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Primeiro carro elétrico capaz de mergulhar a 10 metros de profundidade, sQuba levava dois ocupantes, rodava no asfalto, navega como barco e desafiou os limites da engenharia automotiva
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 04/08/2026 às 20:09
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Rinspeed sQuba rodava a mais de 120 km/h, navegava, mergulhava a 10 metros e mantinha dois ocupantes respirando por tanques de ar comprimido.
Em 2008, a empresa suíça Rinspeed apresentou uma máquina capaz de realizar três funções completamente diferentes. O sQuba podia circular no asfalto como um esportivo elétrico, movimentar-se na superfície da água e mergulhar com dois ocupantes até uma profundidade declarada de dez metros.
O protótipo possuía cinco sistemas elétricos de propulsão, baterias de íons de lítio, dois propulsores traseiros para navegação e dois jatos direcionais dianteiros para controlar o deslocamento submerso. A cabine permanecia aberta e era inundada durante o mergulho, enquanto motorista e passageiro respiravam por um sistema integrado de ar comprimido.
Rinspeed sQuba transformou fantasia cinematográfica em veículo funcional
A inspiração surgiu de um automóvel submersível apresentado em um filme de espionagem lançado em 1977. Na produção cinematográfica, diferentes efeitos, modelos e equipamentos separados foram utilizados para criar a impressão de que um carro esportivo entrava no mar e continuava a viagem sob a água.
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Frank M. Rinderknecht, fundador da Rinspeed, passou aproximadamente três décadas imaginando uma forma de transformar aquela ideia em uma máquina funcional.
O resultado foi apresentado mundialmente no Salão do Automóvel de Genebra, realizado entre 6 e 16 de março de 2008.
A empresa descreveu o sQuba como o primeiro automóvel real capaz de se deslocar em terra, na superfície e submerso. Diferentemente de veículos militares que avançam apoiados no fundo, o protótipo foi projetado para controlar sua trajetória dentro da água, sem depender do contato permanente das rodas com o solo.
Protótipo elétrico usava carroceria inspirada no Lotus Elise
A estrutura visual do sQuba foi inspirada no Lotus Elise, esportivo conhecido pelo baixo peso e pela construção compacta.
A empresa suíça de engenharia Esoro ficou responsável pelo gerenciamento, desenvolvimento técnico, desenho, aplicação das novas tecnologias e fabricação do veículo.
O motor a combustão foi retirado e substituído por diferentes conjuntos elétricos. A transformação não consistiu apenas em impermeabilizar um carro existente, pois foi necessário integrar propulsão terrestre, movimentação aquática, baterias, tanques de ar, controles submersíveis e materiais resistentes à água salgada.
Da definição inicial do conceito até a construção completa, o trabalho levou aproximadamente seis meses. O projeto reuniu uma rede de empresas especializadas em engenharia, suspensão, pneus, instrumentos, equipamentos de mergulho, materiais compostos e propulsão aquática.
Carro de 920 quilos alcançava mais de 120 km/h no asfalto
O sQuba media 3,785 metros de comprimento, 1,94 metro de largura e 1,117 metro de altura. A distância entre os eixos era de 2,30 metros, enquanto a distância livre em relação ao solo chegava a 130 milímetros.
Mesmo carregando equipamentos para três ambientes diferentes, seu peso vazio declarado era de aproximadamente 920 quilos.
A estrutura combinava elementos de alumínio e aço, enquanto partes da carroceria utilizavam materiais compostos de alta tecnologia.
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Em terra, o protótipo podia superar 120 km/h. A tração era traseira e o sistema de seleção possuía três posições básicas: marcha à frente, neutro e ré. A Rinspeed não desenvolveu o sQuba como um carro de produção ou como um veículo para uso cotidiano, mas como demonstração experimental de engenharia.
Motor elétrico entregava 54 kW e 160 Nm de torque
O sistema responsável pelo deslocamento no asfalto entregava potência máxima de 54 kW, atingida a 4.500 rotações por minuto. O torque declarado era de 160 Nm, disponível a 1.500 rotações por minuto.
Convertendo os 54 kW para a unidade mais utilizada no mercado brasileiro, a potência correspondia a aproximadamente 73,4 cv. O cálculo considera que cada quilowatt equivale a cerca de 1,3596 cavalo-vapor:
54 kW × 1,3596 = aproximadamente 73,4 cv.
