6 min de leitura
Aos 76 anos, ex-auditor que aos 17 quis cursar Direito mas seguiu Administração por influência do pai aproveitou o ensino remoto da pandemia para começar a faculdade aos 70, formou-se no interior de São Paulo e foi aprovado no 46º Exame da OAB quase seis décadas depois da escolha que adiou o sonho
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 10/08/2026 às 11:31
Atualizado em 10/08/2026 às 11:35
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Sérgio Rodrigues Vieira conheceu a advocacia no primeiro emprego, aos 17 anos, mas escolheu Administração de Empresas. Voltou à faculdade em 2020, aos 70, cursando Direito em Pirassununga. Estudou dez horas por dia durante um ano para o exame da Ordem.
O primeiro emprego dele foi ao lado de advogados tributaristas, e foi ali, aos 17 anos, que a profissão o conquistou. Mas quando chegou a hora de escolher a graduação, o ex-auditor Sérgio Rodrigues Vieira optou por Administração de Empresas, por influência do pai e de professores que enxergavam uma demanda crescente por contadores no Brasil dos anos 1960, conforme reportagem assinada por Manuela Rached Pereira e publicada pela ConJur em 27 de julho de 2026.
Quase seis décadas depois daquela decisão, aos 76 anos, ele se formou em Direito em uma faculdade de Pirassununga, no interior de São Paulo, e foi aprovado no 46º Exame de Ordem. A janela que permitiu retomar o sonho foi a pandemia, quando o ensino remoto tornou possível começar uma segunda graduação sem sair de casa.
A pandemia como porta de entrada
O curso começou em 2020, em formato online, e continuou presencialmente nos anos seguintes. Ele tinha 70 anos quando se matriculou, depois de uma carreira inteira como auditor de grandes empresas.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O detalhe do formato importa mais do que parece. Sem a modalidade remota adotada em caráter excepcional naquele período, um homem de 70 anos precisaria ter enfrentado desde o primeiro dia a rotina presencial e a exposição em sala. A entrada remota funcionou como período de adaptação, e o presencial veio depois, com o curso já em andamento.
A sala vazia do lado dele
A convivência foi o obstáculo que ele descreve com mais franqueza. A turma era formada por estudantes de 18 e 19 anos em primeira graduação, e o contraste apareceu na geografia da sala de aula.
O relato dele é específico: quando se sentava à direita, na frente, o restante da turma migrava para a esquerda, no fundo. Ele imagina que olhavam para ele pensando que era maluco. Houve também questionamento vindo do outro lado, quando um professor perguntou por que cursar Direito naquele momento da vida. A distância física entre ele e os colegas era o retrato do estranhamento.
A situação mudou conforme o curso avançou. O veterano foi conquistando a simpatia dos colegas e o apoio dos professores, e a reportagem registra essa virada sem detalhar quando ou como ela aconteceu.
Dez horas por dia durante um ano
A aprovação no exame não veio como consequência natural da formatura. Sérgio já havia cursado especializações com disciplinas jurídicas antes, mas tratou a prova da Ordem como um projeto à parte.
A estratégia declarada foi imersão. Ele passou um ano estudando sozinho, dez horas por dia, sabendo do índice de exigência e de reprovação do exame. A avaliação que faz do resultado é proporcional ao esforço: descreve a aprovação como difícil e gratificante na mesma medida. Um ano em regime de dez horas diárias equivale a algo próximo de 3,6 mil horas de estudo, volume que a maior parte dos candidatos não consegue reservar por precisar trabalhar ao mesmo tempo.
O que foi o 46º Exame de Ordem
O exame que ele prestou tem números públicos. A prova prático-profissional, segunda e última fase, foi aplicada em 21 de junho de 2026, em todas as 27 seccionais do país, e exigia nota mínima de 6,0.
O Conselho Federal da OAB divulgou o resultado definitivo em 29 de julho de 2026, com 25.693 candidatos aprovados nessa etapa. O edital havia sido publicado em 26 de janeiro daquele ano, com inscrições entre 2 e 9 de fevereiro. Vale um registro sobre o calendário: a reportagem que conta a história dele saiu em 27 de julho, dois dias antes do resultado definitivo, portanto com base no resultado preliminar, divulgado em 14 de julho.
Por que o exame é o funil do curso
Os números do ensino jurídico ajudam a entender o tamanho do obstáculo. Segundo o Censo da Educação Superior mais recente, Direito é a terceira graduação com maior número de matrículas no país, atrás apenas de Pedagogia e Administração, e lidera o ranking entre os cursos exclusivamente presenciais, com quase 653 mil alunos em 2024.
A concorrência de entrada também é alta: o curso aparece como o 13º presencial mais disputado nas universidades públicas, com mais de 271 mil vestibulandos e 13 candidatos por vaga em 2024, conforme levantamento do Inep. O estreitamento acontece depois. Um levantamento da Folha de S.Paulo de 2022 mostrou que nove em cada dez instituições que oferecem o curso aprovam menos de 30% dos alunos no exame da Ordem, e apenas 5,4% das instituições avaliadas conseguem aprovar pelo menos metade dos estudantes. Vale a ressalva de que esse estudo tem quatro anos e pode não refletir o cenário atual.
Pai e filho, agora colegas
A história tem uma simetria que raramente aparece. Em 2007, Sérgio comemorou a aprovação do filho no exame da Ordem. Quase vinte anos depois, os papéis se inverteram.
Sergio Rodrigo Russo Vieira, o filho, resumiu a inversão dizendo que em 2007 foi o pai quem comemorou a aprovação dele, e que agora tem o privilégio de viver a mesma emoção celebrando a aprovação do pai. Ele acrescentou que passou a vida aprendendo com o pai e que, aos 76 anos, recebeu mais uma lição: enquanto houver vontade de viver, haverá tempo para sonhar, estudar, trabalhar e conquistar.
O que ele pretende fazer com a carteira
O plano declarado não é simbólico. Com a inscrição na Ordem, Sérgio pretende atuar inicialmente como advogado particular, e escolheu três áreas: tributária, de família e empresarial.
A escolha da área tributária fecha um ciclo, porque foi justamente ao lado de advogados tributaristas que ele conheceu a profissão aos 17 anos. E a formação em Administração somada à carreira de auditor de grandes empresas dá base concreta para as frentes tributária e empresarial. Sobre o curso, ele usa uma imagem forte: diz que Direito é uma explosão na cabeça da pessoa, que é apaixonante e que se aplica o tempo todo, porque está em todos os lugares. Ele conta que passou a relacionar o que via na rua, até uma briga de trânsito, com o que estava aprendendo em sala.
A parte mais dura dessa história não foi a prova nem o conteúdo. Foi entrar em uma sala onde ninguém queria sentar do seu lado e ouvir de um professor a pergunta sobre por que estudar aquilo naquela altura da vida.
Conta nos comentários: você encararia uma segunda graduação depois dos 70, sabendo que seria o mais velho da turma por cinquenta anos de diferença? E na sua opinião, o que trava mais quem pensa em voltar a estudar mais tarde, o conteúdo, o dinheiro ou o julgamento das outras pessoas?
Tags
ex-auditor
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

