7 min de leitura
Filho de pedreiro e dona de casa cresceu em uma comunidade quilombola, estudou seis horas por dia numa casa emprestada sem luz nem internet, usava a lanterna do celular, tirou 980 na redação do Enem e passou em Medicina na UFRB após seis tentativas aos 25 anos. Que vitória impressionante!
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 02/08/2026 às 20:27
Curiosidades
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Trajetória marcada por limitações materiais, estudo improvisado e persistência mostra como um jovem de origem humilde transformou obstáculos cotidianos em uma conquista acadêmica rara, após sucessivas tentativas, apoio comunitário, disciplina intensa e acesso restrito aos recursos tecnológicos necessários para a preparação.
Sem energia elétrica, conexão fixa com a internet ou dinheiro para pagar um cursinho particular, Matheus de Araújo Moreira Silva encontrou em uma casa emprestada o espaço necessário para continuar perseguindo uma vaga em Medicina, mesmo diante das limitações enfrentadas diariamente.
Morador da comunidade quilombola de Salgado, no município baiano de Antônio Cardoso, o filho de um pedreiro e de uma dona de casa chegou à Universidade Federal do Recôncavo da Bahia aos 25 anos, depois de realizar o Exame Nacional do Ensino Médio seis vezes.
Durante a preparação, cerca de seis horas eram reservadas diariamente aos estudos, numa rotina que precisava se adaptar às condições do imóvel cedido por uma amiga e à ausência de recursos normalmente utilizados por candidatos que disputam uma vaga tão concorrida.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Quando a noite avançava, a iluminação vinha da lanterna do celular, pois a residência utilizada por Matheus não possuía fornecimento de energia elétrica, obrigando o estudante a transformar o próprio aparelho em ferramenta de leitura e acesso aos materiais escolares.
O telefone também permitia consultar conteúdos digitais, mas o limite do pacote de dados tornava as videoaulas pouco viáveis, razão pela qual textos, apostilas e arquivos em PDF ganharam prioridade por exigirem menos internet durante a longa preparação.
Estudo sem energia elétrica e internet
Segundo o jornal A Tarde, responsável por registrar a trajetória do estudante, a busca por um ambiente adequado começou antes da mudança para a casa emprestada, quando Matheus ainda utilizava a biblioteca municipal para organizar sua rotina de preparação.
Com o fechamento do espaço durante a pandemia, desapareceu o ambiente silencioso onde ele conseguia manter a concentração, circunstância que o levou a procurar alternativas dentro da comunidade para não interromper o projeto de ingressar em uma universidade pública.
Na sede da associação de moradores, outra tentativa de manter os estudos acabou prejudicada pelo movimento dos bares próximos, enquanto a residência da família também oferecia dificuldades, já que o jovem dividia o espaço com os pais e quatro irmãos.
Entre os familiares estava um irmão com necessidades especiais, fator que tornava o ambiente doméstico ainda menos favorável à concentração exigida por uma preparação extensa, marcada por conteúdos numerosos, simulados e sucessivas participações no exame nacional.
Diante das limitações financeiras, da falta de estrutura e dos resultados anteriores, Matheus chegou a considerar a possibilidade de abandonar o objetivo, sobretudo depois de aproximadamente cinco anos de preparação sem conseguir a vaga desejada no curso de Medicina.
A mudança mais importante ocorreu quando uma amiga ofereceu uma casa em Feira de Santana, permitindo que o estudante encontrasse maior tranquilidade para organizar os horários, revisar os conteúdos e manter uma rotina mais estável longe das distrações anteriores.
Embora resolvesse a falta de espaço, o imóvel trouxe outros obstáculos, pois não contava com eletricidade nem conexão residencial, levando Matheus a contratar dados móveis e reformular completamente a maneira como acessava as aulas e os materiais necessários.
Como as videoaulas consumiam rapidamente a franquia disponível, o estudante reduziu esse tipo de conteúdo e passou a concentrar a preparação em materiais digitais mais leves, estratégia que permitia aproveitar melhor a conexão limitada sem interromper o ritmo diário.
Mesmo depois do anoitecer, a falta de eletricidade não encerrava automaticamente os estudos, porque a lanterna do telefone possibilitava continuar a leitura, ainda que em condições muito diferentes das oferecidas por computadores, banda larga e ambientes adequadamente iluminados.
Mantida ao longo dos meses, a disciplina de aproximadamente seis horas diárias levou Matheus até o exame que abriria o caminho para a universidade, depois de uma preparação feita com improvisação, persistência e apoio recebido em momentos decisivos.