O número parece modesto diante de esportivos modernos, mas precisava movimentar menos de uma tonelada. A proposta do projeto também não era estabelecer recordes de aceleração, e sim demonstrar que o mesmo veículo poderia operar com propulsão elétrica em três condições completamente distintas.
Cinco propulsores elétricos assumiam funções diferentes
O sistema possuía três motores na região traseira. Um deles movimentava as rodas durante a condução terrestre, enquanto os outros dois acionavam hélices destinadas à navegação e ao deslocamento submerso.
Os dois propulsores traseiros usados na água entregavam 800 watts cada, totalizando 1.600 watts. Na região dianteira, dois jatos aquáticos Rotinor desenvolviam 3,6 kW cada, alcançando potência combinada de 7,2 kW.
Esses jatos dianteiros podiam alterar a direção do fluxo de água e auxiliar o controle da trajetória. Entradas especiais eram abertas e fechadas por aletas móveis, permitindo que o conjunto recebesse a água necessária para alimentar os propulsores.
sQuba navegava e depois deixava a água invadir a cabine
Ao entrar na água, o sQuba inicialmente permanecia flutuando. Nessa condição, podia navegar pela superfície usando os propulsores instalados na traseira, alcançando velocidade superior a 6 km/h.
Para começar a descida, a cabine aberta era inundada propositalmente. A entrada da água reduzia o efeito de flutuação produzido pelo ar preso no interior e permitia que o veículo seguisse para o ambiente submerso.
Debaixo da água, a velocidade declarada era superior a 3 km/h. Embora pareça baixa quando comparada ao desempenho no asfalto, o objetivo era preservar controle, estabilidade e segurança em um meio muito mais denso e resistente ao movimento.
Profundidade máxima declarada chegava a dez metros
O limite operacional divulgado pela Rinspeed era de dez metros de profundidade. Instrumentos, comandos e componentes expostos foram preparados para funcionar nessa condição e resistir ao contato com água salgada.
A marca afirmava que o sQuba conseguia realizar uma espécie de deslocamento controlado dentro da água, em vez de simplesmente rolar lentamente sobre o fundo. Os propulsores dianteiros e traseiros permitiam controlar avanço, direção e profundidade.
A capacidade de mergulho permanecia limitada a demonstrações organizadas e supervisionadas. O sQuba era um protótipo único, não um automóvel homologado para que proprietários entrassem livremente em lagos ou oceanos.
Ocupantes respiravam por dois reservatórios de ar comprimido
Como a cabine ficava completamente inundada, motorista e passageiro utilizavam um sistema de respiração semelhante ao empregado por mergulhadores. A ficha técnica registra dois reservatórios de ar, um com 15 litros e outro com 18 litros.
Mangueiras ligavam o sistema aos bocais utilizados pelos ocupantes. Dessa maneira, não era necessário manter uma bolha de ar dentro da cabine, solução que aumentaria drasticamente a força de flutuação.
A Rinspeed não divulgou na ficha técnica consultada um tempo fixo de permanência submersa. A duração dependeria da pressão dos tanques, do consumo dos ocupantes, da profundidade e das condições do mergulho.
Cabine aberta foi escolhida por segurança e controle de flutuação
Construir uma cabine fechada e completamente pressurizada pareceria a solução mais confortável, mas criaria dois problemas. Em uma emergência, a pressão externa poderia dificultar ou impedir a abertura das portas, deixando os ocupantes presos.
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A segunda dificuldade estava no ar acumulado dentro do habitáculo. A Rinspeed calculou que uma cabine fechada contendo apenas dois metros cúbicos de ar exigiria aproximadamente duas toneladas adicionais de peso para neutralizar a flutuação indesejada.
Com esse acréscimo, o automóvel perderia grande parte da leveza e do desempenho terrestre. Por isso, a equipe adotou uma carroceria aberta, permitindo que a água entrasse e equilibrasse o conjunto durante a descida.
Veículo subia sozinho se os ocupantes saíssem
O projeto foi configurado para retornar naturalmente à superfície quando estivesse sem seus ocupantes. A ausência das pessoas reduzia o peso total e fazia a flutuação superar a força que mantinha o protótipo submerso.
Esse comportamento representava uma camada adicional de segurança, mas não transformava a operação em algo livre de riscos. Conduzir um veículo sob a água envolvia equipamentos especializados, suporte externo e condições controladas.
A abertura completa da cabine também permitia que motorista e passageiro deixassem rapidamente os assentos em uma emergência, sem depender de portas seladas, travas ou mecanismos capazes de falhar sob pressão.
