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Aos 61 anos, ex-morador de rua que passou quase 20 anos sem teto, cuidou de carros e chegou a passar fome em Curitiba levou 7 anos para concluir Educação Física porque cursava as matérias conforme conseguia pagar e transformou em diploma o sonho do ensino superior que carregava desde os 21
Escrito por Carla Teles
Publicado em 13/08/2026 às 16:36
Atualizado em 13/08/2026 às 16:37
Curiosidades
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João Barbosa da Silva Filho saiu de Manaus aos 21 anos, viveu por quase duas décadas nas ruas, passou por São Paulo e Curitiba, cuidou de carros para sobreviver e, aos 54, entrou em Educação Física. Como não conseguia pagar todas as disciplinas, levou sete anos para concluir a graduação.
Aos 61 anos, o ex-morador de rua João Barbosa da Silva Filho conseguiu transformar em graduação um objetivo que carregava desde que deixou Manaus, no Amazonas, aos 21 anos. Antes do diploma, porém, atravessou uma trajetória de décadas marcada por longos períodos sem moradia, dificuldades financeiras e fome. Em Curitiba, chegou a sobreviver cuidando de carros enquanto tentava reorganizar a própria vida e encontrar uma forma de finalmente ingressar no ensino superior.
A história foi publicada pela Tribuna do Paraná em 3 de setembro de 2019, poucas semanas depois da formatura de João, realizada em 10 de agosto daquele ano. Segundo a reportagem, ele passou quase 20 anos como morador de rua, iniciou Educação Física aos 54 anos e precisou de sete anos para concluir um curso que normalmente levaria quatro, porque matriculava-se em mais ou menos disciplinas conforme conseguia pagar.
João deixou Manaus aos 21 anos com o ensino superior como sonho
João nasceu em Manaus e deixou a capital amazonense aos 21 anos. Naquele momento, segundo contou à Tribuna do Paraná, já carregava o desejo de algum dia conquistar uma formação superior, embora ainda não tivesse definido qual curso pretendia seguir.
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A saída de casa, no entanto, não conduziu imediatamente à faculdade. Antes de encontrar uma sala de aula universitária, João atravessaria décadas de instabilidade, mudanças de cidade e períodos sem ter sequer uma moradia, fazendo com que o projeto acadêmico permanecesse distante durante boa parte de sua vida adulta.
Quase 20 anos sem teto marcaram parte de sua trajetória
Depois de sair do Amazonas, João foi para São Paulo. Ele contou que permaneceu na cidade durante 21 anos e que passou grande parte desse período sem possuir praticamente nada, vivendo nas ruas por muitos anos e convivendo de perto com situações que descreveu como extremamente difíceis.
Foi nesse ambiente que enfrentou contato diário com drogas, álcool e outras circunstâncias que, segundo o próprio relato, também prejudicaram sua vida. O período nas ruas não foi apresentado por João como uma experiência romantizada, mas como uma fase dura que deixou consequências e exigiu esforço para ser superada.
Depois de São Paulo, Curitiba trouxe novos desafios
Após mais de duas décadas em São Paulo, João mudou-se para Curitiba, onde já vivia havia 19 anos quando sua história foi publicada. A mudança não significou estabilidade financeira imediata, e ele passou a ganhar algum dinheiro cuidando de carros nas ruas da capital paranaense.
A renda, muitas vezes, não era suficiente nem para as necessidades mais básicas. João relatou que chegou a passar fome porque havia ocasiões em que não tinha dinheiro sequer para comprar um lanche. Ao mesmo tempo, afirmou que a escassez o ensinou a valorizar cada pequena conquista obtida ao longo dos anos.
Ex-morador de rua decidiu tentar Educação Física já mais velho
O desejo de cursar uma faculdade continuava presente, mas João ainda não sabia exatamente qual profissão seguir. A escolha por Educação Física surgiu quando ele foi buscar informações sobre o Fundo de Financiamento Estudantil, o FIES, e viu uma mãe matriculando o filho naquele curso.
A situação despertou sua curiosidade e ele resolveu experimentar a graduação. O que inicialmente apareceu como uma possibilidade acabou se tornando, segundo João, a profissão com a qual mais se identificou, dando uma direção concreta ao sonho de ensino superior que carregava desde os 21 anos.
Aos 54 anos, entrou na faculdade e virou o aluno mais velho das turmas
João começou Educação Física aos 54 anos. Além da diferença de idade em relação à maior parte dos colegas, precisava administrar um obstáculo que acompanhava sua trajetória havia décadas: a falta de dinheiro suficiente para manter todos os custos do curso.
Mesmo assim, decidiu continuar. O ex-morador de rua voltou à condição de estudante em uma fase da vida em que muitas pessoas já teriam considerado tarde demais para iniciar uma graduação, e passou a organizar sua formação de acordo com aquilo que conseguia pagar a cada semestre.
Falta de dinheiro fez graduação de quatro anos durar sete
João explicou que não possuía condições financeiras para cursar todas as disciplinas previstas em cada período. A solução foi “fracionar” a faculdade: em alguns semestres matriculava-se em menos matérias; quando tinha condições melhores, aumentava a carga.
