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Filha de empregada doméstica que saiu do interior do Maranhão em busca de trabalho no Rio de Janeiro, aprendeu francês praticamente sozinha, foi aprovada em quatro universidades e deixou o Brasil para estudar na prestigiada Sciences Po Rennes, na França
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 05/08/2026 às 16:25
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Nascida no interior do Maranhão e criada pela avó enquanto a mãe trabalhava como empregada doméstica no Rio de Janeiro, Thâmara Ferreira estudou em escolas públicas, aprendeu francês de forma autônoma, entrou na UERJ e mobilizou centenas de pessoas para realizar um intercâmbio na Sciences Po Rennes.
Thâmara Ferreira nasceu em Cedral, no interior do Maranhão, e passou parte da infância longe da mãe, que precisou se mudar para o Rio de Janeiro em busca de trabalho como empregada doméstica. Criada pela avó entre os 5 e os 10 anos, ela encontrou nos estudos uma possibilidade de construir um futuro diferente.
A jovem estudou em escolas públicas, preparou-se durante longos períodos por conta própria e foi aprovada em Relações Internacionais na UERJ, na UFF e na PUC-Rio, além de conquistar uma vaga em História na UFJF. Anos depois, aprendeu francês, participou de uma seleção internacional e recebeu uma carta de aceite da Sciences Po Rennes.
Infância de Thâmara Ferreira começou no interior do Maranhão
Thâmara nasceu em Cedral, município localizado no litoral ocidental do Maranhão. Na campanha criada por ela para financiar o intercâmbio, a estudante contou que sempre gostou de aprender, mesmo tendo crescido em uma família com poucos recursos financeiros.
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Quando tinha 5 anos, sua mãe deixou o Maranhão e seguiu para o Rio de Janeiro para trabalhar como empregada doméstica. Sem condições de levar a filha naquele momento, a mãe solo precisou deixá-la sob os cuidados da avó.
Thâmara permaneceu com a avó até os 10 anos. Essa separação não aconteceu por falta de cuidado, mas pela necessidade de garantir renda e preparar melhores condições para que mãe e filha pudessem viver juntas novamente.
Mudança para Teresópolis ampliou o acesso à educação
Aos 10 anos, Thâmara deixou o Maranhão e foi morar com a mãe em Teresópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro. A mudança colocou a menina em contato com novas oportunidades educacionais, embora a família ainda enfrentasse limitações financeiras.
Foi durante as aulas de História de uma escola pública que ela começou a imaginar a possibilidade de frequentar uma universidade. Até então, o ensino superior parecia uma realidade distante para uma jovem criada por uma trabalhadora doméstica.
O interesse por História, política e relações entre diferentes países ajudou a direcionar sua escolha profissional. Aos poucos, o sonho deixou de ser apenas entrar em uma faculdade e passou a envolver uma formação na área de Relações Internacionais.
Escolas públicas fizeram parte de toda a formação básica
Thâmara realizou sua formação escolar na rede pública. Sem acesso permanente a cursos caros ou a uma preparação particular, ela precisou organizar os próprios horários e encontrar maneiras de estudar com os recursos disponíveis.
Assista o vídeo
Na descrição da campanha, a jovem afirmou que estudava durante o dia e à noite, boa parte do tempo sozinha. A rotina exigia disciplina porque a aprovação em universidades públicas dependia de provas disputadas por milhares de candidatos.
A educação era tratada por ela como o principal caminho para mudar sua realidade. O esforço não estava ligado apenas à conquista de um diploma, mas à possibilidade de ampliar suas escolhas profissionais e alcançar espaços que pareciam distantes durante a infância.
Jovem foi aprovada em quatro universidades
Ao concluir o ensino médio, Thâmara foi aprovada em Relações Internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, na Universidade Federal Fluminense e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Ela também conquistou uma vaga em História na Universidade Federal de Juiz de Fora.
A campanha criada pela estudante cita diretamente essas quatro instituições. Uma reportagem publicada na época apresentou o resultado como cinco aprovações, mas a relação detalhada escrita por Thâmara identifica quatro universidades e dois cursos diferentes.
