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Catador encontrou rolos de filme e uma carcaça de projetor no lixo em Taboão da Serra, comprou uma máquina de 16 mm por R$ 80, montou um cinema na garagem e passou a oferecer sessões e pipoca grátis para crianças da periferia
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 07/08/2026 às 19:52
Atualizado em 07/08/2026 às 19:53
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História de José Luiz Zagati mostra como materiais recolhidos no lixo, um projetor de 16 milímetros e cadeiras recuperadas deram origem a um cinema comunitário gratuito em Taboão da Serra, onde crianças da periferia assistiam a filmes e recebiam pipoca sem pagar ingresso.
Entre papéis, ferros e objetos descartados nas ruas da Grande São Paulo, José Luiz Zagati encontrou peças capazes de reativar um sonho guardado desde a infância, quando observava de fora uma sala de cinema por não ter dinheiro para comprar ingresso.
Durante o trabalho como catador, ele recolheu pedaços de película e a carcaça incompleta de um projetor, comprou depois uma máquina de 16 milímetros por R$ 80 e transformou a garagem de casa, em Taboão da Serra, numa pequena sala comunitária.
Batizado de Mini Cine Tupy, o espaço nasceu com equipamentos usados, cadeiras recuperadas do lixo, uma tela improvisada e parte da renda obtida com a coleta de recicláveis, reunindo principalmente crianças da periferia em sessões gratuitas acompanhadas de pipoca.
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Em depoimento preservado pelo Museu da Pessoa, Zagati contou como os materiais encontrados nas ruas, o aprendizado sobre projeção e o esforço para financiar cada sessão permitiram reconstruir, em escala reduzida, a experiência que o havia impressionado quando ainda era menino.
Infância de José Luiz Zagati criou vínculo com o cinema
Nascido em Guariba, no interior paulista, Zagati conheceu o cinema aos cinco anos, levado pela irmã mais velha, e conservou essa lembrança depois que a família se mudou para Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo.
Já instalado no município, ele passou a observar o Cine Tupy, que funcionava no centro da cidade, mas nem sempre podia entrar, pois a família não dispunha de dinheiro suficiente para transformar aquelas sessões em um hábito frequente.
Antes de criar o cinema comunitário, Zagati trabalhou como engraxate, mecânico, perfurador de poços e montador de baterias, até perder o emprego na vida adulta e começar a recolher papelão e sucata para garantir o sustento da família.
Foi durante essas rotas de coleta que apareceram os primeiros fragmentos de filmes e uma carcaça de projetor descartada entre materiais de demolições e limpezas, objetos que pareciam sem utilidade, mas despertaram nele a possibilidade de recuperar antigas projeções.
Carcaça descartada levou à busca por um projetor completo
Embora estivesse incompleta, a estrutura ainda preservava parte da caixa e do mecanismo, o que levou Zagati a tentar fazê-la funcionar com adaptações, entre elas um pequeno motor retirado de um limpador de para-brisa usado.
A experiência não produziu o equipamento definitivo das sessões, porém ajudou o catador a compreender melhor o funcionamento de uma máquina de projeção e reforçou a procura por um aparelho completo, capaz de reproduzir imagem e som com regularidade.
Nessa busca, ele chegou à região de Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, percorreu diferentes lojas e encontrou um projetor colocado no chão, perto do balcão de um estabelecimento, depois de não localizar o equipamento nas primeiras tentativas.
O vendedor pediu R$ 80, exatamente a quantia que Zagati havia guardado em casa, incluindo parte de um dinheiro recebido do filho como presente de aniversário, valor que acabou destinado à compra da máquina de 16 milímetros.
Como havia saído apenas para pesquisar, ele voltou de ônibus a Taboão da Serra, buscou as notas e retornou à loja no mesmo dia, preocupado com a possibilidade de outro cliente levar o projetor antes de sua chegada.
Levado para casa, o aparelho começou a ser testado com fragmentos de película recolhidos anteriormente, que ainda não formavam narrativas completas, mas já projetavam imagens na parede e chamavam a atenção dos vizinhos da região.
Filmes completos transformaram testes em sessões comunitárias
Os primeiros rolos continham apenas trechos isolados, sem começo ou desfecho, razão pela qual Zagati passou a procurar pessoas que pudessem fornecer cópias inteiras e permitir exibições semelhantes às realizadas em salas convencionais de cinema.
O caminho o levou ao Cineclube Ipiranga e a Arquimedes Lombardi, ligado à Associação Brasileira de Colecionadores de Filmes em 16 Milímetros, contato por meio do qual ele recebeu e adquiriu produções em película para ampliar as sessões.
