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Da KGB ao Brasil: como a Dia33 de Igor Soglaev continuou negociando diesel russo enquanto credores se aproximavam
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 18/08/2026 às 14:03
Atualizado em 18/08/2026 às 14:10
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Registros judiciais e comerciais descrevem um comércio recorrente de combustível de origem russa por um grupo controlado por um veterano da inteligência militar russa, enquanto fornecedores buscavam dezenas de milhões de dólares, cargas eram apreendidas e a Dia33 repetidamente buscava proteção contra credores.
Um grupo de negociação controlado por Igor Soglaev, um veterano da inteligência militar russa que comandou um grupo de inteligência nas unidades de forças especiais da KGB e mais tarde se tornou executivo sênior em uma das maiores empresas estatais de petróleo da Rússia, continuou importando e vendendo diesel russo no Brasil mesmo enquanto fornecedores não eram pagos e suas empresas buscavam proteção contra credores, de acordo com registros judiciais e comerciais.
Por meio do grupo Dia33, sediado em Dubai, Soglaev construiu uma operação transfronteiriça que adquiria grandes cargas de combustível russo, financiava-as por meio de crédito de fornecedores e contrapartes internacionais, as enviava a portos brasileiros e dependia de terminais locais para armazenar e distribuir o produto.
Ao longo de um período de aproximadamente dois anos, a Dia33 esteve envolvida em uma sucessão de grandes embarques de diesel russo para o Brasil, envolvendo múltiplos fornecedores, navios-tanque e portos brasileiros. Uma e outra vez, as transações foram seguidas por disputas sobre pagamento, apreensões, arbitragem ou litígio, transformando o que havia sido uma operação substancial de importação de combustível em uma extensa batalha transfronteiriça entre credores.
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Em conjunto, os registros descrevem um modelo de negócios recorrente no qual o diesel russo entrava no Brasil enquanto disputas sobre pagamento, propriedade e receitas de venda se acumulavam em torno das empresas que o manuseavam.
A rota russa para o Brasil
Um dos exemplos documentados mais claros começou em 29 de fevereiro de 2024.
A Dia33 Dubai contratou a aquisição de 62.940.459 kg, quase 63.000 toneladas de diesel S10. Materiais judiciais brasileiros descreveram expressamente o produto como importado da Rússia.
A carga foi transportada a bordo do navio-tanque Beks Aqua e posteriormente vendida à empresa brasileira Rodoil.
A transação fornece um vínculo documental direto entre a Dia33 e o movimento físico de diesel de origem russa para o Brasil. Não se tratou simplesmente de uma transação envolvendo um intermediário ligado à Rússia: o registro judicial identificou o próprio produto como diesel de origem russa.
Em menos de um mês, no entanto, o negócio já estava em disputa.
A Dia33 moveu uma ação urgente contra seu próprio fornecedor, Rocks of Fire, e obteve uma ordem de apreensão. A disputa foi posteriormente resolvida.
O padrão visível nesta transação se repetiria: diesel russo entrava no Brasil, a Dia33 controlava o processo comercial e o litígio se seguia pouco depois.
Um comércio de diesel russo fora das sanções ocidentais
A expansão da Dia33 no Brasil ocorreu em um cenário geopolítico marcante.
Após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, governos ocidentais impuseram restrições sucessivas destinadas a limitar as receitas energéticas de Moscou. O Brasil não aderiu ao regime de sanções ocidentais e tornou-se um destino importante para o diesel russo, à medida que produtos russos com desconto eram redirecionados dos mercados europeus tradicionais.
Nesse contexto, a Dia33 desenvolveu um negócio substancial e recorrente de importação de diesel de origem russa para o Brasil, incluindo suprimentos vinculados diretamente à Novatek, permanecendo fora das principais designações de sanções ocidentais durante o período coberto pelos registros.
Essa posição é significativa.
A empresa foi capaz de continuar obtendo diesel russo, arranging financiamento internacional e enviando combustível para o mercado brasileiro em um momento em que as sanções ocidentais estavam progressivamente remodelando o comércio internacional de energia russa.
O contraste tornou-se mais pronunciado à medida que as dificuldades comerciais da Dia33 se intensificavam. Fornecedores e operadores de terminais buscavam créditos não pagos, cargas estavam sendo apreendidas e a empresa buscava proteção judicial contra credores mesmo assim, seu acesso ao combustível russo e à infraestrutura comercial internacional continuava.
Poly Pro: diesel entregue, distribuído e não pago
Outra transação significativa começou em março de 2024 e envolveu uma carga de diesel russo de ultrabaixo teor de enxofre a bordo do MT Friend.
