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Carroceiro desde os 12 anos, homem que abandonou a escola após repetir cinco vezes só concluiu a alfabetização aos 28, passou mais de uma década recolhendo recicláveis enquanto estudava e realizou aos 47 o sonho improvável de se formar em Direito
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 05/08/2026 às 18:46
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Rônei Alves da Silva começou a trabalhar como carroceiro aos 12 anos, retomou os estudos aos 28, concluiu Direito depois de mais de uma década e recebeu a carteira da OAB para defender os trabalhadores da reciclagem.
Rônei Alves da Silva começou a trabalhar ainda na infância, deixou a escola depois de sucessivas reprovações e chegou à vida adulta sem ter concluído o ensino fundamental. Aos 28 anos, enquanto já trabalhava com materiais recicláveis, decidiu voltar à sala de aula e reconstruir uma trajetória interrompida pelas dificuldades sociais e educacionais.
Mais de uma década depois de entrar na faculdade, o antigo carroceiro e catador concluiu o curso de Direito aos 47 anos. Em 2025, a história ganhou um novo capítulo: depois de ter sido reprovado por apenas 0,25 ponto na segunda fase do Exame da Ordem, ele persistiu, foi aprovado e recebeu a carteira profissional da OAB do Distrito Federal.
Rônei Alves da Silva começou a trabalhar como carroceiro aos 12 anos
Rônei nasceu em maio de 1974, em Teresina, no Piauí. Ele é o segundo de três filhos de Luiza Alves da Silva, que trabalhava como empregada doméstica para sustentar a família.
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Ainda criança, mudou-se para Ceilândia, no Distrito Federal. Aos 12 anos, já trabalhava como carroceiro, retirando entulho de obras e transportando materiais de construção pelas ruas da região.
A renda era pequena e parte do valor ficava com os estabelecimentos que ofereciam o serviço. Segundo o relato dado por ele ao Estadão, o dinheiro recebido muitas vezes mal cobria a alimentação e os cuidados com o cavalo usado no trabalho.
Reprovações e dificuldades afastaram Rônei da escola
Durante a infância e a adolescência, Rônei conseguiu avançar somente até a antiga 5ª série. Depois de repetir o ano escolar cinco vezes, abandonou os estudos acreditando que não tinha capacidade para aprender.
Anos mais tarde, ele descobriu que tinha dislexia e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, o TDAH. As duas condições ajudavam a explicar parte das dificuldades de concentração e aprendizagem que enfrentou na escola.
Sem diagnóstico e sem acompanhamento adequado na infância, ele interpretava as reprovações como uma falha pessoal. A falta de apoio, somada à necessidade de trabalhar, contribuiu para que permanecesse distante da educação formal durante anos.
Trabalho informal marcou grande parte de sua juventude
Antes de entrar definitivamente no setor da reciclagem, Rônei passou por diferentes atividades. Ele serviu ao Exército, vendeu geladinhos e trabalhou como ambulante na região central de Brasília.
Esses trabalhos ajudavam a garantir renda, mas não ofereciam estabilidade ou uma carreira definida. A rotina era marcada pela necessidade de aproveitar as oportunidades disponíveis para pagar as despesas diárias.
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No começo dos anos 2000, ele passou a trabalhar com materiais recicláveis na cooperativa 100 Dimensão. O contato com outros catadores mudaria não apenas sua ocupação, mas também sua visão sobre trabalho, organização coletiva e direitos sociais.
Alfabetização aos 28 anos abriu um novo caminho
Rônei voltou a estudar enquanto trabalhava na cooperativa. Por meio da educação de jovens e adultos, concluiu inicialmente o ensino fundamental e depois avançou para o ensino médio.
A retomada aconteceu aos 28 anos, idade em que finalmente conseguiu desenvolver plenamente a alfabetização. Ele passou a compreender quais métodos ajudavam sua concentração, como sentar-se nas primeiras carteiras e reduzir as distrações ao redor.
O retorno à escola exigiu conciliar trabalho, compromissos pessoais e uma formação que deveria ter acontecido durante a infância. Mesmo com o atraso educacional, ele continuou avançando até reunir condições para tentar uma graduação.
Inscrição no vestibular foi feita por uma ex-namorada
A entrada no curso de Direito não nasceu de um planejamento acadêmico antigo. Segundo Rônei, uma ex-namorada costumava perguntar qual faculdade ele escolheria caso tivesse a oportunidade de estudar.
Ele respondeu que gostaria de fazer Direito e se tornar advogado, embora naquele momento conhecesse pouco sobre a profissão. A ex-companheira tomou a iniciativa de fazer e pagar sua inscrição no vestibular.
A aprovação abriu uma possibilidade que parecia distante para alguém que havia deixado a escola na 5ª série. Rônei ingressou na Universidade Católica de Brasília e começou uma nova etapa, ainda sem saber quanto tempo levaria para concluí-la.
Falta de dinheiro prolongou a graduação por mais de dez anos
O curso não foi concluído dentro dos cinco anos normalmente previstos para uma graduação em Direito. As dificuldades financeiras fizeram com que Rônei levasse pouco mais de uma década para chegar ao diploma.
Durante esse período, ele precisou renegociar valores com a universidade e enfrentar interrupções provocadas pela falta de recursos. Sua mãe chegou a fazer um empréstimo para ajudá-lo a manter os estudos.