Alguns títulos eram vendidos por valores acessíveis, enquanto outros eram cedidos ao projeto, combinação que permitiu ao catador reunir material suficiente para organizar uma exibição pública e ultrapassar a fase dos pequenos testes feitos dentro de casa.
O primeiro longa-metragem completo apresentado foi Cruéis Dominadores, exibido numa rua do bairro Sítio das Madres, na região do Pirajussara, onde um lençol funcionou como tela e um cartaz feito à mão anunciou a sessão aos moradores.
Crianças e adultos chegaram levando cadeiras, tábuas, blocos e tijolos para improvisar assentos diante da projeção, enquanto o equipamento permanecia do outro lado da rua, distância necessária para preencher a superfície usada como tela naquela noite.
Realizada em 16 de agosto de 1998, a exibição marcou a criação do Mini Cine Tupy, nome escolhido em homenagem à antiga sala que Zagati acompanhava na infância e que já não funcionava no município.
Cadeiras recuperadas do lixo ocuparam a garagem
Depois das primeiras sessões ao ar livre, o cinema passou para a garagem quando Zagati soube que cadeiras de uma antiga sala haviam sido descartadas num lixão, embora as peças em melhor estado já tivessem sido retiradas quando ele chegou.
Ainda assim, o catador recolheu encostos, assentos, laterais e pés danificados, comprou parafusos e combinou componentes diferentes até montar 16 lugares, reaproveitando materiais que dificilmente voltariam a cumprir a função original sem aquele trabalho manual.
Para receber o público, as ferramentas que ocupavam a garagem foram retiradas, uma lona presa a uma estrutura de madeira virou tela e o projetor continuou posicionado do lado externo, onde alcançava a distância necessária para ampliar a imagem.
Aos domingos, a garagem e a área diante da casa recebiam moradores interessados nas sessões, criando um ponto de encontro no bairro e oferecendo uma experiência cultural distante das salas comerciais instaladas em outras regiões da metrópole.
Entrada gratuita e pipoca mantida com renda da reciclagem
Nenhum ingresso era cobrado, porque Zagati separava uma pequena parcela do que ganhava como catador para pagar transporte, filmes, milho e saquinhos, mantendo o funcionamento do espaço sem transferir os custos para as famílias da comunidade.
Preparada em casa, a pipoca era colocada numa bacia e distribuída durante a projeção, muitas vezes com a ajuda das próprias crianças, que participavam da rotina enquanto aguardavam o início ou a retomada dos filmes exibidos.
Filmes em 16 milímetros exigiam cuidados constantes
A operação exigia atenção constante dentro da garagem, pois as cópias de 16 milímetros podiam apresentar desgaste, umidade ou danos nas perfurações laterais, problemas capazes de interromper a passagem da película e exigir ajustes durante a sessão.
Filmes com aproximadamente 90 minutos costumavam ser divididos em dois rolos, obrigando o operador a pausar a exibição, trocar a parte projetada e reiniciar o equipamento para que o público acompanhasse a história até o final.
Além das películas, cadeiras, rolos e projetor também ficavam expostos à chuva e ao sol quando não havia estrutura fechada, condição que provocou perdas no acervo por causa das limitações de armazenamento disponíveis naquele período.
Mesmo com essas dificuldades, o cinema permaneceu como referência comunitária e levou projeções a outros espaços, incluindo comunidades e instituições alcançadas por iniciativas culturais que buscavam aproximar os filmes de públicos afastados das salas comerciais.
Trajetória do Mini Cine Tupy chegou aos documentários
A história despertou o interesse de jornalistas e documentaristas, que registraram a experiência em três produções audiovisuais intituladas Z.inema, Mini-cine Tupy e Zagati, ampliando a circulação da trajetória para além do bairro onde as sessões começaram.
Fora da garagem, Zagati também participou de exibições em comunidades e instituições, transportando o projetor e os filmes para alcançar pessoas que raramente frequentavam cinemas e preservar o caráter gratuito associado ao projeto desde sua origem.
José Luiz Zagati morreu em 2016, mas o depoimento mantido no acervo do Museu da Pessoa registra sua infância, os diferentes trabalhos exercidos, a compra do projetor e a rotina criada para sustentar as sessões.
Nesse relato também permanecem documentadas a montagem da garagem, a recuperação das cadeiras e a decisão de separar parte da renda da reciclagem para custear filmes e pipoca, elementos centrais da história do Mini Cine Tupy.
Quantas histórias, imagens e oportunidades culturais ainda podem estar escondidas entre objetos descartados diariamente nas cidades brasileiras, à espera de alguém disposto a reconhecer valor e criar um projeto comunitário naquilo que já foi tratado como inútil?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

