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Ruas cinzas em vez de pretas podem deixar o chão vários graus mais frio no verão, é a aposta que Los Angeles testa há quase dez anos, mas a experiência revelou um problema, o calor refletido tem que ir para algum lugar, e às vezes vai parar no pedestre
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 10/08/2026 às 10:54
Ciência e Tecnologia
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Asfalto comum devolve ao ambiente entre 5% e 10% da luz que recebe e guarda o resto. Los Angeles resolveu pintar o chão de cinza-claro para inverter essa conta. Funcionou no piso, mas a energia que a rua deixa de absorver não some, ela é jogada de volta para cima.
As ruas cinzas testadas por Los Angeles desde 2017 conseguem manter o pavimento vários graus mais frio que o asfalto preto em tardes de verão, segundo reportagem publicada pelo portal Xataka Brasil, assinada por Fabrício Mainenti. Em medições feitas na cidade, o asfalto tradicional registrava entre 42 e 43 graus enquanto a superfície tratada com uma camada do revestimento claro ficava perto de 36 graus.
Quase uma década de teste, porém, revelou uma contrapartida que os primeiros resultados não mostravam. A energia que a rua deixa de absorver não desaparece, ela é devolvida ao ambiente, e parte dela acaba incidindo sobre calçadas, fachadas e sobre as próprias pessoas que caminham por ali.
O que é albedo e por que o asfalto preto guarda calor
Pavimentos convencionais têm albedo muito baixo, na faixa de 0,05 a 0,1. Em termos práticos, isso significa que refletem apenas 5% a 10% da radiação solar recebida e podem absorver até 95% dela, segundo dados do Massachusetts Institute of Technology.
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O problema não é só absorver. É devolver devagar. O pavimento armazena essa energia ao longo do dia e a libera lentamente, continuando a aquecer o ar mesmo depois do pôr do sol. É por isso que o centro de uma cidade grande demora tanto para esfriar numa noite de verão enquanto a zona rural ao lado já refrescou.
Quarenta por cento da cidade é chão pavimentado
A escala do problema vem da quantidade de superfície envolvida. Cerca de 40% da área urbana é pavimentada, segundo os pesquisadores citados na reportagem.
Isso significa que quase metade de uma cidade é feita de material desenhado para absorver energia solar e soltá-la aos poucos. É uma das causas centrais do efeito de ilha de calor urbana, que faz áreas construídas registrarem temperaturas bem mais altas que as regiões ao redor. Não é detalhe de conforto: é a soma de milhões de metros quadrados funcionando como acumuladores térmicos.
O que Los Angeles aplicou nas ruas desde 2017
A cidade começou em 2017 a aplicar em algumas vias o CoolSeal, revestimento de tom cinza-claro que eleva o albedo da superfície.
A proposta não se resume a pintar a rua de cor mais clara por questão estética. O objetivo é modificar o comportamento térmico de uma superfície que, por padrão, absorve grandes quantidades de energia, invertendo a lógica para que ela reflita boa parte da carga em vez de guardá-la. Não é tinta decorativa, é engenharia de superfície.
Os números medidos no piso
Os resultados ao nível do solo foram expressivos desde o início. Enquanto o pavimento convencional marcava entre 42 e 43 graus, o trecho tratado com uma camada única ficava em torno de 36.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos registra resultados na mesma direção em outros projetos: pavimentos convencionais podem chegar a cerca de 67 graus ao meio-dia, enquanto as chamadas superfícies frias permanecem entre 5,5 e 8,9 graus mais frescas. E há um efeito que depende de escala. Quando o tratamento cobre uma área suficientemente grande, o benefício deixa de ser apenas do piso e passa a se estender ao ar.
O que os modelos calculam em escala de cidade
Pesquisadores do Concrete Sustainability Hub do MIT publicaram em 2021, na revista Environmental Science and Technology, um dos estudos mais abrangentes sobre o tema, simulando a troca do asfalto convencional por pavimentos refletivos em Boston e Phoenix.