Nota 980 na redação do Enem
Na redação do Enem, Matheus alcançou 980 pontos, resultado próximo da pontuação máxima e suficiente para colocá-lo entre os candidatos de melhor desempenho, embora a nota elevada não tenha garantido imediatamente a vaga pretendida na Universidade Federal da Bahia.
Na primeira disputa, o estudante terminou em segundo lugar para a única oportunidade reservada, naquele processo, a integrantes de comunidades quilombolas, situação que prolongou a espera mesmo depois de um resultado expressivo em uma das etapas mais exigentes do exame.
Em vez de encerrar a tentativa, Matheus utilizou a mesma pontuação para concorrer a uma vaga na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, onde conseguiu ingressar no curso de Medicina após anos de preparação e repetidas participações no Enem.
A aprovação veio depois de seis edições do exame e transformou uma trajetória marcada por deslocamentos, espaços improvisados, internet limitada e iluminação precária em uma entrada efetiva no ensino superior público, dentro de uma das carreiras mais disputadas do país.
Aprovação em Medicina na UFRB
Além do resultado acadêmico, a conquista carregava um significado importante para a família, formada por trabalhadores que não dispunham de recursos para financiar uma faculdade particular ou um curso preparatório especializado durante os anos de estudo.
A formação em escola pública, os materiais acessados pelo celular e a ajuda oferecida por pessoas próximas tornaram-se partes essenciais do percurso, especialmente quando os espaços utilizados anteriormente deixaram de atender às necessidades de concentração e continuidade.
Ao ceder a residência, a amiga de Matheus criou uma condição concreta para que ele preservasse a rotina, ainda que o imóvel exigisse adaptações e não oferecesse serviços básicos como energia elétrica e conexão fixa com a internet.
Depois da aprovação, surgiu outro desafio prático, pois o curso era oferecido em Santo Antônio de Jesus e o estudante precisava se organizar para viver perto da universidade, conciliando as exigências acadêmicas com despesas de moradia, alimentação e deslocamento.
As primeiras aulas ocorreram de maneira remota, enquanto Matheus preparava a mudança e procurava recursos para atravessar o período inicial da graduação, antes de conseguir acessar os mecanismos de assistência estudantil disponibilizados pela instituição.
Para custear essa etapa, o jovem abriu uma campanha de arrecadação destinada à manutenção durante o primeiro ano, já que o auxílio universitário seria recebido posteriormente e as despesas começariam antes da liberação desse apoio.
Seis tentativas até a universidade
Em números, a trajetória reúne seis tentativas no Enem, cerca de seis horas de estudo por dia, uma redação avaliada em 980 pontos e uma casa sem luz ou internet, utilizada como principal ambiente de preparação.
No lugar de uma estrutura completa, havia um telefone celular, arquivos digitais mais leves e uma iluminação improvisada para os períodos noturnos, elementos que passaram a sustentar uma rotina construída conforme os recursos disponíveis em cada etapa.
Ao longo do percurso, diferentes espaços públicos, comunitários e particulares participaram da preparação, começando pela biblioteca municipal, passando pela associação de moradores e pela casa da família, até chegar ao imóvel cedido em Feira de Santana.
Cada mudança respondia a uma dificuldade específica, seja a falta de silêncio, o fechamento de um equipamento público, o excesso de pessoas no ambiente doméstico ou a necessidade de encontrar um local onde fosse possível manter regularidade.
Mesmo com uma nota elevada na redação, a aprovação não ocorreu na primeira universidade escolhida, e o segundo lugar para uma única vaga prolongou uma trajetória que já havia sido marcada por várias edições do exame.
A possibilidade de utilizar o resultado em outra seleção permitiu que Matheus ingressasse na UFRB, transformando uma classificação insuficiente na primeira tentativa daquele processo em uma oportunidade concreta de iniciar a formação médica.
Desafios para permanecer no curso
Conquistar a vaga, porém, não eliminou automaticamente as limitações financeiras que acompanharam os anos de preparação, pois despesas básicas continuavam presentes e precisavam ser consideradas antes da mudança para a cidade onde a graduação seria realizada.
Moradia, alimentação e transporte permaneceram no planejamento familiar, razão pela qual a campanha de arrecadação se tornou necessária até que o auxílio estudantil pudesse contribuir para a permanência do aluno durante o curso.
Do estudo na biblioteca ao uso da lanterna do celular, a preparação de Matheus foi construída com os recursos encontrados em cada momento, num percurso em que apoio comunitário, adaptação e disciplina estiveram diretamente ligados à conquista da vaga.
Quantos outros estudantes poderiam alcançar uma universidade pública se também encontrassem apoio para continuar quando a estrutura básica deixa de existir?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

