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Depois de criar os filhos trabalhando como vendedora por 48 anos sem saber ler, mãe de 74 anos voltou à escola pela EJA incentivada pela filha professora, aprendeu a escrever o próprio nome e viveu a emoção de se tornar aluna dela dentro da sala
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 01/08/2026 às 20:00
Curiosidades
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Trajetória de uma trabalhadora que passou décadas longe da escola ganha novo significado quando mãe e filha trocam de papéis na sala de aula, em uma história marcada por alfabetização tardia, apoio familiar, autonomia e reencontro com um sonho antigo.
Depois de quase cinco décadas trabalhando como vendedora e criando os filhos sem ter aprendido a ler, Diomar da Silva Rodrigues voltou à sala de aula aos 74 anos, em Boa Vista, Roraima, incentivada pela filha professora.
Na Educação de Jovens e Adultos, ela começou a reconhecer palavras, aprendeu a escrever o próprio nome e viveu uma inversão marcante ao sentar-se como aluna diante de Kátia Regina Rodrigues, a filha que passou a acompanhá-la dentro da escola.
Mãe de 74 anos volta à EJA em Boa Vista
Ao entrar na EJA, Diomar assumiu um papel diferente daquele que exerceu durante grande parte da vida, quando sustentava a família, orientava os filhos e mantinha uma rotina de trabalho que deixava pouco espaço para os estudos.
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Dentro da sala, a relação familiar ganhou outro contorno, porque Kátia precisava conduzir as atividades como professora, enquanto a mãe acompanhava as explicações, realizava exercícios e fazia questão de tratá-la pelo cargo diante dos demais estudantes.
Trabalho e família adiaram a alfabetização
Natural do interior do Maranhão, Diomar mudou-se para Roraima aos 21 anos em busca de oportunidades e, depois de ficar viúva, concentrou os esforços na criação dos filhos e no trabalho como vendedora, atividade exercida durante 48 anos.
Embora a escola tivesse ficado distante por décadas, o desejo de aprender permaneceu presente, especialmente porque ela costumava contar à filha que uma de suas maiores tristezas era atravessar a vida sem conseguir ler de forma independente.
Filha professora incentiva retorno à escola
A oportunidade surgiu quando Kátia passou a trabalhar no período noturno da Escola Municipal Francisco de Souza Bríglia, unidade da rede de Boa Vista que mantém turmas destinadas a jovens, adultos e idosos afastados da educação formal.
Percebendo que a mãe poderia acompanhá-la até a unidade, a professora fez o convite, e Diomar aceitou mesmo mantendo outras atividades durante o dia, incorporando cadernos, exercícios e aulas a uma rotina que já era bastante movimentada.
Aprender a escrever o próprio nome
Entre os primeiros avanços, a capacidade de escrever o próprio nome tornou-se uma conquista especialmente simbólica, pois transformou em experiência concreta um aprendizado que havia sido adiado durante os anos dedicados ao comércio e às responsabilidades familiares.
Além do registro da própria assinatura, reconhecer letras, formar palavras e compreender informações simples ampliou a confiança da estudante em situações cotidianas, mostrando resultados visíveis de um processo construído passo a passo com acompanhamento pedagógico.
Mãe se torna aluna da própria filha
O encontro entre as duas ganhou força quando Kátia precisou lecionar para a turma frequentada pela mãe, situação que permitiu a Diomar observar a filha exercendo a profissão construída por meio da própria trajetória escolar.
Diante dos colegas, a mãe evitava tratá-la apenas pelo nome e preferia chamá-la de professora, reconhecendo o papel profissional da filha e reforçando a mudança de posições que tornou aquela experiência tão significativa para ambas.
Para Kátia, a cena também reorganizou lembranças familiares, porque a mulher que havia transmitido valores, cuidado da casa e enfrentado décadas de trabalho passava a receber orientação acadêmica da filha que ajudou a formar e preparar para a vida.
