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Dois templos de mais de 3.000 anos foram serrados em 1.035 blocos de até 30 toneladas, içados 65 metros acima de um vale prestes a virar lago e remontados peça por peça numa colina artificial ao longo de quatro anos com o dinheiro de mais de 50 países
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 06/08/2026 às 18:49
Atualizado em 06/08/2026 às 18:53
Construção
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A operação começou em 1º de abril de 1964, em Abu Simbel, no sul do Egito, e terminou em setembro de 1968. Cerca de 800 operários e 100 técnicos trabalharam no deserto. A tolerância de encaixe entre as peças remontadas era de cinco milímetros para mais ou para menos.
Serraram até o rosto dos faraós. As quatro estátuas sentadas de Ramsés II na fachada e outras seis do rei em pé foram cortadas em pedaços, junto com as paredes, o teto e os relevos, transformando dois templos escavados na rocha em 1.035 blocos de 20 a 30 toneladas cada, conforme registros da operação divulgados pela Unesco e pela agência France-Presse.
Tudo isso porque a Grande Represa de Assuã estava prestes a criar o Lago Nasser e inundar o vale. A solução foi levantar os templos 65 metros e recuá los 200 metros, remontando peça por peça sobre uma colina artificial construída para receber o conjunto.
Que templos são esses
O sítio fica em Abu Simbel, no extremo sul do Egito, a cerca de 1.120 quilômetros do Cairo. São duas construções escavadas na encosta rochosa durante o reinado de Ramsés II, no século 13 antes de Cristo, o que lhes dá mais de 3.200 anos.
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O maior é dedicado ao próprio faraó e traz na fachada quatro colossos sentados de 20 metros de altura. O interior avança 63 metros penhasco adentro. O menor é dedicado à rainha Nefertari e à deusa Hathor, e tem uma particularidade rara no Egito antigo: nele, a rainha aparece representada no mesmo tamanho do faraó. O conjunto ficou soterrado pela areia por séculos e foi reencontrado em 1813, quando apenas o topo da cabeça de um dos colossos aparecia acima das dunas.
Por que precisavam sair dali
A ameaça veio de uma obra de desenvolvimento. A construção da Grande Represa de Assuã, no rio Nilo, criaria um reservatório gigantesco, o Lago Nasser, que submergiria trechos inteiros da Núbia.
Em 1959, os governos do Egito e do Sudão pediram formalmente ajuda à Unesco. A organização lançou um apelo internacional em 1960, e diversas propostas foram apresentadas. Várias foram descartadas por custo excessivo. A alternativa escolhida foi um projeto sueco-egípcio, que previa cortar as estruturas e reconstruí las em terreno mais alto.
Como se serra um templo
O trabalho começou em 1º de abril de 1964 e a primeira etapa não teve nada de arqueológica. Foi preciso erguer uma barragem temporária para proteger o sítio da água que já subia e escavar o penhasco ao redor das duas construções.
Só depois veio o corte propriamente dito. Cada peça recebeu numeração e catalogação antes de ser separada. O material é arenito poroso, o que exigiu equipamento leve e de manuseio delicado para evitar esfarelamento. Serras de fio e ferramentas pneumáticas fizeram os cortes seguindo linhas planejadas para atravessar áreas de menor valor decorativo sempre que possível.
O içamento
Com as peças soltas, entrou a etapa de elevação. Macacos hidráulicos, guindastes e guinchos de alta potência ergueram os blocos até o topo do penhasco.
A altura ganha em relação ao ponto original aparece como 65 metros na maioria das publicações e como 64 metros no relato da agência France-Presse. O deslocamento horizontal foi de aproximadamente 200 metros em direção ao interior. No novo terreno, foi construída uma estrutura em cúpula sobre a qual as colinas artificiais foram modeladas, funcionando ao mesmo tempo como sustentação e como barreira de proteção contra o rio.
Cinco milímetros de erro permitido
A remontagem foi a etapa mais delicada de todas. Os blocos precisavam voltar exatamente às posições originais, e a tolerância de desvio admitida era de apenas cinco milímetros para mais ou para menos.
As peças foram fixadas umas às outras com barras de reforço inseridas em furos, e as juntas receberam preenchimento com material artificial para disfarçar as linhas de corte. Havia ainda uma exigência astronômica: a orientação dos templos em relação um ao outro e aos pontos cardeais tinha de ser reproduzida com precisão, para que o fenômeno solar continuasse acontecendo.
O alinhamento que não podia falhar
Esse é o detalhe que torna a operação diferente de qualquer outra mudança de monumento. Duas vezes por ano, os raios do sol atravessam a entrada do templo maior e percorrem 63 metros até iluminar as estátuas do santuário mais interno.
Reproduzir esse efeito em um terreno artificial, 65 metros acima e 200 metros atrás, era o teste final do projeto. O resultado foi considerado bem sucedido, embora publicações registrem que o fenômeno passou a ocorrer com deslocamento de aproximadamente um dia em relação às datas originais.
Quem trabalhou e quanto custou
Durante quatro anos, cerca de 800 operários e 100 técnicos atuaram no deserto sob sol intenso. Empresas de vários países forneceram equipamento e conhecimento técnico.
Sobre o custo, os números divergem. Relato da agência France-Presse, reproduzido pela Voz da América e pelo Gulf News, aponta 36 milhões de dólares. Publicações especializadas em turismo egípcio informam cerca de 40 milhões. O financiamento veio principalmente de contribuições internacionais coordenadas pela Unesco, com mais de 50 países participando, somadas a recursos do governo egípcio.
Os números que não batem
Vale registrar as divergências sobre o próprio corte. O total de 1.035 blocos aparece no relato da France-Presse, na cobertura da Voz da América e no Gulf News.
O portal Magic Egypt Tours informa 1.036. O site Geography Worlds fala em mais de 2 mil blocos, e o Egypt Fun Tours menciona milhares de peças. A faixa de peso é consistente entre as fontes que a detalham: de 20 a 30 toneladas por bloco.
O que aconteceu depois
A cerimônia de conclusão ocorreu em 22 de setembro de 1968. Na ocasião, o diretor-geral da Unesco, René Maheu, afirmou ser a primeira vez que se via cooperação internacional em ação naquela escala no campo da cultura.
O sítio original está hoje completamente submerso pelas águas do Lago Nasser. Em 1979, o conjunto foi inscrito na lista de Patrimônio Mundial da Unesco sob a designação Monumentos Núbios de Abu Simbel a File. A campanha abriu caminho para a criação do próprio programa de patrimônio mundial, e outros monumentos da mesma região, entre eles o templo de File, foram removidos no mesmo período pela mesma razão.
E você, acha que vale a pena desmontar um monumento de 3 mil anos para salvá lo? Conta aqui nos comentários o que pensa sobre esse tipo de intervenção, e diga se conhece algum patrimônio no Brasil que corre risco parecido.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