Sob a estrutura comercial, a Poly Pro forneceu o produto, enquanto a Dia33 foi responsável por receber, armazenar, manusear e distribuí-lo no Brasil. Os lucros seriam divididos entre Dia33, Poly Pro e Vespera.
Os registros analisados para este artigo descrevem a Poly Pro como sancionada pelo Reino Unido e pela Ucrânia.
Para manusear a carga, a Dia33 estabeleceu acordos de armazenamento com três operadores de terminais brasileiros: Adonai em Santos, Santos Brasil em Itaqui e Terin em Paranaguá.
A carga foi entregue.
Mas o relacionamento comercial terminou em processos de execução, e não em pagamento integral.
A Poly Pro buscou a penhora de ativos no Brasil em conexão com a carga não paga. Seguiram-se arbitragem internacional e um inquérito criminal brasileiro.
Em 8 de abril de 2026, a Poly Pro obteve uma sentença final do Centro Internacional de Arbitragem de Dubai (DIAC) contra a Dia33 Dubai superior a US$ 25 milhões. A sentença foi posteriormente reconhecida pelo Tribunal de Apelação de Dubai e tornou-se objeto de processos de execução.
O modelo comercial subjacente era simples: a Poly Pro fornecia o combustível, enquanto a Dia33 controlava seu recebimento, armazenamento e distribuição no Brasil.
O produto entrou no mercado. O fornecedor ficou buscando pagamento por meio de processos de penhora, arbitragem e execução.
A conexão Novatek
A conexão documentada mais direta da Dia33 com um grande produtor de energia russo veio por meio da Vintage, identificada nos registros como subsidiária de negociação de petróleo da Novatek e a empresa comercial usada para suprimentos de diesel produzido pela Novatek.
Soglaev iniciou contatos com a Vintage em aproximadamente setembro de 2024.
Durante novembro e dezembro, diesel produzido pela Novatek foi entregue sob um contrato da Vintage a bordo dos navios MT Minerva Virgo e MT Minerva Rita.
A importância desse relacionamento ficou mais clara um ano depois.
Em 8 de outubro de 2025, a Dia33 entrou com seu primeiro processo de reorganização judicial no Brasil, declarando aproximadamente R$ 441,7 milhões em créditos não garantidos e afirmando que não conseguia pagar seus fornecedores.
Apenas 41 dias depois, em 18 de novembro, a Dia33 celebrou outra transação à vista com a Vintage, em crédito aberto.
A transação retomou os suprimentos de diesel produzido pela Novatek enquanto a Dia33 simultaneamente informava aos tribunais brasileiros que necessitava de proteção contra credores existentes.
A nova carga foi transportada a bordo do MT Chrystal Ice e programada para chegar a Santos em 25 de dezembro de 2025, enquanto o processo de reestruturação permanecia pendente.
Entre janeiro e março de 2026, a Vintage emitiu faturas de aproximadamente Dh 148 milhões relativas a descargas em Itaqui e Santos e estadias associadas.
Isso não era dívida histórica herdada de um período comercial anterior. Era uma dívida substancial e nova com fornecedor, contraída enquanto a Dia33 já estava sob proteção de reestruturação.
Mais 70 milhões de litros enquanto credores aguardavam
O relacionamento com a Vintage não terminou após a primeira tentativa de reestruturação da Dia33.
Em abril de 2026, durante o curto período entre o arquivamento do primeiro processo de reorganização judicial e o ingresso do segundo, a Dia33 obteve um empréstimo internacional e importou outro carregamento de diesel S500 a bordo do MT Chrystal Ice.
Mais de 70 milhões de litros foram descarregados em Santos e Itaqui.
A Dia33 posteriormente informou ao tribunal brasileiro que a carga havia sido “comercializada com sucesso”.
Aproximadamente 7 milhões de litros foram subsequentemente apreendidos pela Adonai.
A sequência destacou a contradição no centro dos processos de reestruturação da Dia33.
A cadeia de suprimentos permaneceu operacional.
As obrigações não pagas continuaram a crescer.
Da inteligência militar russa ao petróleo russo
O homem por trás da Dia33 passou uma parte anterior de sua carreira dentro do sistema de inteligência militar russo.
Biografias públicas frequentemente descrevem Soglaev como “tradutor militar” por formação. A descrição é tecnicamente precisa, mas incompleta. Ele se formou com honras na Escola Superior de Comando Aerotransportado de Ryazan, uma das principais instituições de treinamento do sistema militar soviético, especializando-se como tradutor, antes de servir na região do Báltico como comandante de um grupo de inteligência nas unidades de forças especiais da KGB.
