6 min de leitura
Surdocega desde o nascimento, mulher passa mais de dez anos tentando concluir Medicina, enfrenta internações e interrompe o curso quando estava a poucos meses do diploma, mas retorna à universidade e, aos 32 anos, torna-se a primeira médica surdocega do Reino Unido
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 10/08/2026 às 12:40
Atualizado em 10/08/2026 às 12:41
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Alexandra Adams nasceu surdocega, passou mais de dez anos na formação médica, enfrentou cirurgias, longas internações e discriminação e, aos 32 anos, concluiu Medicina e um mestrado em Escrita Criativa antes de começar a trabalhar como a primeira médica surdocega do Reino Unido.
Alexandra Adams tinha 32 anos quando, em julho de 2026, encerrou uma formação médica que havia consumido mais de uma década de sua vida. Registrada como surda e cega desde o nascimento, ela atravessou anos de estudos, interrupções por problemas graves de saúde e episódios de discriminação antes de receber o diploma de Medicina e tornar-se, segundo a Northeastern University e a imprensa britânica e internacional, a primeira médica surdocega do Reino Unido.
A conclusão veio acompanhada de um segundo diploma. Na mesma fase em que terminou Medicina, Alexandra recebeu também um mestrado em Escrita Criativa pela Northeastern University London. A instituição informou que a graduação médica demorou mais de dez anos para ser concluída e que, poucos dias após a cerimônia de julho de 2026, ela se preparava para iniciar o trabalho como médica.
Alexandra Adams nasceu com deficiência auditiva e visual
Alexandra nasceu com perda auditiva e visual e foi registrada como surdocega desde o nascimento. Em entrevista publicada em 2026, ela explicou possuir perda auditiva severa a profunda e utilizar aparelhos auditivos e tecnologias específicas para realizar tarefas clínicas.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
A British Medical Association registrou anteriormente que Alexandra é surda desde o nascimento, não possui visão em um dos olhos e mantém apenas cerca de 5% no outro.
Essas condições exigiram adaptações durante a formação, mas ela afirma que as barreiras mais difíceis vieram das atitudes de outras pessoas e da falta de acessibilidade, e não simplesmente da deficiência sensorial.
Antes da Medicina, Alexandra chegou a treinar natação em nível competitivo com o objetivo de alcançar os Jogos Paralímpicos de Londres de 2012. Essa trajetória esportiva acabou interrompida após graves complicações de saúde durante a adolescência.
Cirurgia na adolescência terminou em longa internação e mudou seus planos
Aos 16 anos, uma cirurgia no estômago teve complicações graves. Em relato publicado pelo Royal College of Physicians, Alexandra afirmou ter permanecido hospitalizada por aproximadamente um ano e meio e passado posteriormente por cerca de 20 novas cirurgias abdominais, além de precisar de tubos de alimentação.
Assista o vídeo
A internação encerrou sua preparação esportiva, mas aproximou Alexandra da Medicina. Ela relatou que uma médica demonstrou atenção e empatia durante aquele período, experiência que reforçou sua decisão de tentar seguir uma carreira cuidando de pacientes.
Os problemas de saúde também prejudicaram sua trajetória escolar. A Northeastern University informa que as hospitalizações e cirurgias impediram Alexandra de realizar normalmente os A-Levels, exames britânicos usados no ingresso ao ensino superior, e ela precisou reconstruir seu caminho acadêmico posteriormente.
Primeira tentativa de entrar em Medicina terminou após universidade recuar
Alexandra precisou estudar conteúdos dos A-Levels por conta própria e também frequentou uma instituição voltada a alunos com deficiência visual. Depois dessa preparação, conseguiu uma oferta para ingressar em uma faculdade de Medicina.
O ingresso, porém, não aconteceu. Segundo o relato da própria Alexandra ao Royal College of Physicians, apenas uma semana antes de sua mudança para a universidade ela recebeu uma ligação informando que a instituição havia reconsiderado a admissão em razão de sua deficiência.
Ela se candidatou novamente e conseguiu uma vaga na Cardiff School of Medicine, no País de Gales. Em 2019, quando ainda estava no quarto ano, o Royal College of Physicians já a identificava como a primeira pessoa surdocega em treinamento para tornar-se médica no Reino Unido.