Os números aparecem como faixas, e não como valores fixos. Dobrar o albedo tradicional das vias reduziria a temperatura máxima de verão entre 0,3 e 1,7 grau em Boston e entre 1,4 e 2,1 graus em Phoenix. Em emissões, o corte chegaria a 3% do total em Boston e 6% em Phoenix ao longo de 50 anos, considerando também extração de material, construção e consumo de combustível dos veículos.
Um levantamento anterior do mesmo grupo estimou que pavimentos refletivos poderiam reduzir a frequência de ondas de calor em 41% nas áreas urbanas americanas. O detalhe decisivo é que o resultado varia muito de um bairro para outro, conforme a altura dos prédios, a largura das vias e o tráfego. Soluções semelhantes já são aplicadas fora dos Estados Unidos, como no Marrocos.
O calor refletido precisa ir para algum lugar
Aqui está a descoberta que a década de teste trouxe. Uma via mais fresca não garante que o pedestre sinta menos calor, porque a superfície não elimina a energia refletida, apenas a redireciona.
Pesquisas sobre estresse térmico analisaram as superfícies tratadas em Los Angeles e encontraram a contradição em números. O piso ficava de 4 a 6 graus mais frio que o asfalto convencional, mas aumentava a radiação de ondas curtas no entorno e podia elevar a temperatura radiante média em cerca de 4 graus ao meio-dia. O chão esfria e o corpo de quem passa esquenta.
Rua estreita não adianta, e em alguns casos piora
Faz pouco sentido aplicar revestimento refletivo em rua estreita cercada de prédios altos, onde a luz solar mal chega ao pavimento durante a maior parte do dia. Sem radiação incidente, não há o que refletir.
O estudo do MIT chegou à mesma conclusão ao analisar o centro denso de Boston: ali, o pavimento claro não ajudaria nem prejudicaria de forma significativa. Em alguns bairros baixos e pouco adensados do centro de Phoenix, porém, os pesquisadores encontraram efeito negativo, com a radiação refletida atingindo as fachadas e aumentando a demanda de refrigeração dos edifícios. A mesma medida que esfria a rua pode aquecer o prédio ao lado.
Onde a solução realmente funciona
A própria agência ambiental americana alerta que os custos e benefícios não podem ser avaliados só pela redução da temperatura da superfície. Material, clima, tráfego, vida útil, manutenção e local de instalação entram na conta, e até o balanço ambiental é complexo, já que produzir e aplicar o revestimento tem custo energético próprio.
Depois de anos de teste, a conclusão não é que as ruas cinzas não funcionem. Elas funcionam, e os números comprovam isso. A conclusão é que a localização precisa ser escolhida com critério. Em avenidas largas, estacionamentos abertos e áreas onde plantar é inviável, o pavimento refletivo é ferramenta útil contra o calor extremo. Em cânions urbanos e trechos já sombreados, tende a não se pagar.
As árvores continuam imbatíveis
Existe uma comparação que fecha a discussão, e ela não favorece o asfalto claro. Em quase todos os outros contextos, as árvores oferecem vantagens que nenhum revestimento alcança, por dois motivos físicos simultâneos.
O primeiro é o sombreamento: a copa intercepta a radiação antes que ela chegue ao solo, então a energia sequer entra no sistema. O segundo é a evapotranspiração, pela qual a árvore libera vapor de água e resfria ativamente o ar ao redor. Por isso o pavimento refletivo aparece nos estudos como ferramenta complementar, nunca como substituto de arborização. Onde cabe uma árvore, a árvore ganha.
E você, acha que vale a pena pintar as ruas da sua cidade de cinza-claro sabendo que parte do calor volta para quem está na calçada, ou o dinheiro deveria ir todo para plantar árvore? Conta nos comentários qual rua da sua cidade mais precisa de sombra.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

