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Menino que largou a escola aos 12 anos, foi trabalhar em uma relojoaria e anos depois abriu com o irmão uma loja de tecidos em Natal em 1947, que virou a maior confecção de roupas da América Latina, com cerca de 200 mil peças por dia
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 03/08/2026 às 14:33
Atualizado em 03/08/2026 às 14:34
Curiosidades
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Nevaldo Rocha nasceu em Caraúbas, no sertão do Rio Grande do Norte, em 1928, e chegou à capital ainda adolescente. A loja aberta com o irmão Newton em 3 de outubro de 1947 deu origem ao Grupo Guararapes, que hoje soma mais de 400 unidades de varejo.
A maior confecção de roupas da América Latina começou como uma loja de tecidos chamada A Capital, aberta em Natal, no Rio Grande do Norte, em 3 de outubro de 1947, conforme a linha do tempo publicada pela própria empresa em seu site institucional. Os fundadores foram os irmãos Nevaldo e Newton Rocha, e o negócio deu origem ao Grupo Guararapes, controlador da rede Riachuelo.
O ponto de partida pessoal do fundador é anterior a essa data e bem mais duro. Nevaldo deixou os estudos aos 12 anos e saiu do interior potiguar rumo à capital, onde começou trabalhando em uma relojoaria, oferecendo os produtos a militares da base aérea instalada na cidade.
Do sertão para a capital com uma moeda no bolso
Ele nasceu em Caraúbas, no oeste do Rio Grande do Norte, em 21 de julho de 1928, e cresceu em uma família de origem humilde, em região marcada pela seca e por pouca oferta de oportunidade educacional.
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A decisão de deixar a escola e migrar aos 12 anos não foi projeto de carreira, foi busca de trabalho. Em comunicado divulgado após a morte dele, a própria companhia registrou que ele partiu para Natal em busca de emprego e que foi assim que juntou o capital para abrir a primeira loja.
O primeiro ofício foi no comércio de relógios. Para ampliar as vendas, ele levava os produtos até a base de aviadores existente na cidade, em vez de esperar o cliente aparecer no balcão. A prática de ir atrás do comprador, em vez de esperá-lo, aparece já no primeiro emprego dele, aos poucos anos de idade e sem qualquer formação comercial.
A loja de tecidos que virou fábrica
O negócio próprio nasceu em 1947, com a loja de tecidos aberta em sociedade com o irmão. Quatro anos depois, a operação deu o passo que mudaria o rumo do grupo.
Em 1951, foi inaugurada uma pequena confecção de roupas em Recife, e novos pontos de venda foram adquiridos. Foi a passagem de comerciante de tecido a fabricante de peça pronta, mudança que altera completamente a natureza do negócio.
Essa transição é o momento decisivo da história. Quem vende tecido depende da margem do metro; quem costura a peça captura o valor agregado inteiro, além de controlar prazo, modelo e volume. A partir dali, a empresa deixou de ser intermediária e passou a ser produtora.
O nome que veio de um morro em Pernambuco
A formalização veio quase uma década depois. Em outubro de 1956, os irmãos nomearam oficialmente a Guararapes, denominação inspirada no Morro dos Guararapes, em Pernambuco, região dos combates históricos que levam o mesmo nome.
Dois anos mais tarde, em 1958, a matriz foi transferida para Natal, onde permanece até hoje. O deslocamento consolidou a capital potiguar como centro da operação, decisão que teria efeito duradouro sobre a economia do estado.
Essa escolha de sede não é detalhe administrativo. Manter a matriz no Nordeste, em vez de migrar para o eixo Sudeste, definiu onde a maior parte da estrutura industrial seria instalada, e ainda hoje cerca de metade dos funcionários do grupo trabalha na região.
A aquisição de 1979 que trouxe a marca de varejo
O nome pelo qual o público conhece o grupo só chegou três décadas depois da fundação. Em 1979, os irmãos adquiriram as cadeias de lojas Riachuelo e Wolens, movimento que expandiu a atuação para o varejo têxtil.
