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Jovem ajudava a família a processar até 3 mil melancias por dia sob calor de quase 38 °C, viu trabalhadores sofrerem com desidratação e pesticidas, concluiu medicina e doutorado em neurociência e passou a investigar os circuitos do cérebro
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 10/08/2026 às 21:30
Ciência e Tecnologia
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Dos campos agrícolas aos laboratórios, Maribel Patiño transformou os riscos provocados pelo calor e pelos pesticidas em motivação para estudar medicina, pesquisar doenças cerebrais e ampliar oportunidades para jovens pouco representados na ciência
Durante os verões do ensino médio, Maribel Patiño ajudava a família a processar entre 2 mil e 3 mil melancias por dia em Lamont, comunidade agrícola da Califórnia. O trabalho era realizado sob temperaturas próximas de 38 °C e exigia horas agachada, curvando o corpo para colocar etiquetas nas frutas.
Ao seu redor, trabalhadores enfrentavam desidratação, insolação, danos à pele e exposição a pesticidas. Alguns precisaram receber atendimento hospitalar. Aquela realidade levou a jovem a enxergar uma ligação direta entre trabalho agrícola, falta de acesso à saúde e desigualdade social.
A trajetória foi publicada em 16 de abril de 2020 pelo UC San Diego Today, portal institucional de notícias da universidade californiana. Em 2024, após oito anos de formação, Patiño concluiu medicina e o doutorado em neurociência.
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O trabalho agrícola que revelou um problema de saúde
Patiño começou a trabalhar nos campos para complementar a renda familiar. Seus pais e dois irmãos mais velhos já atuavam na agricultura, e ela pediu uma oportunidade para acompanhá-los durante as férias escolares.
Sua função era colocar etiquetas nas melancias, mas a rotina envolvia muito mais esforço do que o serviço aparentava. A equipe precisava processar até 3 mil frutas em um único dia, enfrentando calor intenso, chuvas de verão e o peso das melancias.
No primeiro dia de trabalho, a jovem percebeu os efeitos daquela atividade sobre o corpo. Homens, mulheres e outros jovens apresentavam desidratação, enquanto casos mais graves de insolação terminavam no hospital.
As ocorrências continuaram durante os outros verões. Para Patiño, ficou evidente que muitas pessoas responsáveis pela produção de alimentos colocavam a própria saúde em risco, mas encontravam dificuldades quando precisavam consultar um médico ou receber tratamento.
Do calor extremo nasceu a decisão de estudar medicina
O perigo não estava apenas na temperatura. A exposição a pesticidas e os danos provocados na pele também apareciam entre os problemas enfrentados pelos trabalhadores agrícolas.
Esses riscos fazem parte da saúde ocupacional, área que estuda como as condições de trabalho podem causar doenças ou acidentes. No campo, Patiño viu esse problema atingir uma comunidade que também enfrentava barreiras para acessar médicos, medicamentos e serviços de saúde.
A experiência influenciou sua decisão de estudar medicina. Ela queria atender pacientes, mas também passou a compreender que alguns tratamentos não avançam porque a ciência ainda não possui informações suficientes sobre determinadas doenças.
O UC San Diego Today, portal institucional de notícias da universidade californiana, registrou que Patiño passou a enxergar a pesquisa como uma forma de aproximar as descobertas científicas das necessidades reais dos pacientes.
Do campo ao laboratório
Após concluir o ensino médio, Patiño entrou na Universidade da Califórnia em Berkeley. Ela estudou biologia molecular e celular, com concentração em neurobiologia, área dedicada ao funcionamento das células e estruturas do sistema nervoso.
Em sua pesquisa de graduação, investigou a relação entre lesões traumáticas no cérebro e epilepsia. Esse trabalho aumentou seu interesse pelas doenças neurológicas e pelas mudanças que ocorrem dentro das células cerebrais.
Depois de Berkeley, ela participou de um programa de preparação para pesquisa na Universidade da Pensilvânia. Nessa etapa, estudou como uma alteração repetida no material genético pode contribuir para o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas.
Essas doenças provocam a perda progressiva de funções do sistema nervoso. O estudo ajudou Patiño a perceber que compreender alterações microscópicas poderia abrir caminhos para tratamentos mais eficientes no futuro.
