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Ela virou manicure para pagar a faculdade e comprou a passagem do pai para ele ver a formatura, e foi justamente essa viagem que levou um juiz a conhecer a história por trás do pedido de aposentadoria negado ao lavrador e a eternizar a luta dos dois nos autos da Justiça
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 04/08/2026 às 07:37
Curiosidades
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A audiência aconteceria presencialmente em abril de 2024, mas o advogado avisou que o autor participaria por videoconferência porque estava em São Paulo. O motivo da viagem só apareceu durante a sessão. Dois anos depois, a filha procurou o magistrado para agradecer pessoalmente.
A formatura em Direito de Janieli Gomes, filha de um trabalhador rural de Santana do Ipanema, no sertão de Alagoas, acabou entrando na sentença que garantiu a aposentadoria por incapacidade negada ao pai dela pelo Instituto Nacional do Seguro Social, conforme reportagem publicada pelo portal Metrópoles. O magistrado responsável foi o juiz federal Francisco Guerrera Neto.
O reencontro entre os dois aconteceu na semana anterior à publicação da reportagem, em Maceió, quando ela procurou o juiz para agradecer. Ela guarda até hoje a sentença impressa, e afirma que aquelas palavras a acompanham ao longo da carreira.
A audiência que deveria ser comum
O processo tratava de um pedido de aposentadoria por incapacidade, negado pelo instituto previdenciário a José Hilton Firmino Gomes. A perícia médica da Justiça já havia reconhecido a incapacidade para o trabalho.
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O que faltava comprovar era outra coisa: a condição de lavrador. Por isso o juiz marcou uma audiência presencial, em abril de 2024, com o objetivo de verificar se o autor realmente exercia atividade rural.
Dias antes da data marcada, porém, o advogado comunicou que o cliente participaria por videoconferência, porque estava em São Paulo. O magistrado registrou ter estranhado a informação, já que não é comum encontrar um agricultor do sertão alagoano na capital paulista às vésperas de uma audiência.
O motivo da viagem que ninguém esperava
A explicação apareceu durante a própria sessão. O trabalhador havia viajado para assistir à colação de grau da filha, que acabara de concluir a faculdade de Direito.
Foi a partir dessa informação que a audiência mudou de natureza. Em vez de se limitar à verificação da atividade rural, o magistrado passou a ouvir a trajetória que levara aquele homem até ali.
O relato apresentado por ele expõe o ponto de partida. Ele precisou interromper os estudos aos 8 anos para ajudar a família na lavoura, e desde então trabalhou em agricultura familiar. A filha esteve ao lado dele nesse trabalho desde pequena, plantando milho e feijão.
As condições em que a família vivia
Janieli também prestou depoimento na audiência, sentada ao lado do pai, e descreveu a rotina da casa em termos objetivos.
Segundo o relato dela, viviam de forma muito simples, sem água encanada, sem acesso à internet e sem itens que boa parte das pessoas considera básicos. O que sustentava a rotina era trabalho, honestidade e fé.
Essa descrição não é detalhe emocional, é contexto material. Ausência de água encanada e de internet em uma casa com estudante em idade escolar define o tamanho do obstáculo, porque atinge diretamente a possibilidade de estudar, pesquisar e acompanhar conteúdo fora da sala de aula.
A mudança aos 16 anos e o trabalho como manicure
O ponto de virada na trajetória dela aconteceu quando completou 16 anos. Foi quando pediu ao pai para tentar a vida em São Paulo, e recebeu apoio dele para a mudança.
Na capital paulista, ela passou a trabalhar como manicure para custear a faculdade. Não houve financiamento estudantil mencionado, bolsa citada nem qualquer outra fonte de custeio informada na apuração: o curso foi bancado com a renda do próprio trabalho.
Depois de concluído o curso, veio o gesto que fecha o círculo da história. Foi ela quem pagou a passagem para que o pai pudesse assistir à colação de grau, e é essa viagem que explica por que ele estava em São Paulo no dia da audiência.
