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Foto de astronauta da NASA mostra delta de 35 km que engoliu mais da metade de um estuário em Madagascar e pintou a água de vermelho
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 08/08/2026 às 10:06
Ciência e Tecnologia
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Um astronauta a bordo da Estação Espacial Internacional apontou a câmera para a costa noroeste de Madagascar e registrou o que meio século de desmatamento fez com um rio. A NASA publicou a imagem, e o que ela mostra é um estuário desaparecendo sob terra arrancada das encostas.
Uma fotografia feita por um astronauta da Estação Espacial Internacional e divulgada pela NASA mostra o delta do rio Betsiboka, em Madagascar, com cerca de 35 quilômetros de extensão e preenchendo mais da metade do maior estuário do país, segundo publicação do NASA Earth Observatory de 20 de outubro de 2024, com texto assinado por Justin Wilkinson, da Texas State University. A imagem foi captada em 23 de maio de 2024.
O que salta aos olhos na foto é a cor. A água dos canais aparece em tom entre o vermelho e o laranja, resultado direto da quantidade de solo rico em ferro que o rio carrega. Menos de cem anos atrás, aquele estuário era aberto à navegação. Hoje, boa parte dele virou terra firme.
Quem tirou a foto e com que equipamento
imagem: NASA
O registro tem identificação técnica completa. A imagem catalogada como ISS071-E-111691 foi feita em 23 de maio de 2024 por um integrante da tripulação da Expedição 71, com uma câmera digital Nikon Z9 e distância focal de 210 milímetros, a bordo da Estação Espacial Internacional.
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O material foi fornecido pela ISS Crew Earth Observations Facility e pela Earth Science and Remote Sensing Unit, ambas do Johnson Space Center. A foto passou por recorte, ajuste de contraste e remoção de artefatos de lente, mas o vermelho da água não é efeito de edição. Ele é a cor real do sedimento em suspensão.
Esse tipo de fotografia não é subproduto casual da rotina orbital. O programa da Estação Espacial Internacional apoia o trabalho como parte do laboratório nacional da ISS justamente para que astronautas registrem imagens da Terra com valor para cientistas e para o público, disponibilizadas gratuitamente na internet.
O que é o delta do Betsiboka
O rio Betsiboka corre em direção noroeste até desaguar no Canal de Moçambique, o braço de mar que separa Madagascar do continente africano. Na foz, ele formou um delta que hoje mede aproximadamente 35 quilômetros de comprimento, o equivalente a 22 milhas.
A estrutura visível na imagem é uma malha. São canais distributários se ramificando entre ilhas maiores e menores, várias delas com formato descrito como de lágrima, resultado do modo como a água contorna os depósitos de sedimento. O delta não é uma barreira sólida avançando mar adentro, é uma rede que se ramifica e se adensa ano após ano.
O estuário onde tudo isso acontece é o maior de Madagascar. Mais da metade dele já está preenchida pelo material trazido pelo rio, e o processo continua em curso.
Por que a água fica vermelha
A cor não vem de poluição industrial nem de floração de algas. Vem do próprio solo. Os sedimentos carregados pelo Betsiboka são ricos em ferro, e é esse conteúdo mineral que dá aos canais distributários a tonalidade avermelhada e alaranjada registrada da órbita.
Solos ricos em ferro são característicos de regiões tropicais úmidas, onde a chuva intensa lava os minerais mais solúveis e deixa para trás compostos de ferro e alumínio. Quando expostos e erodidos, esses solos entram nos rios e tingem a água. O que a foto da NASA mostra não é um rio sujo, é uma paisagem inteira sendo levada embora pela água.
A intensidade da cor funciona como indicador visual da carga de sedimento. Quanto mais material em suspensão, mais forte o tom. É por isso que imagens orbitais dessa região se tornaram referência para ilustrar processos de erosão acelerada.
Cinquenta anos de floresta perdida na bacia
A causa desse volume de sedimento está explicada de forma direta no material divulgado pela NASA. Ao longo dos últimos 50 anos, áreas extensas de floresta foram perdidas na região, por conta da extração de madeira e da expansão de terras agrícolas para atender a uma população que cresce rapidamente.
A consequência física dessa mudança de cobertura do solo é conhecida e previsível. Sem raízes segurando o terreno, encostas passam a perder solo a cada chuva. A erosão não é um efeito colateral distante do desmatamento, é a resposta imediata do relevo à retirada da vegetação. O processo atinge a bacia do Betsiboka e outras bacias espalhadas por Madagascar.