Ela escolheu cursar Relações Internacionais na UERJ. Em 2015, ano de seu ingresso, a graduação estava entre as mais concorridas da universidade, com uma relação informada de 32,88 candidatos para cada vaga.
Mudança para o Rio aconteceu aos 18 anos
Thâmara tinha 18 anos quando deixou Teresópolis e se mudou sozinha para a cidade do Rio de Janeiro. A decisão era necessária para frequentar as aulas da UERJ e participar de maneira mais completa da vida universitária.
A mudança representou uma nova separação da família e o início de uma rotina marcada por estudos, deslocamentos e procura por oportunidades acadêmicas. A jovem precisava administrar as responsabilidades de morar sozinha enquanto acompanhava um curso exigente.
A entrada na universidade pública também mudou suas referências. Thâmara passou a ter contato com pesquisa, projetos de extensão, programas de desenvolvimento profissional e possibilidades de intercâmbio que não faziam parte de sua realidade anterior.
UERJ abriu portas para pesquisa e trabalho voluntário
Durante a graduação, Thâmara participou da empresa júnior do curso de Relações Internacionais. A experiência permitiu que ela conhecesse atividades profissionais ligadas à gestão de projetos e ao funcionamento de organizações.
Ela também realizou trabalho voluntário na Cruz Vermelha. A estudante colaborou com um programa ligado ao restabelecimento de laços familiares de pessoas que haviam perdido contato com parentes em consequência de guerras e desastres.
Thâmara ainda participou de um programa de desenvolvimento de carreira voltado a universitários em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Essas atividades ampliaram sua formação para além das disciplinas regulares da graduação.
Bolsa de iniciação científica ajudou a pagar o curso de francês
A jovem recebeu uma bolsa de iniciação científica e trabalhou durante dois anos em uma pesquisa sobre política externa e integração regional. O auxílio financeiro trouxe uma pequena renda e também fortaleceu seu currículo acadêmico.
Ancienne étudiante internationale – sciencespo
Antes de conseguir pagar aulas, Thâmara já estudava francês de maneira autônoma. Ela utilizava os recursos que encontrava para aprender vocabulário, gramática e pronúncia sem depender inicialmente de uma escola de idiomas.
Com parte do dinheiro da bolsa, conseguiu finalmente pagar um curso. O domínio do idioma era essencial porque seu objetivo havia se transformado: além de concluir a graduação no Brasil, ela queria estudar em uma instituição francesa.
Carta de aceite da Sciences Po Rennes chegou em 2018
Em 20 de novembro de 2018, Thâmara recebeu a carta que confirmava sua seleção para estudar durante um ano na Sciences Po Rennes. Ela entraria como estudante internacional por meio de um programa de intercâmbio acadêmico.
A instituição francesa confirmou posteriormente que Thâmara iniciou o intercâmbio em janeiro de 2019. Segundo o perfil oficial, a oportunidade exigiu bom desempenho acadêmico, preparação anterior e uma campanha de financiamento coletivo.
Assista o vídeo
Depois de aproximadamente três anos estudando francês, a estudante teria a oportunidade de usar o idioma diariamente e acompanhar aulas ministradas na língua. A viagem também seria sua primeira experiência fora do Brasil.
Falta de dinheiro quase impediu a viagem para a França
A aprovação acadêmica não resolvia os custos necessários para deixar o país. Thâmara precisava comprar a passagem, emitir o visto, pagar documentos, cumprir taxas obrigatórias e garantir dinheiro para as primeiras semanas na França.
Sem condições de pagar tudo sozinha, ela lançou uma campanha de financiamento coletivo em novembro de 2018. A meta foi estabelecida em R$ 22 mil, valor calculado para cobrir a viagem, a documentação e o início da permanência no exterior.
Na apresentação da campanha, Thâmara explicou que pretendia procurar trabalho depois de chegar à França. A ajuda seria necessária principalmente para permitir a partida e evitar que a falta de dinheiro anulasse a vaga conquistada.
Campanha superou a meta de R$ 22 mil
A mobilização recebeu contribuições de 271 apoiadores. Ao final, a campanha arrecadou R$ 23.050, ultrapassando em R$ 1.050 o valor inicialmente solicitado pela estudante.
