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Imigrante que lavava carros num lava-jato para sobreviver nos Estados Unidos virou médico e hoje é anestesiologista num dos maiores centros de câncer do mundo, em Nova York, no mesmo hospital onde esterilizava instrumentos cirúrgicos no turno da noite
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 03/08/2026 às 07:51
Curiosidades
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Borel Soh chegou de Camarões sem falar inglês, aprendeu com legendas de televisão e livros de biblioteca pública, entrou no hospital em 2007 pelo setor de esterilização e passou três anos emendando turno noturno com aulas na faculdade. Virou docente em 2021.
O médico Borel Soh integra hoje o corpo docente júnior do Departamento de Anestesiologia e Medicina Intensiva do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, o mesmo hospital onde começou a trabalhar em 2007, no subsolo, esterilizando instrumentos cirúrgicos, conforme material publicado pela própria instituição.
Ele nasceu em Camarões, país da África Central, e chegou aos Estados Unidos sem conseguir sustentar uma conversa em inglês. Entre o primeiro emprego em um lava-jato do Bronx e o convite para lecionar no hospital, passaram-se 14 anos, período que ele mesmo descreve como um plano de longo prazo que se concretizou.
A apendicite aos 6 anos que mudou o rumo
O primeiro sonho de infância não tinha relação com medicina. Ele era fascinado por aviões, e algumas de suas primeiras lembranças envolvem o desejo de ser piloto.
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A virada aconteceu aos 6 anos, quando foi levado às pressas a um hospital em Yaoundé, capital de Camarões, com uma apendicite supurada. Um cirurgião italiano estava de passagem pela unidade e realizou a operação que, segundo ele, salvou sua vida.
O que ficou daquele episódio começou pelos equipamentos. Ao acordar da cirurgia, ficou impressionado com os bipes das máquinas ao redor, que hoje ele identifica como eletrocardiógrafo e oxímetro de pulso. Para uma criança obcecada por aviões, aquilo era tecnologia à altura da fascinação anterior.
O sorriso da mãe durante a recuperação
O que definiu a escolha profissional, porém, não foi o equipamento, e sim uma cena repetida durante os dias de internação.
A mãe dele conversava com os médicos todos os dias, nas visitas ao quarto. Conforme o quadro clínico melhorava, o sorriso dela ficava mais evidente, e foi observando essa mudança que ele registrou o pensamento que carregaria adiante: queria ser uma das pessoas capazes de trazer cura e produzir aquele efeito nas pessoas.
É um detalhe que costuma passar despercebido em histórias de vocação médica. O que o convenceu não foi o procedimento em si, foi o alívio de quem estava do lado de fora da cama, e essa perspectiva atravessa toda a trajetória posterior dele.
Legendas de TV e três livros por semana
A chegada a Nova York para continuar os estudos esbarrou logo em um obstáculo básico. Ele não conseguia manter uma conversa em inglês, e descreve essa como a primeira de muitas barreiras enfrentadas.
A solução veio de recursos gratuitos e de método próprio. Ele se matriculou em um curso de inglês e, ao descobrir as legendas na televisão, passou a usá-las para acompanhar a fala e aprender pronúncia, recurso que classifica como um achado valioso.
As bibliotecas públicas da cidade completaram a estratégia. Segundo o relato dele, chegava a ler três livros por semana, sobre qualquer assunto que julgasse útil para o próprio avanço. Aprender o idioma foi condição para tudo o que veio depois, e ele o fez com material disponível a qualquer pessoa na mesma cidade.
Metrô às 4h30 e qualquer trabalho que aparecesse
A necessidade financeira corria em paralelo ao estudo. O primeiro emprego foi em um lava-jato no Bronx, e a logística diária era pesada: ele morava no Brooklyn e pegava o metrô às 4h30 da manhã, seis dias por semana, para chegar ao trabalho.
A partir dali, aceitou o que apareceu. Trabalhou em restaurante no Brooklyn e repôs mercadoria em loja de sapatos, muitas vezes emendando jornadas praticamente sem parar para conseguir pagar as contas.
Essa fase raramente aparece nas versões resumidas desse tipo de trajetória. Antes de existir plano de carreira, existiu a conta do mês, e a rotina de deslocamento entre dois distritos antes do amanhecer é o que sustentou o resto da história.
A aula particular de física que abriu a porta
O ingresso na universidade veio pelo sistema público municipal. Ele começou no Medgar Evers College, no Brooklyn, e depois se transferiu para o City College, em Manhattan.
Em paralelo, candidatou-se a vagas em hospitais e não obteve resposta. A porta se abriu por um caminho lateral: uma colega a quem ele dava aulas particulares de física contou que trabalhava no hospital oncológico e fez a ponte.
Por meio dessa estudante, ele foi apresentado a John Meggs, gerente do departamento central de processamento da instituição, e recebeu a oferta de emprego. A vaga não veio por currículo enviado, veio por relação construída enquanto ele ensinava física a outra pessoa, detalhe que dialoga diretamente com o que ele defende hoje sobre transferência de conhecimento.
O trabalho invisível que sustenta a cirurgia
A função exercida no subsolo do hospital é pouco conhecida fora do ambiente hospitalar, mas indispensável. O departamento central de processamento é responsável por limpar e esterilizar todo o instrumental usado em cirurgias, de afastadores a endoscópios, e entregar diariamente as bandejas prontas às salas cirúrgicas.
Ele define esse emprego como uma das maiores oportunidades da vida, e não como etapa a ser superada. Foi ali que passou a circular pelo ambiente que pretendia integrar como profissional.
