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Homem abandonou o trabalho em hotel no Marrocos, entrou no Saara procurando pedras escuras e transformou um hobby com ímã e detector em uma profissão ligada a cientistas e colecionadores
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 17/08/2026 às 21:36
Atualizado em 17/08/2026 às 21:42
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Mustapha Oulkouch deixou a hotelaria em 2006, aprendeu a reconhecer meteoritos pela crosta escura e entrou numa cadeia que conecta caçadores de meteoritos no Saara, geólogos, comerciantes, instituições científicas e colecionadores internacionais
Em meio à areia e às pedras espalhadas pelo Saara, Mustapha Oulkouch procurava superfícies escuras através do detector, capazes de revelar algo extraordinário. O antigo funcionário de hotel deixou a profissão em 2006 e começou a buscar meteoritos no Marrocos como passatempo.
O terreno seco e aberto favorecia a procura. A WIRED, revista internacional de tecnologia, ciência e cultura, mostrou como a pouca vegetação e o clima do Saara ajudam a deixar pedras incomuns visíveis por mais tempo.
O hobby acabou se transformando em trabalho. Em entrevista publicada em 2018, Oulkouch afirmou que já vivia da busca por meteoritos, embora recebesse pouco. Sua trajetória estava distante de uma promessa de fortuna, mas o mantinha ligado à vida que havia escolhido.
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Da rotina do hotel à primeira venda de um meteorito
Oulkouch começou sem dominar todos os sinais usados para reconhecer uma pedra espacial. Ele aprendeu caminhando pelo deserto, observando diferenças de cor, peso, textura e aparência entre milhares de rochas comuns.
A primeira venda de um meteorito mostrou que aquele conhecimento poderia gerar renda. O que havia começado como curiosidade passou a exigir atenção constante, experiência prática e contato com pessoas interessadas em comprar as descobertas.
Com o passar dos anos, ele desenvolveu um olho treinado para perceber a crosta escura encontrada em muitos meteoritos. Também incorporou um ímã e um detector de metais à rotina para procurar materiais com presença de ferro.
Ainda assim, encontrar uma pedra suspeita não significava ter descoberto um meteorito. A aparência podia enganar, e qualquer exemplar promissor precisaria passar por análise antes de receber reconhecimento científico e alcançar compradores confiáveis.
Crosta escura, magnetismo e densidade oferecem as primeiras pistas
Muitos meteoritos chegam ao solo com uma camada externa escurecida chamada crosta de fusão. Ela se forma quando a superfície do material sofre aquecimento intenso durante a passagem pela atmosfera.
No Saara, essa camada pode chamar atenção sobre a areia e as pedras mais claras. Porém, o vento, o tempo e o desgaste natural alteram a superfície, especialmente quando o objeto permanece exposto durante muitos anos.
O ímã e o detector de metais ajudam a localizar exemplares ricos em ferro. Entretanto, várias rochas terrestres também podem reagir ao magnetismo, enquanto alguns meteoritos apresentam uma resposta menos evidente.
Peso e densidade oferecem pistas adicionais, mas não encerram a investigação. Uma pedra escura, pesada e magnética não é automaticamente um meteorito, pois somente a avaliação científica pode confirmar sua origem.
A autenticação científica separa meteoritos de pedras comuns e falsificações
A etapa mais importante acontece longe do deserto. Geólogos e especialistas examinam a estrutura e a composição da amostra para descobrir se o material realmente atravessou o espaço antes de chegar à Terra.
Quando a análise confirma a descoberta, o exemplar pode ser registrado no Meteoritical Bulletin, catálogo de referência usado pela comunidade científica para reunir meteoritos reconhecidos.
Esse processo também protege compradores contra falsificações. Uma pedra terrestre pode apresentar cor escura, alto peso ou partículas metálicas, mas essas características isoladas não comprovam uma origem espacial.
A procedência também precisa ser preservada. Saber onde a pedra foi encontrada, quem a recolheu e por quais pessoas ela passou aumenta a confiança na peça e mantém informações que podem ser úteis para futuras pesquisas.
Pedras encontradas por moradores locais chegam a cientistas e colecionadores
A WIRED, revista internacional de tecnologia, ciência e cultura, registrou que mais de mil meteoritos encontrados no Marrocos receberam reconhecimento oficial, após o crescimento dos achados iniciado em 1999.
A cadeia econômica geralmente começa com nômades e caçadores locais. Depois, as pedras podem passar por comerciantes, geólogos e vendedores até chegar a universidades, museus, pesquisadores e colecionadores internacionais.
Uma amostra classificada e acompanhada de informações sobre sua origem costuma despertar mais interesse. O preço ainda depende do tipo, do tamanho, da conservação e da procura existente no mercado.
Exportação de meteoritos provoca disputa sobre ciência e patrimônio
Durante a expansão desse mercado, muitos exemplares encontrados no Marrocos deixaram o país. A atividade gerou renda para famílias locais, mas também levantou dúvidas sobre quanto do patrimônio científico permanecia disponível para pesquisadores marroquinos.
A professora Hasnaa Chennaoui Aoudjehane, da Universidade Hassan II de Casablanca, trabalha para preservar exemplares importantes no país. Ela defende a criação de uma coleção nacional permanente de meteoritos marroquinos.
O conflito envolve duas necessidades. A venda sustenta caçadores e comerciantes, mas a retirada sem documentação pode fazer o país perder materiais valiosos para o estudo da formação do Sistema Solar.
No Brasil, a procura tende a ser mais difícil em áreas úmidas ou cobertas por vegetação. Folhas, plantações, chuva e alterações do solo escondem e desgastam as pedras, enquanto as extensões abertas do Saara facilitam a observação.
Uma profissão incomum que não oferece descoberta ou renda garantida
Mustapha Oulkouch transformou um passatempo em uma ocupação ligada ao comércio e à ciência. Seu trabalho exige paciência, experiência visual e disposição para percorrer o deserto sem saber se alguma descoberta será feita.
A história também revela o caminho percorrido por uma pedra depois de ser retirada da areia. O meteorito pode passar por caçadores, comerciantes, laboratórios e colecionadores, aumentando de valor enquanto uma parte pequena desse dinheiro permanece com quem iniciou a cadeia.
Você considera justo que um meteorito encontrado por um caçador local seja vendido por muito mais fora do país enquanto ele recebe pouco? Deixe sua opinião e compartilhe a história.
Fonte
WIRED
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