Discriminação continuou durante os estágios de Medicina
Entrar na faculdade não eliminou os obstáculos. Alexandra relatou episódios em que profissionais questionaram diretamente se pacientes deveriam ser atendidos por uma médica com deficiência e situações em que sua participação em atividades clínicas foi dificultada.
Em um dos relatos publicados pelo Royal College of Physicians, ela afirmou ter sido mandada para casa durante uma atividade depois que um médico questionou sua capacidade.
Em outra ocasião, precisou explicar que a bengala que carregava era sua própria bengala de mobilidade, e não a de um paciente.
Anos depois, a Northeastern University registraria que episódios de discriminação durante sua educação médica contribuíram para uma interrupção do curso quando Alexandra estava a poucos meses de concluir a qualificação. Naquele momento, ela chegou a acreditar que sua trajetória como médica havia terminado.
Problemas de saúde interromperam Medicina por cerca de dois anos
Além das barreiras relacionadas à acessibilidade, Alexandra enfrentou problemas médicos graves durante a graduação. A British Medical Association informou em 2022 que ela havia passado 17 meses internada em três hospitais durante a pandemia de Covid-19.
Assista o vídeo
A situação levou a uma interrupção de aproximadamente dois anos na faculdade. Durante aquele período, Alexandra recebeu diagnóstico de síndrome de Ehlers-Danlos e enfrentou complicações que envolveram os sistemas respiratório e gastrointestinal, além de episódios repetidos de hospitalização.
Quando voltou aos estudos, sua antiga turma já havia se formado. Em 2022, a BMA registrava que ela havia retomado atividades clínicas e estava se preparando para reiniciar uma etapa do quarto ano, mesmo continuando a precisar de acompanhamento médico e equipamentos de suporte.
Estetoscópio Bluetooth permitiu adaptar exames ao trabalho clínico
Uma das questões enfrentadas por Alexandra durante a formação era como realizar procedimentos tradicionalmente associados à audição ou à visão. Para auscultar pacientes, ela passou a utilizar um estetoscópio com conexão Bluetooth ligado aos aparelhos auditivos.
Assista o vídeo
Outros equipamentos também foram adaptados. Alexandra relatou utilizar dispositivos de comunicação por rádio e alertas capazes de vibrar ou gerar avisos em seu telefone, permitindo receber informações que normalmente dependeriam apenas de sinais sonoros.
Procedimentos como localizar uma veia para inserir uma agulha também passaram a depender fortemente do tato. Alexandra explicou que sua prática clínica combina recursos tecnológicos com percepção tátil, contrariando a ideia de que todas as tarefas médicas exigem necessariamente visão ou audição completas.
Mais de dez anos de Medicina terminaram com dois diplomas aos 32
A Northeastern University informou que Alexandra estava no nono ano de treinamento médico quando chegou à instituição para iniciar o mestrado em Escrita Criativa. A formação em Medicina, considerando as diferentes interrupções, acabaria ultrapassando dez anos até a conclusão.
O curso de escrita surgiu justamente durante um período em que Alexandra acreditava que poderia não conseguir terminar Medicina.
Depois de concluir o mestrado em 2025, surgiu a possibilidade de finalizar também os estudos médicos, permitindo que as duas trajetórias convergissem na cerimônia realizada em Londres em julho de 2026.
Aos 32 anos, ela participou da cerimônia com os dois resultados acadêmicos concluídos: a formação médica e o mestrado em Escrita Criativa. A Northeastern registrou que o diploma médico havia exigido mais de uma década para ser alcançado.
Primeira médica surdocega do Reino Unido começou a trabalhar em 2026
A condição de primeira médica surdocega do Reino Unido não apareceu apenas como uma descrição anterior à formatura. Depois da conclusão do curso, a Northeastern University passou a identificar Alexandra como a primeira médica surdocega britânica, e a revista People registrou a mesma condição após sua graduação.
Em 8 de julho de 2026, a universidade informou que Alexandra começaria a trabalhar como médica na semana seguinte. Ela também declarou interesse futuro pelas áreas de geriatria ou cuidados paliativos, embora sem apresentar naquele momento uma especialização definitivamente escolhida.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