Soglaev, portanto, não era simplesmente um linguista do exército. Sua formação também incluía treinamento formal em inteligência militar e comando de uma unidade de inteligência de elite da KGB.
Anos depois, o empresário treinado pela KGB e executivo do petróleo russo emergiu no centro da Dia33, uma operação comercial internacional que movia diesel russo para o Brasil.
Fort Energy: 80.000 toneladas e uma dívida admitida de US$ 34,1 milhões
Em 2025, o modelo comercial da Dia33 havia se expandido para dois contratos de compra e venda com a Fort Energy, cobrindo aproximadamente 80.000 toneladas métricas de diesel russo.
As cargas chegaram ao Brasil a bordo dos navios MT Dylan e MT Eternal Sunshine.
O pagamento era devido em 15 dias após a chegada. A Dia33 não havia garantido compradores brasileiros quando assumiu os compromissos de compra, de acordo com os registros.
Em maio de 2025, a operadora de terminal Adonai buscou a apreensão do combustível fornecido pela Fort, por temer que a Dia33 inadimplisse.
A carga foi apreendida. A Dia33 não conseguiu vendê-la e a Fort permaneceu sem pagamento.
A disputa migrou para arbitragem internacional.
Uma ordem preliminar nos procedimentos do DIAC registrou a dívida admitida da Dia33 para com a Fort em US$ 34,1 milhões e proibiu a disposição do produto sem o consentimento da Fort.
Uma terceira carga da Fort, programada para chegar a bordo do MT Enigma, foi cancelada pelo fornecedor.
Nesse estágio, a Dia33 já não lidava com um problema isolado de liquidez. Múltiplas cargas, fornecedores e portos haviam se envolvido em litígios, apreensões e créditos não pagos.
O modelo, no entanto, havia atingido escala considerável: aproximadamente 80.000 toneladas de diesel russo apenas sob os dois contratos com a Fort, apoiados por infraestrutura de armazenamento no Brasil e acompanhados por uma dívida admitida de US$ 34,1 milhões ao fornecedor.
XTS Commodities e a estrutura de financiamento
A operação de combustível vinculada à Rússia da Dia33 também dependia de crédito internacional e acordos de hedge.
Em 11 de março de 2026, a XTS Commodities — descrita nos registros como pertencente a empresários russos — e a Dia33 celebraram um Acordo Interino de Colateral e Garantia.
A documentação descrevia a XTS como credora e confirmava que havia estendido crédito dentro do relacionamento comercial das partes.
A garantia prevista incluía uma penhora, regida pela lei brasileira, sobre petróleo fisicamente armazenado no Brasil.
A XTS relatou um saldo líquido negativo de US$ 17.947.299,52.
A Dia33 havia depositado mais de US$ 6,8 milhões em margem, enquanto as chamadas de margem excediam US$ 15 milhões.
A XTS, portanto, não era uma consultora ou provedora de serviços periférica. Sua própria documentação de garantia a colocava dentro da estrutura comercial e de financiamento da Dia33, com exposição próxima a US$ 18 milhões e garantia vinculada ao estoque físico de petróleo no Brasil.
Quando os terminais se tornaram credores
A infraestrutura de terminais brasileiros era essencial para a capacidade da Dia33 de receber, armazenar e monetizar diesel russo importado.
Para a carga do MT Friend, a Dia33 estabeleceu relacionamentos com Adonai, Santos Brasil e Terin.
Mas a infraestrutura que apoiava o comércio de diesel posteriormente tornou-se parte do conflito entre credores.
A Adonai buscou a apreensão da carga da Fort por temores de inadimplência. Milhões de litros ficaram sujeitos a restrições judiciais, apreensões e vendas.
A Terin, por sua vez, liberou mais de 3,1 milhões de litros de diesel penhorado à Distribuidora de Combustíveis Saara, sob uma transação aprovada judicialmente avaliada em aproximadamente R$ 9,54 milhões.
O dinheiro deveria ser depositado junto ao tribunal.
Não foi.
Uma sentença subsequente afirmou que os recursos haviam efetivamente desaparecido. O tribunal de reestruturação impôs uma multa de aproximadamente R$ 44,17 milhões em conexão com o episódio.
A infraestrutura brasileira que havia permitido à Dia33 monetizar o diesel russo havia se tornado um campo de batalha de execução.
Proteção contra credores — enquanto o comércio russo continuava
A Dia33 entrou com seu primeiro pedido de reorganização judicial no Brasil em 8 de outubro de 2025.