Baterias de íons de lítio alimentavam todos os sistemas
Toda a energia vinha de baterias recarregáveis de íons de lítio. A ficha técnica registra seis conjuntos com tensão nominal de 48 volts, responsáveis por alimentar a tração terrestre e os sistemas de propulsão aquática.
Não havia motor a gasolina, diesel ou outro propulsor a combustão. Por esse motivo, o sQuba não liberava gases de escapamento durante seu funcionamento, característica especialmente importante para uma máquina destinada a entrar em ambientes aquáticos.
A fabricante também empregou lubrificantes e graxas rapidamente biodegradáveis. O objetivo era reduzir o impacto causado por um eventual contato desses produtos com a água durante testes e apresentações.
Protótipo antecipou condução autônoma com sensor a laser
Além de mergulhar, o sQuba conseguia realizar deslocamentos autônomos em terra. Um sistema de sensor a laser desenvolvido pela empresa alemã Ibeo identificava o ambiente e permitia que o protótipo avançasse sem intervenção direta do motorista.
O recurso foi apresentado em 2008, anos antes de sensores semelhantes se tornarem parte central do desenvolvimento de veículos autônomos e sistemas avançados de assistência à condução.
A tecnologia experimental não correspondia ao nível de automação atualmente definido por normas internacionais. Ainda assim, mostrava que a Rinspeed pretendia reunir no mesmo veículo eletrificação, mobilidade anfíbia e condução automatizada.
Suspensão, rodas e pneus também foram modificados
Para circular no asfalto, o sQuba utilizava suspensão ajustável de alumínio desenvolvida pela KW Automotive. O conjunto adotava braços triangulares duplos nos eixos dianteiro e traseiro, além de direção por pinhão e cremalheira.
Na dianteira, eram usados pneus Pirelli P Zero na medida 205/40 R17, montados em rodas de 17 polegadas. A traseira recebia pneus 225/40 R18 e rodas de 18 polegadas.
As rodas precisavam combinar baixo peso e resistência à corrosão provocada pela água salgada. Tratamentos de superfície e processos especiais de pintura foram utilizados para ampliar a durabilidade dos componentes.
Interior resistia à água salgada e mantinha comandos operacionais
O habitáculo utilizava materiais selecionados para suportar a imersão. O acabamento incluía elementos resistentes à água salgada, superfícies antiderrapantes e detalhes inspirados em escamas, pele de tubarão e formas encontradas no ambiente marinho.
O quadro de instrumentos possuía estrutura de alumínio impermeável e resistente à água salgada até a profundidade projetada de dez metros. Os comandos podiam ser acionados mesmo quando os ocupantes estivessem usando luvas de mergulho.
Os bancos também precisavam impedir que os corpos deslizassem durante os movimentos aquáticos. Materiais com maior atrito foram incorporados ao revestimento para manter motorista e passageiro posicionados.
sQuba nunca foi colocado em produção comercial
Apesar de funcionar, o sQuba permaneceu como um carro-conceito. A Rinspeed não anunciou produção em série, preço de venda ou planos para homologar o modelo para circulação e mergulho público.
A complexidade ajudava a explicar essa condição. Um veículo comercial precisaria atender simultaneamente a regras automotivas, exigências ambientais, normas de navegação, segurança elétrica, resistência à água e protocolos aplicáveis a equipamentos de mergulho.
O projeto cumpriu outra função: mostrar que uma ideia considerada cinematográfica podia ser transformada em engenharia funcional. Seus números não eram simbólicos. O protótipo realmente rodava, navegava e mergulhava com dois ocupantes.
Carro submersível permanece como uma das criações mais surreais da indústria
O sQuba reuniu em uma única estrutura características normalmente encontradas em três máquinas diferentes. No asfalto, funcionava como um esportivo elétrico de aproximadamente 73 cv e 920 quilos. Na água, utilizava hélices para navegar. Submerso, acionava jatos direcionais e mantinha os ocupantes respirando por ar comprimido.
O resultado foi um veículo de 3,785 metros que superava 120 km/h em terra, avançava a mais de 6 km/h na superfície, alcançava mais de 3 km/h debaixo da água e podia descer até dez metros.
Mesmo sem chegar às concessionárias, o protótipo tornou-se uma demonstração radical das possibilidades abertas pela propulsão elétrica.
Ao eliminar o motor a combustão e separar as funções entre diferentes propulsores, a Rinspeed construiu uma máquina capaz de trocar o asfalto pelo fundo da água sem abandonar seus dois ocupantes.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