A compra fechou o ciclo produtivo. A empresa já fabricava a peça e passou a controlar também o ponto de venda, eliminando o intermediário entre a fábrica e o consumidor final.
É essa integração que explica a estrutura atual. A produção industrial e a rede de lojas pertencem ao mesmo grupo, o que permite definir preço, coleção e prazo de reposição sem depender de terceiros em nenhuma etapa da cadeia.
A marca de jeans que patrocinou Ayrton Senna
Um capítulo pouco lembrado da trajetória do grupo tem relação com automobilismo. Em 1982, foi lançada a marca de jeans Pool, idealizada por Flávio Rocha, filho do fundador.
A grife se tornou referência de moda naquela década e patrocinou Ayrton Senna no início da carreira, quando ele disputava categorias de base na Europa. Segundo registros sobre o período, o valor do patrocínio ajudou a viabilizar a passagem do piloto para a Fórmula 3.
A escolha revela uma estratégia de marketing incomum para a época. Apostar em um piloto ainda desconhecido é decisão de risco, e o retorno de imagem só se confirmou anos depois, quando o patrocinado se tornou uma das figuras mais conhecidas do esporte mundial.
Os números da operação atual
A estrutura de hoje é bem distante da loja de 1947. Segundo informações da própria companhia, são mais de 400 lojas e 30 mil funcionários, com cerca de metade deles atuando no Nordeste.
A empresa se apresenta como detentora do maior parque fabril da América Latina no setor, e registros sobre o grupo indicam produção de cerca de 200 mil peças de vestuário por dia, integralmente comercializadas pela rede varejista do próprio conjunto, segundo informações do portal tokdehistoria.
O grupo mantém ainda dois teatros, um em Natal e outro no Rio de Janeiro, além de mais de 30 parcerias com nomes internacionais da moda. Vale registrar que os números de funcionários variam entre as fontes, com registros que citam 30 mil colaboradores diretos e outros que mencionam cerca de 40 mil somando diretos e indiretos.
A diversificação além da roupa
O conjunto de empresas controladas pelo grupo extrapola a fabricação e a venda de vestuário. A estrutura inclui uma financeira própria, responsável pela operação de cartão de crédito, e uma transportadora que atende a distribuição da rede.
Há também atuação no setor imobiliário comercial, com administração de shopping center, e no segmento cultural, por meio dos teatros mantidos pela marca.
Essa diversificação segue a mesma lógica da integração industrial. Financiar a compra do próprio cliente e transportar a própria mercadoria mantém dentro de casa margens que iriam para terceiros, modelo que sustentou boa parte do crescimento do conjunto ao longo das décadas.
A morte do fundador em 2020
Nevaldo Rocha morreu em 17 de junho de 2020, na residência dele em Natal, aos 91 anos.
Ele era viúvo e deixou três filhos, Flávio, Lisiane e Élvio Rocha, além de netos e bisnetos. Flávio Rocha ocupou a presidência do grupo e depois assumiu a presidência do conselho de administração.
Em nota divulgada na ocasião, a companhia destacou a trajetória de superação do fundador e o papel dele como incentivador do empreendedorismo. Ele era avesso a entrevistas, característica que deixou lacunas na própria biografia e que explica por que boa parte das informações sobre ele circula por meio de comunicados institucionais.
De uma loja de tecido a um parque industrial
O que separa 1947 de hoje é uma sequência de decisões que ampliaram o alcance do negócio a cada etapa. Comerciar tecido, passar a costurar a peça, formalizar a marca, comprar a rede de lojas e depois financiar a compra do próprio consumidor.
Cada um desses movimentos incorporou uma parte da cadeia que antes pertencia a outra empresa. E tudo isso começou com um adolescente que deixou a escola aos 12 anos e foi vender relógio para militares porque precisava trabalhar.
E você, conhece alguma história de negócio que começou pequeno assim na sua cidade? Acha que trajetórias como essa ainda são possíveis hoje ou que a barreira de entrada no varejo ficou alta demais? Conta nos comentários o negócio mais improvável que você já viu dar certo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

