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Rapaz rodava oito horas por dia fazendo corrida de moto por aplicativo e ainda estudava de manhã antes de ligar o app, abriu mão das aprovações em Enfermagem, Odontologia e Direito e, na quinta tentativa, passou em 2º lugar em Medicina na Uece de Crateús
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 10/08/2026 às 11:00
Atualizado em 10/08/2026 às 11:01
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Victor Emanoel Rocha Silva tem 24 anos, veio da rede pública e é filho de uma feirante com um vendedor ambulante que estudou até a quinta série. Passou anos dividindo o dia entre cursinho, estudo e corridas de moto por Fortaleza até conseguir a única vaga que aceitava.
O motorista de aplicativo Victor Emanoel Rocha Silva, de 24 anos, foi aprovado em Medicina na Universidade Estadual do Ceará, campus de Crateús, depois de cinco tentativas no processo seletivo, segundo reportagem publicada pelo Diário do Nordeste em 25 de março de 2025, assinada por Beatriz Rabelo. Natural de Fortaleza e morador do bairro Parque Dois Irmãos, ele diz que nunca considerou outra profissão.
A rotina que sustentou essa insistência combinava aula de cursinho pela manhã, período de estudo em seguida e oito horas diárias de corridas de moto pela capital. Ele escolheu o trabalho de aplicativo justamente pela flexibilidade, porque era a única forma de encaixar o emprego dentro da rotina de estudo. Com a aprovação, virou o primeiro da família a entrar no curso e passou a integrar a quarta turma de Medicina do campus.
A rotina que cabia em blocos rígidos de hora
Entre 2020 e 2024, Victor cursou preparatório particular com bolsa integral e organizou o dia para aproveitar ao máximo as horas antes do turno. Ele conta que rendia melhor pela manhã e concentrava o estudo nesse período, deixando as corridas para a tarde e a noite.
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A dificuldade central que ele descreve não é de conteúdo, é de relógio. Precisava dominar a prova, refazer todas as edições anteriores em pouco tempo e ainda aprender as matérias, o que o obrigava a ser assertivo na escolha do que estudar. Não havia margem para perder tempo com o que não caía.
Oito horas por dia e até 12 nos fins de semana
Foto: Arquivo pessoal
O turno era ajustado à agenda de estudo, e não o inverso. Victor tinha metas de faturamento a bater e esticava a jornada conforme a necessidade, rodando à tarde e à noite, até as 17h, as 18h ou até a meia-noite.
Nos fins de semana, a jornada chegava a 12 horas para compensar o que os dias úteis não permitiam. A flexibilidade do aplicativo foi o que tornou a conta possível, porque nenhum emprego de horário fixo permitiria estudar de manhã todos os dias durante quatro anos seguidos. Ele trata essa característica como a vantagem central da atividade.
Assalto, tentativa de assalto e um acidente de moto
O que a flexibilidade não resolvia era a exposição. Trabalhar de moto por aplicativo significa circular por toda a cidade, inclusive por regiões que ele mesmo classifica como muito perigosas, porque o motorista não escolhe o destino das corridas.
Victor conta que sofreu assalto e tentativa de assalto ao longo do período, e que o risco é um dos principais percalços da profissão. Além disso, sofreu um acidente de moto no começo de 2024, no meio do último ano de preparação. A justificativa dele para continuar é seca: não entraria nesses riscos se não enxergasse uma luz no fim do túnel.
As três aprovações que ele deixou passar
Foto: Reprodução
Antes de chegar à Medicina, Victor já havia sido aprovado em outros cursos ao longo das tentativas. As aprovações incluíram Enfermagem, Odontologia e Direito.
Eram três carreiras de nível superior com mercado consolidado, e qualquer uma delas teria encerrado o ciclo de cursinho, prova e corrida noturna. Ele não aceitou nenhuma. Cada aprovação recusada significou mais um ano de moto e mais uma prova refeita. Victor admite que houve ansiedade e medo de não conseguir, mas repete que sempre teve a convicção de que seria médico, não importava o tempo, e que não se via em outra profissão.
O hospital da infância onde nasceu a escolha
A vontade de cursar Medicina não veio de vocação abstrata, e sim de convivência precoce com ambiente hospitalar. Ele conta que a ideia surgiu na infância, por causa das idas frequentes a hospitais motivadas por problemas de saúde na família.
O pai é diabético, condição crônica que exige acompanhamento constante, e a família passava boa parte do tempo em atendimento. Victor também tinha dermatites e era levado com frequência ao Hospital Infantil Albert Sabin, referência pediátrica em Fortaleza. Cresceu vendo o trabalho médico do lado de quem espera. Já aprovado, ele tem área de interesse definida: cirurgia ortopédica.
O pai que estudou até a quinta série
Foto: Arquivo pessoal
O contexto familiar dá a dimensão do que a aprovação representa dentro de casa. O pai estudou até a quinta série e trabalha como vendedor ambulante. A mãe concluiu o ensino médio e trabalha em feira. Victor tem uma irmã.
Ele credita ao pai o apoio mais insistente, afirmando que ele acreditou no filho contra tudo e contra todos. Quando a aprovação saiu, Victor descreveu a reação da família como o ápice da felicidade e disse que aquele era o sonho dos pais, não apenas o dele.
A mudança para Crateús e a vaquinha
A aprovação trouxe junto um problema logístico. O campus fica em Crateús, no interior do Ceará, a cerca de 350 quilômetros de Fortaleza, o que significava deixar a casa dos pais e a base de clientes construída na capital.
Victor se mudou na sexta-feira, 21 de março de 2025, e foi morar com um amigo. As aulas começaram na quinta-feira seguinte, dia 27, menos de uma semana depois da chegada. Para bancar os custos da mudança, ele organizou uma vaquinha virtual.
O trabalho que não terminou com a aprovação
A decisão mais reveladora sobre o que vem pela frente é que ele não pretende largar o emprego. Seguirá fazendo corridas por aplicativo em Crateús para se manter durante a graduação, encaixando as viagens nos horários livres entre as aulas.
O curso é gratuito, por ser universidade pública estadual, mas moradia, alimentação, material e transporte não são. É essa conta que continua dependendo da moto. A rotina que o levou até a vaga não acabou, apenas mudou de cidade e passou a conviver com a carga horária de um curso de Medicina, que tem aulas obrigatórias pela manhã e atividades práticas ao longo da semana.
E você, teria recusado três aprovações em cursos superiores para continuar tentando o que realmente queria, ou aceitaria a primeira vaga e encerraria o ciclo? Conta nos comentários quanto tempo você aguentaria insistir em um objetivo antes de mudar de plano.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