A formação continuou sendo conciliada com o trabalho relacionado à reciclagem. A renda limitada precisava atender às despesas pessoais, às necessidades da família e aos custos de uma instituição de ensino particular.
Catador se tornou liderança de mais de mil trabalhadores
O trabalho na reciclagem levou Rônei a participar da organização dos catadores do Distrito Federal. Ele ajudou a fundar a Central de Cooperativas de Materiais Recicláveis do Distrito Federal e Entorno, conhecida como Centcoop-DF.
Rônei presidiu a entidade por dois mandatos, entre 2009 e 2015. A central passou a reunir cooperativas que representavam mais de mil trabalhadores ligados à coleta e à separação de materiais recicláveis.
A experiência dentro das cooperativas colocou o futuro advogado em contato direto com problemas trabalhistas, ambientais e sociais. Essa atuação também ajudou a definir as áreas nas quais ele pretendia trabalhar depois de receber a autorização para exercer a advocacia.
Contrato de R$ 21,3 milhões ajudou a criar complexo de reciclagem
Em 2013, Rônei participou da assinatura de um contrato de R$ 21,3 milhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Os recursos contribuíram para a construção do Complexo Integrado de Reciclagem do Distrito Federal.
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O projeto recebeu apoio de diferentes instituições e buscava oferecer uma estrutura mais segura para os catadores. Antes disso, muitos trabalhadores realizavam a separação dos materiais expostos à chuva, ao sol e a resíduos perigosos.
O complexo começou a funcionar no fim de 2020 com grandes galpões destinados à triagem. O projeto completo foi planejado para alcançar milhares de trabalhadores, substituindo parte das condições precárias encontradas nos antigos locais de descarte.
Diploma de Direito foi conquistado aos 47 anos
Rônei concluiu o bacharelado em Direito em 2021, quando tinha 47 anos. A formatura ocorreu depois de uma trajetória iniciada com trabalho infantil, abandono escolar e alfabetização tardia.
O diploma representava uma conquista acadêmica, mas ainda não permitia o exercício completo da advocacia. Para atuar como advogado, ele precisava ser aprovado no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil.
Na primeira tentativa mencionada publicamente, Rônei passou pela etapa inicial da prova. Na segunda fase, formada por questões discursivas e uma peça profissional, ficou abaixo da nota necessária por apenas 0,25 ponto.
Reprovação por 0,25 ponto não encerrou o projeto
A diferença pequena poderia ter encerrado uma trajetória que já havia exigido mais de dez anos de graduação. Rônei, porém, decidiu continuar estudando para tentar novamente o exame profissional.
A reprovação aconteceu depois de ele ter vencido barreiras ainda maiores, como o atraso na alfabetização e a dificuldade para pagar a faculdade. O resultado passou a ser tratado como mais uma etapa, e não como o fim do projeto.
Em 2025, a OAB do Distrito Federal confirmou que ele havia superado o exame e estava autorizado a exercer a advocacia. A aprovação permitiu transformar o diploma obtido anos antes em uma nova atuação profissional.
Carteira da OAB foi entregue em julho de 2025
Rônei recebeu sua carteira profissional em uma solenidade realizada pela OAB-DF em 22 de julho de 2025. A credencial foi entregue pelo presidente da entidade no Distrito Federal, Paulo Maurício Siqueira.
Durante a cerimônia, ele explicou que o conhecimento adquirido no curso mudou sua vida e ampliou as ferramentas disponíveis para defender os catadores. Sua intenção é atuar principalmente em temas ligados aos direitos humanos, ao meio ambiente e ao trabalho.
A mudança profissional não significou abandonar a identidade construída na reciclagem. Rônei continuou se apresentando como integrante do movimento dos catadores e declarou que pretende usar o Direito em benefício da categoria.
Novo advogado pretende defender os trabalhadores da reciclagem
A experiência de Rônei reúne situações que normalmente chegam aos escritórios de advocacia apenas por documentos. Ele viveu o trabalho infantil, a informalidade, a baixa renda, a exclusão educacional e as condições enfrentadas pelos catadores.
Com a carteira da OAB, passou a ter autorização para representar juridicamente pessoas e organizações. O objetivo anunciado é trabalhar como advogado popular, especialmente em questões ambientais e na defesa dos direitos dos profissionais da reciclagem.
A formação jurídica também pode fortalecer a participação da categoria em contratos, políticas públicas e discussões sobre coleta seletiva. O conhecimento técnico passa a se unir à experiência prática acumulada em décadas de trabalho e mobilização.
História une educação, reciclagem e organização coletiva
A trajetória não foi construída apenas dentro de uma faculdade. Antes de receber o diploma, Rônei já havia participado da criação de cooperativas, representado trabalhadores e ajudado a viabilizar um dos maiores projetos de reciclagem do Distrito Federal.
Sua formação levou mais tempo porque o ponto de partida era diferente daquele vivido pela maioria dos universitários. Ele precisou concluir etapas básicas da educação enquanto continuava trabalhando e procurando recursos para pagar as mensalidades.
Aos 47 anos, tornou-se bacharel em Direito. Quatro anos depois, recebeu a carteira da OAB e passou a exercer a profissão que havia escolhido quando uma ex-namorada fez, sem avisá-lo, a inscrição que mudaria sua trajetória.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

