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Jovem começou a trabalhar em olarias ainda na infância, aprendeu a escolher a terra e controlar a água, trocou a fabricação comum de tijolos por blocos especiais com areia e pedrisco e há 15 anos ajuda a impedir que Chan Chan, a maior cidade de barro da América, desapareça
Escrito por Geovane Souza
Publicado em 01/08/2026 às 08:13
Atualizado em 01/08/2026 às 08:14
Curiosidades
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Arturo Rafael Jerónimo Valiente trocou uma olaria artesanal pelas muralhas milenares de Chan Chan, no Peru, onde produz adobes específicos para reparar áreas frágeis e criar camadas de proteção contra chuva, vento e umidade
Durante boa parte do dia, Arturo Rafael Jerónimo Valiente trabalha com os mesmos materiais usados por construtores pré-colombianos há séculos. Terra, água, areia e pequenas pedras passam por suas mãos até se transformarem em blocos destinados às muralhas de Chan Chan, antiga capital do reino Chimú, na costa norte do Peru.
O conhecimento começou a ser adquirido ainda na infância, quando Arturo trabalhava em uma olaria e aprendeu a identificar a terra adequada, controlar a quantidade de água e moldar tijolos artesanais. Há cerca de 15 anos, um amigo informou que o complexo arqueológico precisava de profissionais acostumados ao barro.
Arturo foi contratado inicialmente para um projeto chamado Laberinto e permaneceu nas equipes de conservação. O trabalho, porém, exigiu uma mudança na receita usada nas olarias comuns, já que os novos blocos precisavam proteger estruturas arqueológicas vulneráveis sem alterar suas características originais.
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Segundo informações divulgadas em julho de 2026 pelo Infobae, o adobero passou a preparar uma mistura de terra, areia e “confitillo”, nome usado no Peru para um agregado composto por pequenas pedras. O material aumenta a resistência dos blocos empregados na manutenção do monumento.
O tijolo que Arturo conhecia precisou ser adaptado para outro tipo de construção
Em uma casa ou edifício novo, os tijolos são produzidos para sustentar estruturas que ainda serão erguidas. Em Chan Chan, a prioridade é diferente. Cada intervenção precisa levar em conta paredes originais, relevos decorativos, revestimentos antigos e pontos onde o barro já perdeu parte de sua estabilidade.
Os blocos produzidos por Arturo podem ser usados para preencher trechos perdidos, apoiar áreas próximas do colapso e formar camadas que recebem primeiro os impactos do clima. Em alguns pontos, essas peças funcionam como material de sacrifício, protegendo a alvenaria original que permanece logo abaixo.
O Projeto Especial Complejo Arqueológico Chan Chan informa que os conservadores analisam erosões, buracos, fissuras, salinidade, desprendimento de revestimentos e desgaste na base e no topo das paredes. Entre os procedimentos adotados estão a reposição de adobe, a consolidação de rebocos, o fechamento de canais abertos pela água e a colocação de duas ou três fileiras protetoras sobre determinadas muralhas.
A secagem também precisa ocorrer de maneira controlada. Um adobe com umidade excessiva pode apresentar retração, rachaduras ou baixa resistência, enquanto uma mistura inadequada pode se comportar de modo diferente do material histórico e provocar novos danos.
A cidade construída para o deserto passou a enfrentar água em excesso
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Chan Chan foi erguida no vale do rio Moche, nas proximidades de Trujillo, e ocupou originalmente cerca de 20 quilômetros quadrados. Seu núcleo monumental reúne palácios, praças, depósitos, plataformas funerárias, reservatórios, áreas de produção e grandes muros decorados com figuras geométricas, aves, peixes e outros elementos ligados à cultura Chimú.
A Unesco descreve o local como a maior cidade de arquitetura de terra da América pré-colombiana. O conjunto monumental central ocupa aproximadamente seis quilômetros quadrados e foi organizado em nove grandes complexos independentes, cercados por paredes altas e espessas.
O barro, adequado ao ambiente seco da costa peruana, torna-se vulnerável quando recebe chuvas fortes. A água abre sulcos, dissolve partes das superfícies, penetra pelas fissuras e pode retirar material da base das paredes até comprometer sua sustentação.