Vale registrar o peso técnico dessa atividade. Falha na esterilização gera infecção e compromete o resultado de qualquer procedimento, o que coloca esse setor entre os mais críticos de um hospital, ainda que ele funcione longe da vista de pacientes e visitantes.
Três anos entre o turno da noite e o dia inteiro de aula
A rotina que ele manteve durante a graduação é o trecho mais duro do relato. O turno começava às 23h e se estendia até as 7h da manhã.
Logo após o encerramento do expediente, ele corria para pegar um ônibus e depois o metrô, a fim de chegar à faculdade e cumprir um dia inteiro de aulas. Ao final da tarde, dormia algumas horas, estudava e voltava para o turno noturno no hospital.
Esse ciclo se repetiu por três anos. Trabalhar das 23h às 7h e assistir aula em seguida significa comprimir sono, estudo e deslocamento nas horas que sobram, e é o tipo de rotina que costuma quebrar antes do terceiro mês, não do terceiro ano.
As pessoas que disseram o que fazer, não apenas boa sorte
Enquanto entregava as bandejas de instrumental nas salas cirúrgicas, ele se imaginava exercendo medicina naquele mesmo hospital. Foi nessas entregas que passou a criar vínculo com as equipes de atendimento, incluindo enfermeiros e médicos.
Ao compartilhar o objetivo com esses profissionais, recebeu um tipo específico de retorno que ele faz questão de distinguir. Segundo o relato, as pessoas não se limitavam a desejar boa sorte: apresentavam o caminho concreto a seguir e dispunham do próprio tempo para orientá-lo.
Essa diferença é o eixo de toda a história. Torcida não muda trajetória, informação muda, e foi o acesso a quem conhecia o percurso que transformou uma aspiração em plano executável.
Os mentores dentro do hospital
Vários nomes aparecem nesse apoio. Um deles é Kathryn Martin, diretora de operações da instituição, que o conheceu em um painel de discussão para estudantes universitários em 2011 e ficou impressionada com as perguntas que ele fez. Ele admite que não imaginava que alguém naquela posição se interessaria de fato pelo seu sucesso.
Foi ela quem o apresentou a médicos da casa, entre eles Louis Voigt, especialista em terapia intensiva, que ele descreve como mentor decisivo. A formulação que ele usa para explicar essa ajuda é precisa: aspiração sozinha não basta, é preciso informação para construir a ponte até a realização concreta.
Também recebeu apoio de Neil Halpern, diretor do centro de terapia intensiva da instituição, que o auxiliou na preparação da candidatura à faculdade de medicina. A rede de apoio se formou dentro do próprio local de trabalho, entre pessoas que o conheceram enquanto ele exercia a função de esterilização.
Da faculdade de medicina ao corpo docente em 2021
A graduação em medicina aconteceu na SUNY Downstate College of Medicine, no Brooklyn. Foi ali que ele descobriu a afinidade com a anestesiologia.
A escolha tem relação direta com a própria história. Ele sempre soube que queria trabalhar em centro cirúrgico, e na anestesiologia encontrou o que valoriza: enxergar o efeito imediato das próprias ações sobre a saúde de alguém, seja na aplicação de anestesia geral, seja na resposta a uma emergência.
O retorno ao hospital foi gradual. Ele voltava durante os intervalos da faculdade para participar de programas de pesquisa, cumpriu um estágio de seis semanas no último ano da residência e depois um programa de especialização de um ano em medicina perioperatória e oncoanestesia. Em 2021, o chefe do departamento, Gregory Fischer, comunicou estar satisfeito com o trabalho dele e o convidou para integrar o corpo docente júnior. Foram 14 anos entre a admissão no subsolo e a cadeira de professor.
A vida hoje e o plano seguinte
Fora do hospital, a rotina é outra. Ele e a esposa, Christine, têm três filhos pequenos, e ele se descreve como torcedor fanático dos times de Nova York.
O passatempo que ele confessa com humor é assistir animação japonesa para relaxar, gênero que, segundo admite, boa parte dos adultos ao redor considera incompreensível, incluindo a própria esposa. Ele também chegou a cogitar aulas de voo, um retorno à obsessão de infância que ficou de lado quando escolheu a medicina.
O objetivo profissional declarado olha para o país de origem. Lembrando que um cirurgião visitante da Itália pode ser a razão de ele estar vivo, ele afirma pretender realizar missões médicas em Camarões e em outros países em desenvolvimento, atuando tanto como profissional quanto como educador.
O que ele quer que outras pessoas tirem disso
A palavra que ele usa para resumir o que espera da carreira é transferência de conhecimento. Muitas pessoas dentro daquele hospital repassaram informação a ele, e a intenção declarada é fazer o mesmo por outros.
Ele acrescenta um segundo pedido, dirigido a quem lê a história. Mais do que se inspirar, gostaria que as pessoas pensassem em quantas trajetórias parecidas com a dele podem estar acontecendo sem que ninguém perceba.
O fechamento que ele dá é o argumento mais prático de todo o relato. Estender a mão a quem está por perto pode mudar a trajetória de uma vida inteira, e ele afirma saber disso porque foi exatamente o que aconteceu com ele.
E você, já teve alguém que te deu o caminho das pedras em vez de só desejar boa sorte? Acha que histórias assim mostram que é possível ou expõem o quanto ainda é raro conseguir? Conta nos comentários quem abriu uma porta para você quando ninguém mais abriu.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