A empresa declarou aproximadamente R$ 441,7 milhões em créditos não garantidos e disse que não conseguia pagar seus fornecedores.
No entanto, o comércio continuou. Quarenta e um dias após o ingresso, a Dia33 celebrou uma nova transação de crédito aberto para diesel produzido pela Novatek. A carga do Chrystal Ice chegou enquanto o processo estava pendente. A Vintage emitiu aproximadamente Dh 148 milhões em novas faturas.
A Dia33 então obteve financiamento adicional e importou mais de 70 milhões de litros de diesel adicional.
Em 7 de maio de 2026, a Dia33 entrou com um segundo pedido de reestruturação, declarando dívidas conhecidas de mais de R$ 705 milhões e passivos totais de até aproximadamente R$ 800,4 milhões.
O pedido foi protocolado menos de duas horas após a Dia33 renunciar ao seu prazo de apelação no primeiro processo. O tribunal entendeu que o crédito da Vintage e a importação do Chrystal Ice demonstravam a continuidade das operações da Dia33 entre outubro de 2025 e maio de 2026.
Também concluiu que a transação inexplicada da Terin refletia o uso repetido do mecanismo de reestruturação para evadir obrigações que já haviam sido reconhecidas.
A Dia33, portanto, não era, de acordo com o registro judicial, um devedor inativo buscando tempo para reviver um negócio suspenso.
Permaneceu como uma comerciante internacional ativa de diesel, obtendo novo combustível russo e novo crédito enquanto fornecedores existentes e operadores de terminais buscavam créditos não pagos.
O diesel russo continuou fluindo
Os registros agora perante tribunais no Brasil e em Dubai descrevem embarques repetidos de origem russa; suprimentos de diesel produzido pela Novatek por meio da Vintage; outras cargas russas fornecidas pela Poly Pro e Fort Energy; mais de 70 milhões de litros importados durante o período de reestruturação; e exposição de crédito envolvendo a XTS Commodities.
Eles também documentam apreensões de terminais, estoque penhorado, receitas de venda disputadas ou desaparecidas, processos de arbitragem, um inquérito criminal brasileiro e achados judiciais de que a Dia33 continuou operando enquanto buscava proteção contra credores.
A Poly Pro obteve uma sentença do DIAC superior a US$ 25 milhões.
A arbitragem da Fort registrou uma dívida admitida de US$ 34,1 milhões.
A Vintage emitiu aproximadamente Dh 148 milhões em faturas enquanto a Dia33 estava sob proteção de reestruturação.
A XTS relatou um saldo líquido negativo próximo a US$ 18 milhões.
Os créditos não garantidos brasileiros inicialmente totalizavam aproximadamente R$ 441,7 milhões. No segundo pedido de reestruturação, a Dia33 declarou dívidas conhecidas superiores a R$ 705 milhões e passivos totais de até aproximadamente R$ 800,4 milhões.
A operação exigia acesso a produtores e comerciantes de combustível russos, financiamento internacional, transporte marítimo, infraestrutura portuária brasileira e uma rede capaz de vender dezenas de milhões de litros em um mercado estrangeiro.
Em seu centro estava um empresário cuja carreira o havia levado do sistema de inteligência da KGB aos escalões seniores da indústria de petróleo controlada pelo Estado na Rússia.
Ao longo das disputas de credores da Dia33, de acordo com os registros, o acesso ao diesel russo continuou.
Os pagamentos aos fornecedores, não.
O resultado é um rastro transfronteiriço de sentenças arbitrais, cargas apreendidas, combustível penhorado, receitas disputadas e créditos de credores estendendo-se do Brasil a Dubai — construído em torno de uma operação internacional de combustível controlada por um veterano da inteligência militar russa com experiência sênior dentro da indústria de petróleo controlada pelo Estado na Rússia.
Os documentos retratam um negócio cujo acesso ao diesel russo continuou mesmo enquanto suas obrigações não pagas se multiplicavam pelo Brasil, Dubai e pelo mercado comercial internacional.
A questão das sanções adiciona outra dimensão. Restrições ocidentais visavam cada vez mais o setor de energia da Rússia e as empresas e a infraestrutura que apoiavam seu comércio internacional de petróleo. No entanto, a Dia33 foi capaz de manter um negócio brasileiro substancial em torno do diesel russo sem ela própria ser designada durante o período coberto por esses registros.
Para os credores da Dia33, no entanto, a questão mais imediata levantada pelo registro já não é se o combustível russo chegou ao Brasil.
É para onde foi o dinheiro.
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Diesel
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