Sem apagar o lugar de mãe, Diomar tornou-se estudante diante de Kátia, enquanto a professora passou a acompanhar de perto uma conquista adiada por necessidades econômicas, responsabilidades familiares e ausência de oportunidades educacionais anteriores ao longo da vida.
Rotina ativa depois dos 70 anos
Fora da escola, a vida de Diomar também inclui atividades voltadas à convivência e à autonomia, como participação no projeto Cabelos de Prata, oficinas de dança, pintura e confecção de bonecos, além da prática regular de capoeira.
Mesmo depois dos 70 anos, ela recebeu sua primeira faixa na modalidade e manteve uma agenda ativa, combinando aprendizagem, movimento e contato social em uma fase marcada pela descoberta de habilidades que não pôde explorar durante a juventude.
Essa rotina mostra que o retorno à escola não ocorre de maneira isolada, mas integra um período em que Diomar amplia a participação em diferentes espaços, convive com novos grupos e fortalece a confiança para enfrentar desafios cotidianos.
Educação atravessa gerações da família
Com filhos, netos, bisnetos e até tataraneto, Diomar passou a ocupar também o papel de referência educacional dentro da própria família, porque sua volta à sala de aula demonstra que o aprendizado pode recomeçar depois de décadas.
A experiência reforça o alcance da Educação de Jovens e Adultos, modalidade destinada a pessoas que não concluíram a educação básica na idade regular e que desejam retomar o ensino fundamental em escolas preparadas para receber trajetórias diversas.
Na rede municipal de Boa Vista, as turmas atendem estudantes a partir dos 15 anos, e o ingresso de Diomar ocorreu justamente na escola onde Kátia atua no apoio pedagógico durante o período noturno pela própria rede.
Essa proximidade facilitou a retomada, mas não substituiu o trabalho dos professores responsáveis pela turma, que acompanham o desenvolvimento da leitura, da escrita e das demais habilidades necessárias para a continuidade da formação escolar ao longo do processo.
Apoio familiar acompanha a alfabetização
Ao lado do acompanhamento pedagógico, o incentivo da filha funciona como apoio dentro e fora da escola, especialmente nos momentos em que a insegurança pode surgir após tantos anos de afastamento do ensino formal em sala de aula.
Kátia acompanha o processo de alfabetização de alguém que lhe ensinou valores e responsabilidades, enquanto Diomar transforma em prática um desejo antigo, agora sustentado por uma rede familiar e escolar que reconhece seu esforço ao longo dessa etapa.
Muitos adultos e idosos chegam à EJA receosos de não acompanhar as atividades, principalmente quando nunca foram alfabetizados ou quando passaram longos períodos longe da escola, tornando os primeiros avanços decisivos para a permanência nas aulas.
No caso de Diomar, cada palavra reconhecida, cada exercício concluído e cada tentativa de escrita ajudam a modificar essa percepção, porque oferecem resultados concretos e aproximam a estudante da possibilidade de ler com maior independência.
EJA amplia autonomia e confiança
Ao transformar uma lembrança de frustração em experiência compartilhada, mãe e filha passaram a construir juntas uma etapa que combina aprendizagem, afeto e mudança de papéis, sem reduzir a trajetória de Diomar apenas ao fato de ter voltado a estudar.
Depois de 48 anos como vendedora, da criação dos filhos e da formação de uma família com várias gerações, ela continua frequentando a escola e ampliando o que consegue realizar sozinha em sua rotina de forma independente.
Quando escreve o próprio nome e ocupa uma carteira diante da filha professora, Diomar não apenas retoma um direito adiado, mas também inaugura uma relação diferente com a leitura, a escola e as possibilidades que ainda deseja alcançar.
Quantas outras mães, pais, avós e trabalhadores poderiam reencontrar um sonho antigo ao receber dentro de casa o mesmo apoio familiar, pedagógico e afetivo que ajudou Diomar a transformar o desejo de aprender em uma nova etapa da vida?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