A divulgação ganhou força depois que professores, amigos e veículos jornalísticos compartilharam a trajetória. Thâmara também publicou um vídeo explicando sua origem, suas dificuldades e a importância acadêmica do intercâmbio.
O financiamento coletivo transformou a aprovação em uma viagem possível. A vaga havia sido conquistada por seu desempenho, mas a participação dos apoiadores foi decisiva para superar a barreira econômica que permanecia depois da seleção.
Intercâmbio começou em janeiro de 2019
Thâmara chegou à Sciences Po Rennes em janeiro de 2019 e permaneceu na França durante o ano acadêmico. O programa permitia que estudantes internacionais escolhessem disciplinas de diferentes etapas da instituição.
A estudante também participou de aulas de francês organizadas desde o começo do período. O contato diário com professores, alunos estrangeiros e moradores de Rennes ajudou a aperfeiçoar o idioma aprendido inicialmente de maneira autônoma.
Durante a permanência na cidade, Thâmara trabalhou como garçonete em um bar. Além da experiência profissional, o emprego ampliou o contato com a língua francesa e com pessoas de diferentes lugares.
Experiência na França mudou os planos profissionais
Segundo a Sciences Po Rennes, o intercâmbio aumentou a confiança de Thâmara e despertou o desejo de retornar à França para continuar os estudos. A passagem pela instituição tornou-se uma etapa importante de sua formação acadêmica.
Depois de voltar ao Brasil, ela concluiu o bacharelado em Relações Internacionais na UERJ. Seu trabalho final analisou os discursos de atores políticos franceses sobre o Mercosul.
A formação iniciada em uma escola pública de Teresópolis passou a incluir uma universidade estadual brasileira e uma instituição francesa. O intercâmbio deixou de ser apenas uma experiência temporária e abriu o caminho para uma nova etapa internacional.
Thâmara retornou à França para fazer mestrado
Após concluir a graduação, Thâmara foi aceita em um programa de mestrado da Escola de Gestão e Impacto da Sciences Po Paris. Ela estudou Marketing e Sociedade e concluiu a formação na instituição francesa.
O novo curso aprofundou temas relacionados a marketing, responsabilidade social, sustentabilidade e impacto das empresas. A trajetória acadêmica passou, assim, das Relações Internacionais para uma atuação ligada à comunicação e à transformação social.
A volta à França mostrou o efeito concreto do primeiro intercâmbio. A oportunidade financiada por centenas de pessoas em 2018 ajudou a criar as condições acadêmicas e pessoais para que ela retornasse ao país anos depois.
Experiência profissional alcançou grandes empresas
O perfil publicado pela Sciences Po Rennes informa que Thâmara trabalhou na área de marketing operacional da L’Oréal Brasil antes do intercâmbio. Depois de retornar ao país, passou pela Coca-Cola em atividades de marca e marketing.
Em 2021, ela voltou à França e realizou parte do mestrado em um programa de trabalho e estudos na Fundação Schneider Electric. Suas funções incluíam comunicação e contato com representantes da organização em dezenas de países.
A jovem que começou a estudar francês sozinha passou a usar o idioma na universidade e no ambiente profissional. Sua trajetória mostra como a formação pública, a pesquisa acadêmica e o intercâmbio podem se conectar a oportunidades internacionais.
Trajetória começou com o esforço de uma mãe trabalhadora
A mudança de vida de Thâmara não começou na universidade francesa. Ela teve início quando sua mãe deixou Cedral e viajou para o Rio de Janeiro para trabalhar, mesmo sabendo que precisaria permanecer alguns anos longe da filha.
O trabalho doméstico sustentou o começo dessa trajetória, enquanto a avó assumiu os cuidados durante a infância. Mais tarde, a escola pública de Teresópolis apresentou à jovem a possibilidade de entrar em uma universidade.
Anos de estudo permitiram que Thâmara entrasse na UERJ, aprendesse outro idioma e chegasse à Sciences Po Rennes. A falta de dinheiro quase interrompeu o caminho, mas a campanha superou a meta e transformou a seleção acadêmica em uma experiência real.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

