com acusações de que a imagem havia sido manipulada. A dúvida só terminou quando pesquisadores foram atrás do registro original, e a análise confirmou que o animal era real: um caso de tubarão lixa apresentando duas alterações de pigmentação ao mesmo tempo, o albinismo e o xantismo.
O que aconteceu no dia da captura
A cena descrita pelos pescadores tem tudo para gerar desconfiança. Um animal de quase dois metros emergiu da água com coloração alaranjada intensa e olhos completamente brancos, aparência que não corresponde a nada que se espera de um tubarão lixa.
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O local da captura foi o Parque Nacional Tortuguero, área de conservação no litoral caribenho da Costa Rica, conhecida pela biodiversidade e pelo trabalho de proteção a tartarugas marinhas. Foi ali, em 11 de agosto de 2024, que Garvin Watson e Juan Pablo fizeram o registro fotográfico.
A publicação das imagens em uma página do Facebook fez o material circular rapidamente. Foto de bicho estranho na internet costuma seguir um roteiro previsível, e este seguiu: alcance rápido, comentários acusando montagem e nenhuma verificação técnica no primeiro momento.
Por que a internet não acreditou
A desconfiança tinha fundamento visual. A coloração alaranjada de um animal marinho, somada a olhos sem pigmento algum, produz uma imagem que se assemelha ao resultado de edição digital, especialmente em fotografia amadora tirada em condições de luz variável.
Daniel Arauz Naranjo, diretor executivo do CREMA, resumiu essa reação ao afirmar em entrevista à National Geographic que, no começo, ninguém acreditava, e que muita gente disse que a foto era manipulada.
Esse ceticismo tem se tornado padrão em um ambiente saturado de imagens editadas e de conteúdo gerado artificialmente. A dúvida, nesse caso, era razoável, e foi resolvida da única forma que resolve: com análise técnica, e não com discussão em comentários.
O que é albino xantocromismo
O fenômeno identificado combina duas condições que costumam aparecer separadamente. O albinismo reduz a produção de melanina e pode deixar os olhos mais claros, explicando o aspecto esbranquiçado observado no animal.
O xantismo, ou xantocromismo, atua em outra direção, produzindo pigmentação alaranjada intensa. É uma alteração conhecida em peixes e em outros grupos, mas que raramente é registrada em tubarões.
A ocorrência simultânea das duas condições no mesmo indivíduo é o que torna o caso excepcional. Ter perdido a pigmentação escura e, ao mesmo tempo, expressar pigmentação alaranjada intensa é uma combinação que os pesquisadores classificam como sem precedentes, conforme apontado pela coautora do artigo, a bióloga venezuelana Marioxis Macias, que descreveu a descoberta como surpreendente.
A publicação científica um ano depois
Entre a captura e o reconhecimento formal houve um intervalo de aproximadamente doze meses. A descoberta ocorreu em agosto de 2024, e a revelação científica ganhou repercussão internacional um ano depois, com a publicação de um artigo na revista Marine Biodiversity, do grupo Springer Nature.
O trabalho contou com a participação de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande, no Brasil, e da Universidad Nacional Experimental Rómulo Gallegos. A presença de uma instituição brasileira na autoria dá ao caso uma conexão direta com a pesquisa nacional em biologia marinha.
Esse intervalo entre observação e publicação não é atraso, é procedimento. Confirmar uma ocorrência inédita exige análise das imagens, comparação com registros anteriores da espécie, descrição formal e revisão por outros pesquisadores, etapas que consomem meses antes que qualquer afirmação possa ser feita publicamente.
O enigma da sobrevivência sem camuflagem
A parte mais intrigante do caso não é a aparência, e sim o fato de o animal ter chegado à fase adulta. Tubarões lixa usam a tonalidade marrom característica da espécie para se confundir com o fundo rochoso e arenoso, camuflagem que serve tanto para caçar quanto para evitar ameaças.
Um exemplar alaranjado perde essa vantagem por completo. Ele se torna visível para presas em potencial, o que dificulta a alimentação, e também para predadores, o que aumenta o risco de ser atacado, especialmente nas fases iniciais da vida.
Por isso a constatação surpreendeu os pesquisadores. Um animal tão chamativo tinha, em tese, poucas chances de sobreviver até a idade adulta em condição saudável, e a exceção pede explicação.
A hipótese das águas turvas
A explicação levantada pelos cientistas está no ambiente em que o animal foi encontrado. A captura ocorreu próximo à foz de rios locais, região em que a visibilidade da água é naturalmente baixa por causa do sedimento carregado pela correnteza.
Em água turva, a cor importa menos. Se predadores e presas enxergam pouco, a desvantagem de ter pigmentação chamativa diminui de forma significativa, o que poderia ter compensado a ausência da camuflagem típica da espécie.
Vale registrar que se trata de uma hipótese, e não de conclusão comprovada. O ambiente é uma explicação plausível, não uma demonstração, e a fonte não informa se houve estudo específico sobre as condições de visibilidade naquele trecho nem se o animal permaneceu ali por toda a vida.
Por que casos assim importam para a ciência
Registros de alterações de pigmentação em animais selvagens não são meras curiosidades visuais. Eles ajudam a mapear a variabilidade genética dentro das populações e a entender como características incomuns se comportam em ambiente natural.
O interesse aumenta quando o indivíduo sobrevive até a idade adulta, porque isso põe à prova a suposição de que camuflagem é sempre determinante para a sobrevivência. O caso costarriquenho oferece justamente esse tipo de contraexemplo.
Existe ainda o valor de documentação. Primeiro registro é marco de referência, e a partir dele qualquer ocorrência semelhante encontrada no futuro pode ser comparada, contextualizada e classificada, algo impossível quando não há caso anterior descrito na literatura.
Da desconfiança nas redes ao artigo científico
O percurso desse caso tem um valor que vai além da biologia. Uma imagem publicada por pescadores em uma página de rede social foi acusada de fraude, permaneceu como curiosidade duvidosa por meses e terminou como objeto de artigo em revista científica internacional.
O que separou uma coisa da outra foi o trabalho de pesquisadores que decidiram investigar em vez de descartar. Sem essa iniciativa, o registro provavelmente teria se perdido no fluxo de conteúdo duvidoso que circula diariamente na internet.
E você, teria acreditado nessa foto se ela aparecesse no seu feed? Acha que a internet ficou cética demais com imagens ou que a desconfiança é justificada hoje em dia? Conta nos comentários qual foi o animal mais estranho que você já viu em uma foto e duvidou.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