De acordo com a Unesco, precipitações intensas também aumentam a umidade nas partes inferiores dos edifícios, ativam sais presentes na terra e favorecem o crescimento de vegetação em áreas baixas. As chuvas ligadas ao fenômeno El Niño ainda contribuem para a elevação do lençol freático, ampliando o risco para estruturas que permaneceram secas durante longos períodos.
Drenos, coberturas e barreiras de terra passaram a acompanhar o trabalho artesanal
Os adobes produzidos à mão representam apenas uma parte da operação. A conservação envolve drenagem, monitoramento da umidade, limpeza de canais, proteção das partes superiores dos muros, instalação de coberturas e direcionamento da água para longe das áreas arqueológicas.
Em julho de 2025, a Unesco citou Chan Chan como exemplo de adaptação de patrimônios históricos aos riscos relacionados à água. Entre as medidas adotadas pelos responsáveis estão melhorias nos sistemas de drenagem e obras de terra destinadas a reduzir o efeito de chuvas e inundações sobre os frágeis edifícios de adobe.
A combinação entre técnica tradicional e engenharia contemporânea busca evitar dois extremos. Os responsáveis não podem abandonar os materiais históricos, mas também não podem depender apenas de métodos usados há séculos diante de mudanças no regime de chuvas, expansão urbana e alterações no nível da água subterrânea.
Em dezembro de 2025, o Ministério da Cultura do Peru reabriu o setor Las Ardillas, no conjunto amuralhado Nik An, depois de trabalhos em revestimentos, coberturas, drenagem aérea, pisos e bases de paredes. A intervenção incluiu a retirada e substituição de materiais de sacrifício, além do tratamento das partes superiores dos muros.
Mesmo com a manutenção diária, Chan Chan continua na lista de patrimônios ameaçados
Chan Chan foi reconhecida como Patrimônio Mundial em 1986 e, no mesmo ano, entrou na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo. A área atualmente registrada pela Unesco possui 1.414,57 hectares e continua exposta a fatores ambientais, invasões, agricultura irregular e avanço da infraestrutura urbana.
Em 2025, o Comitê do Patrimônio Mundial decidiu manter o complexo na lista de risco. A entidade reconheceu a aplicação do Plano Diretor de Conservação e Manejo 2021-2031, mas apontou atrasos na regulamentação da zona de amortecimento e na resolução de ocupações ilegais dentro da área protegida.
Os danos não vêm apenas do clima. Em abril de 2025, policiais interromperam escavações não autorizadas no setor El Trópico, onde trincheiras expuseram enchimentos originais de adobe, cascalho e fragmentos de cerâmica Chimú. O Ministério da Cultura informou que passou a manter patrulhamento e acompanhamento jurídico dos casos identificados.
O saber de um antigo oleiro tornou-se parte da proteção de uma cidade inteira
O trabalho de Arturo mostra que a conservação arqueológica não depende exclusivamente de laboratórios, documentos e equipamentos de monitoramento. Ela também exige profissionais capazes de reconhecer pelo tato quando a terra tem argila suficiente, quando a massa precisa de mais agregado e quando o bloco já pode ser retirado do molde.
Essa experiência prática é difícil de substituir e precisa ser transmitida. Em março de 2025, a Direção Desconcentrada de Cultura de La Libertad começou a distribuir material educativo sobre a civilização Chimú e Chan Chan em escolas próximas ao complexo, aproximando crianças e professores do patrimônio localizado em sua própria região.
Enquanto arqueólogos estudam as estruturas e engenheiros desenvolvem sistemas para controlar a água, Arturo continua produzindo as peças usadas nas intervenções. Cada novo adobe não substitui a cidade antiga, mas absorve parte do desgaste que, sem manutenção constante, atingiria diretamente seus muros originais.
A preservação de Chan Chan deve priorizar os saberes tradicionais, novas tecnologias de proteção ou uma combinação dos dois? Deixe seu comentário e conte quais medidas deveriam receber mais investimentos para manter de pé a maior cidade de barro da América pré-colombiana.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