O solo arrancado das encostas cai no rio e é transportado corrente abaixo. Depois de várias décadas de erosão acelerada, esse material chegou em quantidade suficiente para construir os 35 quilômetros de delta que aparecem na imagem.
O estuário que era rota de navios há menos de cem anos
Esse é o dado que dá a dimensão real da mudança. O estuário hoje tomado pelo delta estava aberto à passagem de navios há menos de um século. Em pouco mais de três gerações, uma via navegável se transformou em um labirinto de bancos de areia e ilhas vegetadas.
A escala temporal é o que impressiona. Deltas costumam se formar ao longo de milhares de anos, em ritmo geológico. Aqui, uma transformação de escala geológica aconteceu dentro do intervalo de vida de uma pessoa. O que acelerou tudo não foi um evento natural extremo, foi a mudança no uso do solo rio acima.
O impacto prático recai sobre a navegação e sobre as comunidades que dependem do estuário. Onde antes passavam embarcações, agora existe terra nova, canais rasos e bancos que mudam de forma conforme o sedimento continua chegando.
O que mudou desde 1984
A publicação da NASA compara a imagem de 2024 com uma fotografia de astronauta feita 40 anos antes, em 1984. A comparação mostra o delta seguindo em expansão na direção do Canal de Moçambique.
As mudanças foram catalogadas com precisão. Bancos de areia que ficavam submersos na maré alta se expandiram e cresceram em altura até virar ilhas com vegetação. Desde 1984, duas novas ilhas vegetadas se formaram, uma de cada lado da ilha identificada como “A”. Outra surgiu logo depois das ilhas “B” e “C”. Mais três apareceram depois da ilha “D”, e um banco de areia ainda sem vegetação também é visível nessa mesma região. Em quatro décadas, seis novas ilhas com vegetação nasceram onde antes havia água.
Esse tipo de comparação só é possível porque astronautas fotografam os mesmos pontos da Terra há décadas. O acervo acumulado transforma registros isolados em série histórica, permitindo medir a velocidade de processos que no chão passariam despercebidos.
O verde que cresce sobre a terra nova
Nem todo o resultado é perda. Várias ilhas aparecem em verde escuro na fotografia, e a razão é que florestas colonizaram o terreno recém-depositado. O sedimento que veio das encostas desmatadas virou solo novo, e sobre ele nasceu vegetação.
O caso mais relevante é o dos manguezais. O delta e as margens vizinhas abrigam hoje a maior área de florestas de mangue de Madagascar, ecossistema fundamental para reprodução de peixes, proteção da costa contra erosão marinha e captura de carbono. A terra criada pelo desmatamento rio acima virou base para a maior extensão de mangue do país.
Esse é o tipo de paradoxo que imagens orbitais ajudam a enxergar. O mesmo processo que fechou uma via navegável e levou embora o solo agrícola das encostas produziu um ambiente costeiro de alto valor ecológico na foz.
Mahajanga, o porto no canto da imagem
No alto à esquerda da fotografia aparece Mahajanga, principal porto da região, situado no litoral. A posição da cidade em relação ao delta explica por que o avanço do sedimento não é assunto apenas ambiental.
Portos dependem de profundidade estável e de canais previsíveis. Um delta que cresce continuamente em direção ao mar altera as duas coisas. A construção natural de terra na foz de um rio é boa notícia para o mangue e má notícia para quem precisa atracar um navio. O material divulgado pela NASA não detalha os efeitos sobre a operação portuária, mas registra a proximidade e o avanço.
Na área do delta e no entorno, o arroz é a principal cultura agrícola. A planície formada pelo sedimento serve de terreno para plantio, o que cria mais uma camada nessa equação: a mesma terra que veio da erosão sustenta parte da produção de alimentos da região.
Uma foto que mostra causa e efeito na mesma imagem
O que torna essa fotografia da NASA especial não é só a beleza da cor. É o fato de ela conter, em um único enquadramento, o problema e a consequência. O vermelho da água é o solo das encostas desmatadas. As ilhas em formato de lágrima são esse mesmo solo depois de assentar. O estuário reduzido é o espaço que esse solo ocupou.
Da órbita, o processo fica legível de uma vez só. No chão, ele se distribuiu por 50 anos, milhares de hectares de floresta derrubada e incontáveis decisões individuais sobre plantar, cortar e sobreviver. A câmera de um astronauta a 400 quilômetros de altitude conseguiu resumir tudo isso em uma imagem que qualquer pessoa entende sem legenda.
E você, imaginava que uma paisagem inteira pudesse mudar tanto assim em menos de cem anos? Conta nos comentários qual outra transformação da Terra vista do espaço mais te impressionou.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