Por isso, o curso que normalmente poderia ser concluído em quatro anos levou sete. A demora não ocorreu por abandono dos estudos, mas porque João precisou adaptar a formação à própria capacidade financeira, avançando disciplina por disciplina até completar todos os requisitos exigidos pela graduação.
Sete anos de faculdade fizeram João passar por várias turmas
O tempo adicional significou também conviver com diferentes grupos de estudantes. Enquanto colegas entravam e concluíam o curso, João continuava avançando em ritmo próprio, o que fez com que ele brincasse que havia se tornado uma espécie de “mascote” de várias turmas.
Segundo seu relato, a diferença de idade não gerou rejeição. Pelo contrário, afirmou ter recebido respeito e incentivo dos colegas. Nem todos conheciam integralmente sua história, mas muitos percebiam a persistência daquele estudante mais velho e o estimulavam a continuar até o fim.
Estágio em São José dos Pinhais abriu uma nova oportunidade
Durante o curso, João precisou cumprir atividades complementares e, em 2014, procurou o Centro de Esportes Ney Braga, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. Foi ali que sua trajetória chamou a atenção de Alessandro Hendler, então secretário de esportes do município.
Depois de conhecerem sua história, profissionais ligados ao espaço ofereceram a João uma oportunidade de estágio. O apoio foi além da experiência profissional: funcionários se mobilizaram e ajudaram até na obtenção de uma motocicleta, facilitando seu deslocamento e sua continuidade nos estudos.
Pontualidade e dedicação fizeram João conquistar espaço no estágio
Alessandro Hendler relatou que João acabou sendo acolhido não apenas pela secretaria, mas também pelos atletas e demais pessoas que conviviam com ele. Sua postura no trabalho, especialmente a pontualidade e a disposição para realizar tarefas, foi destacada como uma das características que chamaram atenção.
A experiência funcionou como mais uma etapa de sustentação da graduação. Para João, que durante anos havia enfrentado instabilidade e falta de recursos, o estágio significava participar diretamente da área que havia escolhido e construir vínculos capazes de ajudá-lo a permanecer na faculdade.
Formatura em 10 de agosto virou o momento mais marcante de sua vida
João estudou no Centro Universitário UniDomBosco e concluiu a graduação em 2019. A cerimônia de formatura aconteceu em 10 de agosto, menos de um mês antes da publicação da reportagem que apresentou sua história.
Ele contou que chegou ao evento imaginando que poucas pessoas apareceriam para acompanhá-lo. Tímido, distribuiu convites sem saber quem realmente compareceria. Quando seu nome foi anunciado para receber o canudo e formalizar a graduação, porém, João foi surpreendido por uma reação que transformou aquela noite em uma memória definitiva.
Aplausos fizeram João quase perder o chão
Segundo o próprio relato, os aplausos não vieram apenas das pessoas que havia convidado. João disse ter sido aplaudido amplamente no momento em que subiu para receber o símbolo da graduação, reação que o deixou profundamente emocionado.
Para alguém que durante anos acreditou não ter muitas pessoas ao seu lado, a cena ganhou um significado particular. O diploma representava não apenas sete anos de faculdade, mas décadas de espera entre o sonho iniciado aos 21 anos e a formação finalmente alcançada aos 61.
Mesmo formado, João já pensava em continuar estudando
A graduação não encerrou seus planos acadêmicos. Ainda em 2019, João afirmou que gostaria de fazer uma especialização e continuar aprofundando seus conhecimentos, desde que conseguisse reunir condições financeiras para isso.
A lógica era semelhante àquela que havia sustentado sua faculdade: estudar sempre que os recursos permitissem. Depois de levar sete anos para concluir Educação Física, ele não enxergava o tempo como argumento para parar, mas como parte de uma trajetória construída conforme as oportunidades apareciam.
Mais de 40 anos sem ver a família ainda eram uma ausência
Apesar da conquista profissional, João carregava outra questão pessoal sem resolução. Ele contou que estava havia mais de 40 anos sem encontrar a família e que nem sabia como estavam seus cinco irmãos.
Segundo seu relato, os parentes não sabiam sequer se ele continuava vivo. Uma das maiores vontades de João era reencontrá-los, abraçá-los e poder contar pessoalmente que havia mudado sua vida e conquistado o ensino superior que perseguira por décadas.
Da rua ao diploma, trajetória levou quatro décadas
Entre a saída de Manaus aos 21 anos e a formatura aos 61, passaram-se aproximadamente quatro décadas. Nesse intervalo, João viveu por longos períodos sem teto, passou por São Paulo, chegou a Curitiba, cuidou de carros, enfrentou fome, começou uma faculdade já mais velho e precisou reduzir a quantidade de disciplinas porque não conseguia pagar o curso integralmente.
A história do ex-morador de rua não foi construída por uma mudança repentina, mas por pequenas etapas acumuladas durante muitos anos até o diploma finalmente chegar. Para você, o que mais impressiona nessa trajetória: manter o sonho por quatro décadas, começar a faculdade aos 54 anos ou levar sete anos estudando conforme conseguia pagar? Conte sua opinião nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

