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Duas mulheres entregaram o pão e o leite que levavam para casa a migrantes famintos sobre um trem no México, a mãe transformou o gesto em uma operação comunitária e, 30 anos depois, Las Patronas ainda alimentam milhares de pessoas
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 14/08/2026 às 23:09
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Las Patronas, rede comunitária criada em Veracruz, nasceu de uma entrega de pão e leite a migrantes sobre La Bestia e transformou horas de preparo em refeições distribuídas em segundos, além de água, abrigo, roupas e medicamentos para pessoas que atravessam o México.
Duas mulheres voltavam para casa com pão e leite quando ouviram migrantes famintos pedindo comida do alto de um trem de carga no México. Elas entregaram o que carregavam e contaram o episódio à mãe, Leonila Vázquez Alvízar, que decidiu começar a alimentar outras pessoas que passassem pelo mesmo caminho.
O encontro ocorrido em 1995 deu origem às Las Patronas, grupo de mulheres da comunidade de La Patrona, no Estado de Veracruz. O que começou com alimentos tirados da própria casa virou uma operação que exige horas diante das panelas e apenas alguns segundos para colocar as sacolas nas mãos de migrantes agarrados aos vagões.
A informação foi publicada por EL PAÍS, jornal espanhol com edição dedicada ao México. Três décadas depois, a rede não se limita à entrega de comida nos trilhos e oferece outras formas de apoio durante a passagem dos migrantes pelo país.
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Um pedido de comida mudou a rotina de uma família
As duas mulheres estavam em Amatlán de los Reyes quando ouviram homens sobre o trem gritar: “Madre, tenemos hambre” (mãe, temos fome). A frase era direta e mostrava uma necessidade urgente. Sem tempo para preparar qualquer resposta, elas entregaram o pão e o leite que levariam para casa.
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Leonila ouviu o relato das filhas e tomou uma decisão que mudaria a rotina da família. Ela passaria a dividir a comida com desconhecidos que cruzavam a região sobre o trem, muitos acompanhados por crianças e carregando apenas uma mochila ou uma sacola com seus pertences.
Naquele momento, a família ainda não conhecia a dimensão da migração que atravessava o México. Mesmo assim, a fome visível sobre os vagões foi suficiente para provocar uma reação. Em vez de tratar aquela entrega como um episódio isolado, Leonila começou a organizar a preparação das refeições seguintes.
As primeiras 75 refeições preparadas em 1995
Leonila, as filhas e outras mulheres recolheram recipientes, lavaram garrafas usadas e as encheram com água potável. Depois, reuniram alimentos e prepararam 75 refeições para a primeira distribuição organizada.
O nome Las Patronas veio da comunidade de La Patrona, onde Leonila nasceu, cresceu e realizou o trabalho. O pequeno povoado fica no Estado de Veracruz e passou a ser conhecido pela presença das mulheres que esperavam a passagem do trem para entregar comida e água.
A iniciativa foi recebida com desconfiança por parte de algumas pessoas. As mulheres chegaram a ser chamadas de loucas por gastarem recursos limitados com desconhecidos que provavelmente nunca voltariam a encontrar. Leonila, porém, via nos viajantes pessoas que poderiam ser seus filhos ou netos.
A organização cresceu com a participação de filhas, amigas, vizinhas e voluntárias. A cozinha doméstica passou a atender um fluxo maior de pessoas, enquanto as entregas exigiam preparo constante e uma organização capaz de acompanhar a passagem dos trens.
Horas de cozinha para uma entrega de poucos segundos
Antes de La Bestia aparecer, as mulheres cozinham arroz e feijão, separam pães, enchem garrafas e fecham as porções. A preparação pode ocupar várias horas. Quando o trem reduz a velocidade, porém, todo o trabalho precisa ser entregue em menos de um minuto.
As participantes se posicionam ao lado dos trilhos com as sacolas prontas. O trem não funciona como transporte regular de passageiros e não faz uma parada para o recebimento dos alimentos. Por isso, cada entrega depende da redução da velocidade e do rápido contato entre quem está no chão e quem permanece sobre os vagões.
Os migrantes precisam alcançar a sacola sem perder o ponto de apoio no trem. Ao mesmo tempo, as mulheres devem manter distância suficiente dos vagões e evitar movimentos que coloquem alguém em risco. Uma ação de segundos depende de atenção, experiência e coordenação.
Essa rotina transformou utensílios simples, alimentos doados e trabalho comunitário em uma operação de logística humanitária. Não há plataforma de embarque nem equipe profissional ao redor dos trilhos. Há uma rede local tentando entregar comida e água dentro de uma janela extremamente curta.
La Bestia não é um trem de passageiros
La Bestia é o nome usado para os trens de carga nos quais migrantes avançam pelo território mexicano em direção à fronteira norte. Pessoas vindas de diferentes partes do continente viajam no teto, nas laterais e em outros pontos externos dos vagões.
Essa travessia não deve ser confundida com uma viagem comum. Os vagões não foram projetados para transportar passageiros, e permanecer sobre uma composição em movimento envolve risco constante de queda e ferimentos graves.
Além dos perigos da ferrovia, o caminho expõe os migrantes à violência, exploração, fome e falta de água. Muitas pessoas fazem o percurso com crianças e poucos pertences. A sacola recebida em Veracruz atende uma necessidade imediata, mas não torna a rota segura.
A ajuda passou dos trilhos para o abrigo e os medicamentos
As rotas migratórias mudaram ao longo dos anos, e o atendimento também foi ampliado. A organização passou a oferecer abrigo, roupas, medicamentos e apoio hospitalar, além da comida e da água entregues durante a passagem dos trens.
EL PAÍS, jornal espanhol com edição dedicada ao México, registrou que Las Patronas atenderam mais de 6.000 pessoas em 2024. Em casos de maior necessidade, a rede também ajudou com despesas funerárias.
O crescimento da assistência aumentou a dependência de doações. Os alimentos, recipientes, roupas e demais recursos precisam chegar continuamente para que as voluntárias consigam manter o atendimento. A própria coordenação reconhece que a ajuda não seria possível apenas com os recursos da família.
O antigo gesto de dividir pão e leite virou uma estrutura comunitária de acolhimento. Mesmo sem resolver os problemas que empurram migrantes para uma rota perigosa, Las Patronas reduzem a fome e oferecem apoio durante um trecho vulnerável da viagem.
Las Patronas continuaram após a morte de Leonila
Leonila Vázquez Alvízar morreu aos 89 anos, em 13 de abril de 2025. Ela permaneceu ligada ao trabalho enquanto sua saúde permitiu e foi velada no espaço que, ao longo dos anos, serviu como casa, cozinha, comedor e refúgio para pessoas em trânsito.
A morte da fundadora não encerrou a operação. As filhas, amigas, vizinhas e colaboradoras continuaram o trabalho, com Norma Romero, filha de Leonila e coordenadora da organização, entre as responsáveis pela continuidade da rede.
Las Patronas nasceram de uma refeição entregue sem planejamento, mas sobreviveram porque aquele impulso virou rotina. Preparar, embalar, esperar o trem e estender as mãos passou a fazer parte da vida de mulheres que decidiram não ignorar a fome diante de suas casas.
Trinta anos depois, o pão e o leite daquele primeiro encontro permanecem como símbolo de uma operação muito maior. O grupo continua mostrando como uma comunidade pode agir rapidamente diante de um problema humano que atravessa fronteiras, ferrovias e gerações.
Conte nos comentários: até onde uma rede comunitária pode aliviar a fome dos migrantes sem substituir a responsabilidade dos governos por rotas mais seguras?
Fonte
EL PAÍS
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