O que o juiz escreveu na sentença
A aposentadoria foi concedida, mas o magistrado avaliou que a história merecia um registro que fosse além da conclusão jurídica. Ele então incluiu a trajetória de pai e filha no próprio texto da decisão, nos autos do processo.
No trecho, ele destaca que se tratava de um agricultor sertanejo de simplicidade e trabalho árduo notáveis, e afirma ter ficado tocado ao ouvir sobre a conquista da filha. Registra que, além das batalhas enfrentadas nos campos áridos do sertão, ele construiu bases sólidas para o futuro da família.
O texto segue com parabéns ao autor do processo pela conquista da filha e homenagem a ela pela batalha vencida, que o magistrado avalia ter sido marcada por sacrifício e abdicações. Ele encerra desejando sucesso na carreira e manifestando torcida para que, caso ela escolha a magistratura federal, um dia ocupe a cadeira em que ele estava sentado, na região de origem dela. A sentença faz ainda uma comparação com outra mulher nascida no mesmo município alagoano, referência a uma atleta brasileira reconhecida internacionalmente.
Dois anos depois, o reencontro em Maceió
O desfecho aconteceu quando o juiz já atuava em outra vara federal, em Maceió. Ele recebeu a ligação de um colega que ocupava sua antiga lotação, informando que uma moça chamada Janieli havia aparecido procurando por ele na semana anterior.
Ela estava em Alagoas visitando familiares durante as férias e queria conhecer pessoalmente o magistrado. Ele pegou o telefone deixado por ela e marcou o encontro para o dia seguinte, recebendo a no próprio gabinete.
No encontro, ela contou que guarda a sentença impressa e que fazia questão de agradecer pessoalmente. Segundo o relato dela, o que mais marcou foi haver espaço, no meio dos fatos do processo, para enxergar o ser humano por trás dos autos.
A leitura que o magistrado faz do próprio trabalho
A avaliação apresentada pelo juiz sobre o episódio trata da distância entre o processo como documento e a vida que ele representa.
Ele observa que os processos chegam ao gabinete identificados por números, classes processuais e documentos, e que precisam ser analisados com técnica, imparcialidade e rigor jurídico. Mas acrescenta que sempre existe uma vida inteira por trás daqueles autos.
A conclusão dele reconhece o peso dessa responsabilidade nos dois sentidos. Algumas decisões deixam marcas que ultrapassam o processo, às vezes para quem é julgado, às vezes para quem julga, formulação que resume por que ele lembrou da audiência assim que ouviu o nome dela ao telefone.
Por que casos de aposentadoria rural chegam à Justiça
Assista o vídeo
Vale um registro sobre o pano de fundo desse tipo de processo, que se repete com frequência. Trabalhadores rurais em regime de economia familiar costumam não ter registro formal correspondente a todo o período trabalhado.
Isso transforma a comprovação de atividade rural em etapa central desses pedidos, e é justamente onde muitos são indeferidos na esfera administrativa. Documentos, testemunhos e depoimento pessoal passam a ser o material disponível para demonstrar o que a carteira de trabalho não registra.
Foi exatamente esse o ponto que a audiência de abril de 2024 se destinava a verificar. A incapacidade já estava reconhecida por perícia; faltava provar a vida inteira na roça, e foi ao contar essa vida que a história tomou o rumo que tomou.
Uma passagem de avião que mudou a audiência
O que essa história tem de mais improvável não é o gesto do juiz nem a formatura em si. É a coincidência que colocou as duas coisas no mesmo lugar.
Se a colação de grau tivesse ocorrido em outra semana, o trabalhador estaria em Alagoas, a audiência seria presencial e provavelmente teria se limitado à verificação da atividade rural. A viagem, comprada com dinheiro de manicure, foi o que trouxe a história para dentro do processo.
E você, acha que decisão judicial deve se limitar à técnica ou pode registrar a história das pessoas envolvidas? Conhece alguém que teve aposentadoria rural negada e desistiu de recorrer? Conta nos comentários o maior sacrifício que alguém da sua família fez para colocar você onde está.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