Bolsa de US$ 90 mil ajudou a sustentar a formação científica
Em 2020, Patiño recebeu uma bolsa de US$ 90 mil do programa Paul and Daisy Soros Fellowships for New Americans. A iniciativa apoia imigrantes e filhos de imigrantes que realizam estudos avançados nos Estados Unidos.
O valor representa o montante original da bolsa em dólares e estava ligado à continuidade de sua formação acadêmica. Uma conversão fixa para reais seria imprecisa, pois o resultado mudaria conforme a cotação utilizada.
A conquista tinha um significado especial. Durante a graduação, Patiño havia se candidatado a diferentes bolsas e recebeu várias respostas negativas antes de conseguir seu primeiro apoio.
Ela conhecia, portanto, as dificuldades enfrentadas por estudantes que possuem capacidade, mas não sabem como encontrar bolsas, preparar candidaturas ou entrar em programas científicos. A falta de orientação pode afastar talentos da universidade antes mesmo da primeira tentativa.
Programa criado para ampliar a presença de estudantes na ciência
Durante a formação em medicina e neurociência, Patiño e outros estudantes criaram o Colors of the Brain. O programa oferece orientação e recursos para jovens de grupos pouco representados que desejam seguir carreiras científicas.
A iniciativa ajuda estudantes interessados em ciência, tecnologia, engenharia e matemática a entender como funciona o ingresso em cursos avançados de pesquisa. O objetivo é reduzir obstáculos que Patiño também encontrou em sua trajetória.
Ela estudou em escolas com baixo desempenho educacional. Sua turma começou o ensino médio com 600 alunos, menos da metade concluiu essa etapa e aproximadamente 10 estudantes ingressaram em universidades com cursos de quatro anos.
Filha de imigrantes mexicanos que tiveram acesso limitado à educação, Patiño reconheceu o peso do apoio familiar e dos mentores. Sua história mostra que esforço individual importa, mas orientação, recursos e oportunidades também determinam quem consegue avançar.
Dois diplomas após oito anos de estudos
Na Universidade da Califórnia em San Diego, Patiño ingressou em um programa que reúne medicina e pesquisa científica. A formação completa teve duração de oito anos.
Em 2024, ela concluiu o percurso e recebeu os títulos de médica e doutora em neurociência. Os diplomas possuem funções diferentes dentro do sistema educacional dos Estados Unidos.
O M.D. corresponde à formação profissional em medicina, enquanto o Ph.D. representa o doutorado acadêmico voltado à pesquisa científica. Portanto, não se trata de dois doutorados acadêmicos iguais, mas da combinação entre prática médica e investigação avançada.
Essa formação permite que a profissional atenda pacientes e, ao mesmo tempo, investigue as causas biológicas das doenças. A experiência clínica pode indicar problemas que precisam ser estudados, enquanto o laboratório busca explicações e possíveis caminhos para novos tratamentos.
Pesquisa passou a investigar os circuitos do cérebro
Patiño realizou sua pesquisa no Instituto Salk, no laboratório de Edward Callaway. Seu trabalho envolveu o desenvolvimento e o aperfeiçoamento de ferramentas moleculares e genéticas para estudar o cérebro.
Os circuitos cerebrais são redes formadas por células nervosas que se comunicam entre si. Essas conexões participam de movimentos, emoções, pensamentos, memórias e outras funções fundamentais do organismo.
As ferramentas estudadas por Patiño ajudam a identificar quais células estão conectadas e como as informações percorrem essas redes. Esse conhecimento é necessário para compreender alterações relacionadas a doenças neurológicas e psiquiátricas.
A jovem que observou trabalhadores adoecerem nos campos passou a investigar estruturas invisíveis a olho nu. Sua trajetória conectou agricultura, saúde, desigualdade, medicina e neurociência em uma carreira orientada por problemas que conheceu fora da universidade.
Na sua opinião, quantos talentos científicos ainda permanecem escondidos em trabalhos exaustivos por falta de acesso e oportunidade? Conte nos comentários e compartilhe esta história.
Fonte
UC San Diego Today
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

