6 min de leitura
Um farol inteiro de quase 5.000 toneladas e 60 metros de altura foi levantado da base à beira-mar, deslizou 883 metros terra adentro ao longo de 23 dias sobre trilhos de aço e parou a salvo da erosão que quase o derrubou no Atlântico
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 06/08/2026 às 18:39
Atualizado em 06/08/2026 às 18:44
Construção
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
A operação aconteceu entre 17 de junho e 9 de julho de 1999, no Cabo Hatteras, na Carolina do Norte. Quando a torre foi concluída, em 1870, o mar estava a 457 metros. No fim dos anos 1990, restavam menos de 40 metros entre a base e a arrebentação.
Ele andou cinco pés por vez, e cada empurrão levava um minuto. Foi assim, em passos de um metro e meio, que o farol do Cabo Hatteras, na Carolina do Norte, percorreu 883 metros terra adentro entre 17 de junho e 9 de julho de 1999, conforme registros do Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos.
A estrutura pesa 4.830 toneladas e mede cerca de 60 metros, sendo apontada como o farol de tijolos mais alto do país. A operação inteira levou 23 dias e não perdeu um único tijolo, segundo o balanço divulgado ao fim do projeto.
Por que foi preciso mover a torre
O motivo foi o mar. Quando a construção foi concluída, em 1870, a torre estava a aproximadamente 1.500 pés do oceano, cerca de 457 metros, distância considerada segura na época.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O Cabo Hatteras fica em uma ilha barreira, formação de areia que se desloca naturalmente com a ação das marés e das tempestades. Ao longo de mais de um século, tempestades levaram areia do lado oceânico e a depositaram do lado da baía, empurrando a linha da costa em direção à base da torre. Na década de 1930, a taxa de erosão chegou a cerca de 3,7 metros por ano.
O farol chegou a ser desligado
A crise não é recente. Já nos anos 1930, o avanço do mar levou as autoridades responsáveis pela sinalização marítima a desativar a luz, por avaliarem que a estrutura estava condenada.
A erosão desacelerou nas décadas seguintes, e nos anos 1950 a luz voltou a ser acesa. O problema retornou nos anos 1980, quando a ilha voltou a perder faixa de praia em ritmo acelerado. Registros do serviço de parques indicam que, em 1980, a água já estava a cerca de 15 metros da estrutura, e outras publicações apontam aproximadamente 37 metros de distância no fim dos anos 1990. As medições variam conforme o ponto de referência e o momento da aferição.
As opções que foram descartadas
A mudança não foi a primeira escolha. Quando o planejamento começou, em 1980, a ideia de mover a torre foi levantada e rapidamente descartada.
A alternativa adotada naquele momento foi a construção de um revetimento, espécie de muro de contenção. Estudos posteriores apresentaram outras possibilidades: reforçar os molhes existentes para reduzir o impacto das ondas sobre a ilha, erguer um muro em volta da estrutura ou movê la para o interior. Cientistas e engenheiros chegaram a apresentar dez opções ao órgão gestor. O Congresso americano aprovou o orçamento da mudança em 1998.
Como se levanta um prédio de tijolos
A parte mais delicada não foi o deslocamento, foi tirar a torre do lugar. Em fevereiro de 1999, equipes separaram a estrutura da fundação original, um tapete de madeira sobre o qual ela havia sido construída em 1870.
O trabalho usou macacos hidráulicos de 100 toneladas, dispostos em fileira, para erguer a torre e transferir todo o peso a um sistema de transporte. Depois disso, o conjunto foi apoiado sobre roletes e trilhos de aço montados ao longo de um caminho previamente preparado, aberto entre a vegetação de arbustos e árvores que cobre a área arenosa.
O ritmo da viagem
O avanço era medido em centímetros. A cada cinco pés percorridos, cerca de um metro e meio, o mecanismo de empurrão precisava ser reposicionado antes do movimento seguinte.
Cada um desses avanços consumia aproximadamente um minuto, e o processo se repetiu por 23 dias até completar os 883 metros. Durante todo o percurso, 60 sensores mediram continuamente inclinação e vibração da estrutura, e uma estação meteorológica instalada no topo monitorava velocidade do vento e temperatura. O risco era duplo: qualquer torção poderia rachar a alvenaria, e a temporada de furacões no Atlântico começa justamente em junho.
Quem executou o serviço
O contrato ficou com a International Chimney Corporation, empresa de Buffalo, no estado de Nova York, especializada em estruturas altas. Ela contou com apoio da Expert House Movers, de Maryland, entre outras contratadas.
A operação foi reconhecida no ano seguinte com o prêmio de realização excepcional em engenharia civil, concedido pela Sociedade Americana de Engenheiros Civis. A distância final coincidiu com a original: a torre parou novamente a cerca de 1.500 pés da linha da costa, o mesmo intervalo que existia em 1870.
Não foi só a torre que se mudou
Um detalhe pouco divulgado é que a operação envolveu o conjunto inteiro. A estação de sinalização reúne sete estruturas históricas, entre elas a casa do oleiro, a residência do faroleiro principal e a casa dupla dos auxiliares.
Todas foram transferidas para o novo terreno mantendo exatamente a mesma disposição espacial e de altura que tinham no local original. As cisternas também acompanharam a mudança. A preocupação em preservar essas relações vem do entendimento de que o valor histórico do sítio não está apenas na torre, mas no arranjo do conjunto.
O que aconteceu depois
Já no novo terreno, a torre recebeu fundação de concreto, bem mais robusta que o tapete de madeira sobre o qual havia sido erguida no século 19. O projeto foi oficialmente concluído em 14 de setembro de 1999.
A reabertura ao público ocorreu em 13 de novembro daquele ano. Parte do corredor aberto para a passagem foi mantida para fins de interpretação histórica, e o restante recebeu replantio de vegetação nativa. A decisão de mover foi controversa na época e continua sendo citada como caso de referência em discussões sobre adaptação de patrimônio histórico à erosão costeira.
Por que o caso virou referência
Mover construções não era novidade em 1999, e há registros de operações semelhantes em décadas e séculos anteriores. O que distingue este caso é a escala e o contexto.
Era um edifício de alvenaria de quase 5 mil toneladas, com 60 metros de altura, deslocado sobre areia instável em uma ilha barreira em plena temporada de furacões. A mudança também ocorreu nos primeiros anos da internet comercial, e o acompanhamento foi disponibilizado online, o que ampliou a audiência para além de quem foi até a costa assistir. Hoje, mover estruturas históricas é prática mais comum, e existem alternativas de manejo que não passam por deslocamento.
E você, acha que valeu a pena gastar tanto para mover um farol em vez de deixar o mar levar? Conta aqui nos comentários o que você faria no lugar dos gestores, e diga se conhece algum monumento no Brasil ameaçado pelo avanço do mar.
Tags
Farol
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

